Brasil 'já deveria ter sido rebaixado no ano passado', diz economista que 'previu' crise de 2008

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Image caption Roubini tem criticado trabalho das agências de risco como "muito lento"

O economista Nouriel Roubini ficou conhecido como "Dr. Doom" ou "Dr. Catástrofe" por suas previsões bombásticas antes da crise internacional de 2008. Agora, em crítica ao método das agências de classificação de risco, diz que a nota de crédito do Brasil deveria ter sido rebaixada já no ano passado, quando a situação econômica do país já "era bem pior" do que vinha sendo projetado pelas principais agências.

"O Brasil deveria ter sido rebaixado para abaixo do grau de investimento no ano passado, quando (já) lutava com um crescente déficit fiscal, um crescente peso da dívida e um cenário de negócios fraco e se deteriorando", escreveu Roubini em um artigo publicado nesta terça-feira no jornal Financial Times.

Também nesta terça-feira, a agência de classificação de risco Moody's anunciou um corte na nota de crédito do Brasil de Baa2 para Baa3 e alterou sua perspectiva para estável (antes era negativa). Com o rebaixamento, o Brasil está a um nível de perder o grau de investimento.

Entre os motivos citados pela agência para o rebaixamento estão "o desempenho econômico mais fraco que o esperado, a tendência de alta das despesas do governo e a falta de consenso político sobre as reformas fiscais". Para a Moody's, a "carga de endividamento do governo e a comportabilidade da dívida continuarão a deteriorar significativamente em 2015 e 2016".

Modelo

Roubini defende a adoção de um novo modelo para avaliação de risco, chamado por ele de "shadow rating", que usa dados macroeconômicos para analisar diferentes cenários.

Segundo ele, este método já apontava para uma piora da situação brasileira. Ele afirma que as agências foram lentas em notar as mudanças.

"O 'shadow rating' já vinha sinalizando há alguns meses que o Brasil estava em grandes problemas", disse ele em entrevista à BBC.

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"Agora, de repente, uma das agências de classificação de risco (a S&P) – tarde demais, na nossa opinião – colocou o Brasil em perspectiva negativa para um possível rebaixamento abaixo do grau de investimento. Este é um cenário em que as coisas estão bem piores", disse ele ao comparar a avaliação do "shadow rating" à das agências e antes no anúncio do rebaixamento pela Moody's.

Roubini, fundador e presidente da empresa de pesquisas macroeconômicas Roubini Global Economics, critica as análises feitas pelo mercado, que avaliam o risco de um país dar um calote - "muito volátil", segundo ele - e pelas agências - "muito lentas e distorcidas."

No mês passado, a agência S&P manteve a classificação de crédito do Brasil de longo prazo em moeda estrangeira em "BBB-", o nível mais baixo do grau de investimento, mas mudou a perspectiva da nota de "estável" para "negativa". Isto significa um possível rebaixamento em 12 a 18 meses.

Há a expectativa de que a agência Fitch também deva colocar a nota do país em perspectiva negativa.

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Como funciona?

A sugestão de Roubini é a adoção de um "método alternativo", que analisa mais de 200 variáveis em todos os países do mundo.

"Quando você faz uma análise sobre a dívida de um governo, você não olha só para a dívida pública, mas o déficit público, habilidade de impostos de um país. Você não olha só para a dívida do governo, mas também para a dívida do setor privado, empresas e famílias."

Segundo ele, análises passadas não conseguiram perceber problemas da bolha imobiliária na Irlanda, Espanha ou Islândia, já que não teriam analisado o "excesso de acúmulo de dívida privada."

Ele afirma que usando este "shadow rating" você pode fazer uma análise de curto, médio e longo prazo a partir de fundamentos econômicos sobre a sustentabilidade de certos países.

"Se você olhar para o passado, as agências de classificação de risco têm feito um trabalho ruim em analisar a sustentabilidade de dívida de países, de empresas, de instituições financeiras", disse Roubini.

"Na maioria das vezes, elas olham para trás, não olham para frente. E a classificação delas muda quando os mercados já precificaram quando uma instituição ou economia se tornaram frágeis."

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