ONG quer promover investigação internacional sobre caso Lava Jato

Polícia Federal em operação da Lava Jato em foto de arquivo (Reuters) Direito de imagem Reuters
Image caption Polícia Federal em operação ligada à Lava Jato no Rio; foram levantadas suspeitas de propina em obras em outros países

A ONG anticorrupção Transparência Internacional fará uma investigação própria sobre os desdobramentos da operação Lava Jato em outros países do continente.

A iniciativa ocorre num momento em que a Lava Jato despertou a atenção no Peru, após virem à tona indícios de que empreiteiras brasileiras teriam pago propinas para executar obras no país.

A Proética, entidade que representa a Transparência Internacional no Peru, confirmou à BBC Brasil que vai pedir informações a órgãos públicos peruanos a respeito de contratos no país vizinho de empresas brasileiras citadas na Lava Jato.

"Essa iniciativa de caráter regional surge pelo caso da Lava Jato: seções da Transparência Internacional na Venezuela, Guatemala, Argentina, Peru, Panamá e República Dominicana estão se coordenando (para buscar dados) junto com o departamento de Américas da nossa secretaria, em Berlim", informou a Proética por e-mail.

"A informação (coletada) será avaliada e em seguida remetida aos operadores da Justiça no Brasil. Em outros países da América Latina, as seções nacionais da Transparência Internacional farão o mesmo. A informação que buscamos está relacionada às operações dessas empresas brasileiras (diretamente ou através de sucursais ou consórcios) em países latino-americanos que não o Brasil."

"Em cada país onde a Transparência tem uma seção e onde essas empresas atuaram, serão solicitados às autoridades todos os contratos que tiverem, com amparo das leis de acesso à informação", disse o presidente da Transparência Internacional, o peruano José Ugaz, ao serviço oficial de notícias peruano Agência Andina.

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Segundo a Agência Andina, a investigação da Transparência Internacional poderia ir além da América Latina, em países como os EUA e no continente africano, "onde empresas brasileiras executaram obras que hoje são alvo de denúncias de suborno".

No âmbito oficial, o procurador-geral do Peru, Fuad Khoury, afirmou na quinta-feira que também vai investigar o caso.

O caso

Vieram à tona nesta semana informações sobre supostos vínculos de empreiteiras envolvidas no esquema de corrupção na Petrobras e do ex-ministro José Dirceu com a gestão de Alan García, antecessor do atual presidente peruano, Ollanta Humala, e possível candidato à sua sucessão na eleição de 2016.

O congressista Sergio Tejada, ex-aliado de Humala, diz estar apurando os supostos vínculos entre uma brasileira contratada pela empresa JD Consultoria, de Dirceu, empreiteiras e a administração de García.

Implicado por delatores da Lava Jato, Dirceu foi preso na última segunda-feira pela Polícia Federal – entre outras acusações, os investigadores dizem que pagamentos feitos por empreiteiras à empresa de Dirceu seriam de propina.

Tejada publicou no Twitter a suposta agenda de visitas de Dirceu e de sua contratada Zaida Sisson ao palácio presidencial durante a gestão de García. "Há muito a ser investigado", escreveu na rede social. Ele citou supostos encontros de Dirceu, de Zaida e cinco empresários com o então presidente, em 2007.

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Image caption Operação investiga supostos vínculos de empreiteiras com José Dirceu para obras no Peru

O congressista Mauricio Mulder, do mesmo partido que García, o APRA, negou que o ex-presidente tenha se reunido com Zaida. "As visitas ao Palácio nem sempre são ao gabinete presidencial. Posso garantir que ela não teve reunião com o ex-presidente", disse Mulder, segundo o site do jornal El Comercio.

De acordo com a imprensa local, Zaida teria visitado o palácio presidencial também no governo de Humala, em 2013, para reunião com a então responsável pelo Organismo Supervisor das Contratações do Estado, Rocío Calderón.

Calderón seria amiga da primeira-dama, Nadine, ainda segundo a imprensa peruana. Quando questionado por jornalistas, na quarta, sobre essa suposta reunião, Humala respondeu que tinha a "impressão" de que querem "afetar uma pessoa" (Calderón).

O Ministério Público local diz já investigar, desde a Operação Castelo de Areia, supostos pagamentos de suborno para a construção da rodovia Interoceânica, que liga Brasil e Peru e foi realizada nos governos de Alejandro Toledo (2001-2006) e de García (2006-2011).

Humala afirmou que "lamenta a situação" que o Brasil está vivendo e que se o caso da Interoceânica atingir funcionários de seu governo, eles também serão investigados.

Em entrevista, nesta quarta, à emissora de rádio RPP, de Lima, Zaida afirmou que seu trabalho para a JD Consultoria, de Dirceu, consistiu no estabelecimento de relações entre as empresas brasileiras com o mercado peruano. Ela negou irregularidades.

Colaborou Marcia Carmo, de Buenos Aires para a BBC Brasil