Quem é o homem de Washington em Havana?

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Image caption Jeffrey DeLaurentis (à esq. na foto) é visto por muitos em Cuba como um amigo

Reservado, pensativo, dedicado, inteligente e engraçado.

Assim é Jeffrey DeLaurentis, o homem que cuida dos assuntos americanos em Cuba, na visão de sua ex-chefe, a diplomata Vicki Huddleston, que chefiou a missão na ilha entre 1999 e 2002.

Mais do que simples adjetivos, são verdadeiros "ativos" necessários nos meses e anos pela frente, sobretudo se EUA e Cuba pretendem ter sucesso na reconstrução de suas relações diplomáticas, que ficaram rompidas por mais de 50 anos.

Nesta sexta-feira, um novo capítulo começou a ser escrito na história dessas relações, com a cerimônia de reabertura da embaixada americana em Cuba, fechada desde 1961, no auge da Guerra Fria.

DeLaurentis foi apontado como chefe da missão em agosto de 2014 e continuará à frente da representação diplomática. É sua terceira temporada em Cuba.

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Ele primeiramente assumiu como funcionário consular entre 1991 e 1992, e depois voltou como chefe da seção politico-econômica entre 1999 e 2002.

"(Ele) conhece Cuba, pode servir como um guia para o Departamento de Estado e para o presidente porque teve uma relação sólida com os cubanos", afirmou Huddleston.

"Eles (os cubanos) sabem que Jeff os respeita e confiam nele", completou.

Experiente

DeLaurentis especializou-se em América Latina durante boa parte de sua carreira diplomática.

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Image caption Turistas americanos agora têm aproveitado as viagens a Cuba, após a retomada das relações entre os países

Trabalhou na Embaixada dos EUA em Bogotá, na ONU em Genebra, e em Washington, onde atuou no Escritório de Assuntos para o Hemisfério Ocidental, e no Conselho Nacional de Segurança.

"Ele tem a mistura perfeita de experiência necessária para esse caso e também para esse momento único e histórico das relações entre EUA e Cuba", afirmou Ted Piccone, que trabalhou com DeLaurentis no Conselho Nacional de Segurança.

"Desde a última vez que exerceu um cargo (na ilha), Cuba mudou. Por isso penso que é particularmente útil ter alguém que viu o país previamente e que tem um melhor entendimento das mudanças que ocorreram", destacou.

'Como um amigo'

É uma visão que os cubanos também compartilham.

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Image caption Muitos cubanos ficaram satisfeitos com a perspectiva de estreitar as relações com seus vizinhos

"Em Cuba, o vemos como um amigo. Como alguém que não virá para arruinar a relação", afirmou o ex-diplomata cubano Carlos Alzugaray.

"Penso que Jeff tem consciência do que está acontecendo em Cuba, sabe o que poderia chatear um cubano na política externa americana. Ele realmente nos entende e é possível sentir isso", disse.

DeLaurentis enfrentou momentos difíceis enquanto trabalhou em Cuba.

Viveu em Havana quando a ilha passava por graves dificuldades econômicas após o colapso da União Soviética.

Também teve protagonismo no caso Elián González, o menino cubano que em 1999 se converteu em símbolo mundial da dura disputa entre Cuba e EUA, quando foi resgatado no estreito da Flórida.

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Image caption Delaurentis teve um papel chave no caso do menino Elián González

González foi um dos três sobreviventes de um grupo de barqueiros cubanos que tentou chegar ao território americano.

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Depois de ser levado à Flórida, a Justiça americana determinou que ele deveria voltar a Cuba para se reencontrar com seu pai. Foi uma grande vitória para Cuba.

"Tínhamos que manter os cubanos a bordo com a gente", lembra Huddleston.

"Jeff e eu tivemos que conversar com Washington e explicar que era um momento sério, que tínhamos que lidar com calma e efetividade. Jeff é um diplomata muito eficiente."

Prédio histórico

No momento em que DeLaurentis inicia um novo futuro diplomático, o prédio que abriga a Embaixada dos EUA ainda guarda lembranças da relação turbulenta entre Cuba e EUA.

Localizada no chamado Malecón de Havana, o edifício acolheu a embaixada até o rompimento das relações diplomáticas, em 1961.

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Image caption DeLaurentis está em seu terceiro período de trabalho em Cuba

Desde 1977, o local se transformou na Seção de Interesses Americanos, sob proteção legal do governo da Suíça.

Do outro lado do prédio está a chamada tribuna antiimperialista, erguida em 2000.

Ali ocorreram todas as manifestações contra os EUA motivadas pelo caso Elián.

Perto dali é possível ver, em letras grandes, as mensagens mais emblemáticas da Revolução Cubana: "Pátria ou morte" e "Venceremos".

Na parte superior da praça há cerca de 140 mastros que obscurecem o edifício da embaixada.

Essa foi precisamente a intenção do governo cubano quando os EUA ergueram um telão eletrônico que projetava imagens sobre direitos humanos e críticas ao governo cubano.

O que vem agora?

Ninguém parece querer voltar a esses tempos de embate, e será preciso paciência para que EUA e Cuba possam ter sucesso nos próximos anos, afirmou Peter Hakim, do centro de estudos Inter-American Dialogue.

"Acho que o caminho adiante irá se aprofundar. Até agora o Congresso (dos EUA) realmente não tinha muito o que fazer ou dizer a respeito. O presidente (Obama) não estava violando ou mudando leis. Agora o Congresso terá que assumir um papel central na questão do embargo e eventualmente sobre Guantánamo, esses são dois passos grandes", afirmou Hakim.

Mas são passos que demandarão determinação dos dois lados, como afirmou o próprio presidente cubano, Raúl Castro.