Paes ataca 'dono da Barra': 'Não entendeu significado dos Jogos para o Rio'

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Image caption Paes rebateu críticas sobre legado da Olimpíada: "população está vendo, aplaudindo e apoiando"

O prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PMDB), em entrevista exclusiva à BBC Brasil, classificou como "escândalo" as declarações de Carlos Carvalho, um dos maiores nomes do setor imobiliário da cidade, e disse que o empresário "não entendeu nada o que significam as Olimpíadas para o Rio".

Carvalho é dono da incorporadora Carvalho Hosken, que comercializará os 3.604 apartamentos da Vila dos Atletas por até R$ 1 milhão cada. Nesta semana, ele disse à BBC Brasil acreditar que os 31 prédios construídos para acomodar atletas e comissões técnicas não poderão servir de moradias populares após os Jogos, como ocorreu em Londres.

Segundo o empresário, "para botar tubulação de água e de luz há um custo alto, e quem mora paga. Como é que você vai botar o pobre ali?"

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"Ele tem que morar perto porque presta serviço e ganha dinheiro com quem pode, mas você só deve botar ali quem pode, senão você estraga tudo, joga o dinheiro fora. Há muitos bairros que agasalham pessoas com poder aquisitivo mais modesto", disse Carvalho.

Paes disse discordar da avaliação do empresário. "Respeito a liberdade de opinião, mas as opiniões dele foram de um primarismo e de um grau de preconceito assustadores", disse o prefeito, que afirmou que ambos têm uma boa relação.

Professores da Escola de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal Fluminense (UFF) se manifestaram contrários a Carvalho mas também criticaram a Prefeitura pelos preparativos olímpicos, o legado dos Jogos, as moradias populares e o processo de remoção da Vila Autódromo, favela ao lado do Parque Olímpico.

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Image caption Empresário Carlos Carvalho é dono das áreas onde ficam o Centro Metropolitano e a Vila dos Atletas da Rio 2016

Na entrevista, o prefeito atacou o posicionamento do empresário, cuja incorporadora está avaliada em R$ 15 bilhões, e rebateu as críticas dos urbanistas, movidas, segundo ele, por uma posição ideológica contra o setor privado.

"Há as pessoas como o Carlos Carvalho, que são demofóbicas, que têm horror a pobre, e há os que são ideologicamente contra o setor privado. Eu não sou nem demofóbico nem contra o setor privado. Talvez por isso eu tenha sido eleito prefeito dessa cidade duas vezes", disse.

Veja abaixo os principais trechos da entrevista.

BBC Brasil - Como o senhor recebeu as declarações do empresário Carlos Carvalho, dono da incorporadora Carvalho Hosken, em entrevista à BBC Brasil no início da semana?

Eduardo Paes - A entrevista é assustadoramente surreal, um horror. Respeito a liberdade de opinião, mas as opiniões dele foram de um primarismo e de um grau de preconceito assustadores.

Mas ele é um ator privado e tem a liberdade de pensar o que quiser, cabe à gente fazer diferente. Ele não entendeu nada o que significa a Olimpíada para a cidade do Rio de Janeiro.

É uma visão absolutamente equivocada de tudo que se quer fazer. Mas ele já está numa certa idade para eu ensinar alguma coisa sobre a vida, e como não é ele quem dita as regras da cidade, as opiniões dele não fazem muita diferença.

BBC Brasil - Na entrevista com Carlos Carvalho ele se referiu ao senhor como um "parceiro" desde a época em que o senhor foi subprefeito da Barra.

Paes - Eu trabalho em parceria com todo mundo. Não sou eu que escolho quem são as universidades que têm opinião, nem os empresários que têm opinião. Tenho uma boa relação com ele, mas isso não quer dizer que eu concorde com as opiniões dele. O que ele falou é um escândalo.

E como é justamente essa gente que ele falou que "está fedendo" que me elege como prefeito, eu te confesso que prefiro lidar com eles.

Há as pessoas como o Carlos Carvalho, que são demofóbicas, que têm horror a pobre, e há os que são ideologicamente contra o setor privado. Eu não sou nem demofóbico nem contra o setor privado. Talvez por isso eu tenha sido eleito prefeito dessa cidade duas vezes.

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Image caption Conjunto de prédios da Vila dos Atletas, próxima ao Parque Olímpico, tem mais de 3,6 mil apartamentos

BBC Brasil - Uma das questões levantadas no debate durante a semana foi a da moradia, já que, em Londres, a Vila dos Atletas foi transformada em casas populares e, no Rio, os apartamentos que hospedarão atletas e comissões técnicas serão vendidos por até R$ 1 milhão pela iniciativa privada. Para urbanistas, o governo foi omisso na questão.

Paes - O Rio fez 65 mil moradias populares nesses cinco anos de Minha Casa Minha Vida, várias delas perto da Vila dos Atletas, independente de Olimpíada ou não. Em Londres, o projeto da Vila dos Atletas era originalmente privado, mas com a crise de 2008 tornou-se público. E aí obviamente como foi um projeto pago pelo governo virou casas para os mais pobres.

A decisão do local da Vila dos Atletas não foi tomada por mim, e ocorreu ainda no processo de candidatura, quando aquele terreno foi escolhido. Não acho que tenha sido errada. Estamos fazendo uma Vila dos Atletas sem botar dinheiro público, e você economiza ao ter a iniciativa privada construindo para você, mas aí não é uma obra pública. E por ser um empreendimento privado, ele dá o tom que ele quiser.

BBC Brasil - Deste ponto de vista o senhor acredita que valeu a pena para o Rio não ter gasto para construir a Vila dos Atletas, mas abrir mão do legado olímpico de moradias populares?

Paes - Imagina uma cidade como o Rio, com os problemas que o Rio tem, e a gente gastando dinheiro público com a construção de um Parque Olímpico. Ter feito isso com dinheiro privado é um avanço, porque o dinheiro público está servindo para fazer 331 escolas e 140 clínicas da família.

A Prefeitura do Rio não gastou dinheiro com estádios e a maneira de não gastar é quando você faz PPPs (Parcerias Público Privadas), com algum benefício financeiro, senão a iniciativa privada não entra. A 500 m da Vila dos Atletas a gente fez o Parque Carioca. A 1 km da Colônia Juliano Moreira estou entregando 5 mil apartamentos. Na Vila de Mídia, no bairro do Anil, são mais 3 mil apartamentos populares.

BBC Brasil - Algumas das obras não custarão nada ao governo porque serão financiadas pelas empreiteiras, mas entre os críticos há quem acredite que nesta troca o setor imobiliário esteja tendo um retorno vantajoso demais.

Paes - A gente precifica as coisas. Quando você faz um processo licitatório para uma PPP você coloca as condições. Há audiências públicas e você precifica aquilo que está vendendo, em geral pelo potencial construtivo. E aí são valores de mercado.

O sujeito está tendo benefício exatamente correspondente àquilo que ele teve de gasto, claro que com uma margem de lucro. Se você quiser que o setor privado entre para empatar, eles não vão entrar nunca, a não ser que você seja ideologicamente contra o privado. Eu não sou.

Esses especialistas da UFF são ideologicamente contra o privado, mas eu entendo que se você usar de maneira inteligente o desejo de ganho de dinheiro do setor privado você consegue ter benefícios, e é por isso que a cidade do Rio de Janeiro está entregando tanta coisa.

O Porto Maravilha é um exemplo disso. Ali os urbanistas também acham que há um exagero de especulação imobiliária. Mas eu vou fazer o quê? São os ônus. A Olimpíada traz muito benefício para a cidade, mas tem alguns ônus.

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Image caption Grande parte dos Jogos do Rio será realizada no Parque Olímpico, que poderá ser explorado após o fim das competições

BBC Brasil - Na visão dos especialistas, o Porto Maravilha é um dos maiores exemplos de "oportunidade perdida", já que o centro da cidade poderia ter ganhado mais moradias populares, mas grande parte da revitalização será em função de torres comerciais.

Paes - Mas você tem que entender que eu penso exatamente o oposto deles. Eles pensam diferente de mim, e por isso eu sou prefeito do Rio e eles não. São pessoas que disputam eleição aqui e não ganham nunca, perdem feio, porque nunca tiveram a capacidade de produzir nada.

BBC Brasil - Outra crítica é a de que governo e organizadores olímpicos enfatizam os benefícios dos BRTs por tornarem mais rápido o deslocamento da periferia para as regiões centrais, quando na verdade os Jogos poderiam ter favorecido que as pessoas morassem mais perto dos empregos. O senhor discorda?

Paes - Mas aí eles propõem que eu não faça transporte para Santa Cruz? Acaba com Santa Cruz e traz todo mundo para a Barra? Eu discordo. A Zona Oeste tem 2,5 milhões de habitantes. Então, eu traria um pouco mais de gente para a Barra e não faria o BRT. Aí você resolveria o problema de umas 240 mil pessoas. E o resto?

A vida é feita de escolhas, não tem dinheiro para fazer tudo. Era o BRT ou trazer 200 mil pessoas, e teria que comprar terra. Mas ao invés disso eu fiz dois túneis no maciço da Pedra Branca. Eu também acho que todo mundo tinha que morar de frente para a praia, na Barra ou no centro, mas em Londres as pessoas também não moram assim. Lá tem transporte de muita qualidade pegando as pessoas mais longe, porque o centro é inabitável, é só para milionário.

BBC Brasil - Uma das questões mais polêmicas da preparação para os Jogos é a remoção da Vila Autódromo, favela localizada ao lado do Parque Olímpico e diante da área onde as empreiteiras devem erguer torres residenciais após 2018. Em março o senhor assinou um decreto confirmando a ordem de remoção dos moradores. O que deve ser, afinal, o destino desta área?

Paes - Eu sempre me posicionei da mesma maneira. Não estamos retirando a Vila Autódromo toda. Uma parte dela vai ficar. Aquele plano da UFF tinha boas intenções, mas não levava em conta que tínhamos que construir os acessos para o Parque Olímpico. A gente tirou as pessoas que estavam nos acessos para o parque, e quem saiu de outras áreas é porque pediu para sair.

Eu estou com uma petição aqui de 60 famílias dizendo "a BBC não nos representa". Eu até mando para vocês, tem um abaixo-assinado dizendo isso.

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Image caption Favela Vila Autódromo, ao lado do Parque Olímpico, tornou-se símbolo de resistência às remoções para a Rio 2016

BBC Brasil - O senhor está dizendo que uma parte da Vila Autódromo vai ficar, mas os moradores já relataram em reportagens que os agentes da Prefeitura deixam claro que todos terão que sair. Além disso, no plano que nos foi apresentado pelo empresário Carlos Carvalho para o Parque Olímpico após 2018, a área onde hoje fica a comunidade torna-se inteiramente verde, como um parque diante dos empreendimentos imobiliários.

Paes - Uma parte da Vila Autódromo vai ficar. Agora é o seguinte, eu não respondo nem pelo pessoal da UFF, nem pelo Carlos Carvalho. Eu penso diferente dos dois lados. Nenhum dos dois me representa. Eu tenho minhas opiniões, e o prefeito sou eu. Quem manda é o prefeito. Não vou fazer o que a UFF quer, nem o que o Carlos Carvalho quer.

BBC Brasil - Qual é a linha que o senhor segue, então?

Paes - A linha que eu sigo é essa que você está vendo. É a linha de uma cidade com 150 km de BRT para a Zona Oeste e a Zona Norte, que urbaniza as comunidades da Zona Oeste, que faz 331 escolas e 140 clínicas da família, que não tem uma obra na Zona Sul, nem na Barra, todas são em Jacarepaguá. Que revitaliza o centro e resgata uma região da cidade abandonada durante anos. A minha visão de cidade é essa que você está vendo surgir.

BBC Brasil - Se o senhor nos permitir insistir, quando a imprensa vai até a Vila Autódromo, os moradores são enfáticos ao afirmar que para os agentes da Prefeitura todos terão que sair. Além disso, uma ação de remoção da Guarda Municipal ocorrida em junho e avaliada como truculenta pela Defensoria Pública e a Anistia Internacional deixou pessoas feridas e ensanguentadas.

Paes - Houve um caso, de uma ordem judicial, e eu desconhecia que essa operação estava ocorrendo. Sobre este senhor, deste caso de ferimento, se você quiser, eu te mando uma gravação dele dizendo que a pessoa que ele mais ama no mundo é o Eduardo Paes. Ele veio aqui, eu pedi desculpas a ele pela ação da Guarda Municipal, esclareci que foi um erro a maneira como eles agiram. Ele já recebeu uma casa, está morando muito bem, e acho até que vai pedir voto para mim na próxima eleição.

BBC Brasil - Então podemos cravar isso, que uma parte da Vila Autódromo vai ficar? Qual parte vai ficar?

Paes - Sim, e eu digo isso para eles todo dia, desde o início. Eles têm vários vídeos meus gravados. A gente já apresentou esse mapa. O que sai são os acessos ao Parque Olímpico e a beira da Lagoa, onde tinha um monte de gente rica e é área de proteção ambiental. Todo o resto fica. Só sai quem quer.

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Image caption Alguns críticos dizem que Olímpiada é "oportunidade perdida" em relação ao legado que deixará ao Rio

BBC Brasil - Na entrevista à BBC Brasil, o empresário Carlos Carvalho defendeu seus planos do que enxerga ser o "novo Rio de Janeiro", centralizado na Barra, nos moldes dos grandes condomínios. Com as obras olímpicas o senhor acha que o poder público está estimulando este tipo de urbanismo, com uma elitização desta região da cidade?

Paes - Não fui eu quem fez o plano urbanístico da Barra, foi o Lucio Costa na década de 70. Eu particularmente não gosto da concepção urbana da Barra da Tijuca, com condomínios fechados, grandes avenidas, e poucas calçadas. Prefiro muito mais o Rio tradicional. O subúrbio carioca e o centro. Há outras regiões olímpicas, como Deodoro, Engenhão e Copacabana, e a área que mais se valorizou com os Jogos foi Madureira, na Zona Norte.

BBC Brasil - O Plano Diretor da Barra foi alterado pelo senhor para que o número máximo de andares de novos edifícios construídos lá passasse de 13 para 18 andares. Foi uma moeda de troca?

Paes - Claro que foi. Aprovada em lei, comunicada à imprensa, feita de forma pública. Você acha que o empresário ia investir por amor à pátria? O dinheiro que constrói as obras do Parque Olímpico é privado porque a gente disse para eles: "olha, se você fizer isso aqui eu vou aumentar o seu gabarito". Senão eu teria que usar dinheiro de impostos para construir arena olímpica. Não tem nada de errado.

BBC Brasil - Como o senhor avalia as críticas de que o processo olímpico está empurrando os cariocas mais pobres rumo às periferias do Rio, seja por remoções ou pela especulação, que tem aumentado o valor dos imóveis?

Paes - Não tem relação nenhuma. O único caso que você tem de reassentamento relacionado à Olimpíada é a Vila Autódromo, e eles foram empurrados para a periferia a 1 km de onde eles moravam (em referência à obra do Parque Carioca, conjunto habitacional construído para alguns dos removidos). Então não sei que periferia é essa para onde eles estão sendo empurrados.

Outra coisa é o fenômeno mundial da gentrificação, que ocorre em grandes cidades, do qual Londres talvez seja o caso mais explícito. É algo que acontece em Nova York, Berlim, e também no Rio, que é um processo de sobrevalorização conforme as cidades se qualificam.

Na Zona Sul do Rio, por exemplo, não há mais onde construir, então é óbvio que o que já existe vai ficar mais caro. E aí você precisa requalificar outras áreas da cidade, como a Zona Norte. Quando você faz uma Transcarioca você requalifica uma região de subúrbio que estava degradada, para que a pessoa não precise morar num lugar degradado só porque ela não tem dinheiro.

BBC Brasil - Como avalia as críticas de que os Jogos são uma "oportunidade perdida" no que diz respeito ao legado para a cidade?

Paes - Eles estão equivocados. A população está vendo esse legado e aplaudindo e apoiando.

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