Protesto em SP: 3 em cada 4 são contra dinheiro de empresas em campanhas, diz pesquisa

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Image caption "Pesquisa mostra que as pessoas consideram grave a Lava Jato, mas consideram grave também o cartel do metrô", diz professor

Três em cada quatro pessoas que protestaram contra o governo neste domingo em São Paulo são contra o financiamento empresarial de campanhas, aprovado em segundo turno pela Câmara dos Deputados na semana passada.

É o que mostra uma pesquisa de opinião conduzida pelos professores Pablo Ortellado, da USP, Esther Solano, da Unifesp, e pela pesquisadora Lucia Nader, da ONG Open Society, com o público presente na manifestação. No total, 405 pessoas foram entrevistadas em toda a extensão da Avenida Paulista.

De acordo com o levantamento, 57,3% dos presentes eram homens, 73,6% se declararam brancos e 48,4% tinham renda superior a R$ 7.880 (a margem de erro é de 4,9%).

Os números coincidem com os mostrados pela última pesquisa promovida pelo instituto Datafolha, segundo a qual 61% dos manifestantes eram homens, 75% se diziam brancos e 42,44% ganhavam mais que R$ 7.880.

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Image caption Fonte: Pesquisa USP/Unifesp/Open Society

"A pesquisa mostra principalmente que uma coisa é o que as lideranças falam nos carros de som, outra, diferente, é o que o público que foi para a rua acredita", avalia Ortellado.

Às vésperas dos protestos, líderes dos movimentos que convocaram as manifestações – Vem pra Rua, Revoltados Online e Brasil Livre – afirmaram à BBC Brasil que o foco principal dos protestos era a corrupção do governo petista.

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“A insatisfação é geral. O PT é a expressão aguda desta crise, que é enorme, mas a oposição não escapa deste sentimento”, diz o professor. "A pesquisa comprova esta hipótese e mostra que as pessoas consideram grave a Lava Jato, mas consideram grave também o cartel do metrô e da CPTM."

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Image caption Fonte: Pesquisa USP/Unifesp/Open Society

De acordo com a pesquisa conduzida pelos acadêmicos, enquanto 89,6% dos presentes consideravam Dilma Rousseff corrupta, 70,1% disseram o mesmo sobre o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB), e 41,7% sobre o governador paulista Geraldo Alckmin (PSDB).

Diferente do discurso de “Estado mínimo” defendido pelo Movimento Brasil Livre, 86,9% dos manifestantes defendem educação totalmente financiada pelo governo e 74,3% pediam que o sistema de saúde se mantivesse gratuito.

A grande maioria dos presentes na Avenida Paulista – 93,8% – disse considerar a má qualidade dos serviços públicos como fruto de "má administração" pública.

Na avaliação de Ortellado, a pesquisa surpreende ao indicar uma relação forte entre as pautas das manifestações de junho de 2013 e as que vêm acontecendo neste ano.

“Todas as pesquisas de opinião de junho de 2013 mostravam dois componentes principais: uma forte rejeição ao sistema político e uma afirmação e reivindicação por direitos sociais”, diz o professor.

“Este mesmo conteúdo está nas ruas agora. A diferença é que esta reivindicação era liderada por grupos de esquerda e agora está nas mãos de grupos de direita”, diz. “Isso muda a composição social, a 'cara pública' do movimento”, avalia o professor.

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Militarismo

Quase uma em cada quatro pessoas “concordavam totalmente” ou “em parte” que uma boa solução para a crise seria “entregar o poder para os militares”.

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Por que tanta gente? “Numa crise de representação, em que as pessoas não acreditam no sistema e acham que os políticos vivem um jogo de cena descolado da sociedade, há dois tipos de resposta”, diz Ortellado.

"A primeira é aprofundar a democracia com mais participação, na assembleia do bairro, no movimento social. A outra resposta é antipolítica: ao invés de aprofundar a democracia, substituí-la por questões antidemocráticas.”

O primeiro exemplo é ilustrado pelo apoio a consultas populares e plebiscitos e ao fortalecimento de organizações como ONGs e movimentos sociais – 76,8% e 59,3%, respectivamente.

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'Não-corruptos'

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Image caption Fonte: Pesquisa USP/Unifesp/Open Society

O campeão no "ranking de honestidade" dos manifestantes, segundo a pesquisa, é o deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ).

Na sequência, segundo os presentes, aparecem o juiz Sérgio Moro, que comanda o julgamento de crimes investigados pela Operação Lava Jato, e o ex-ministro Joaquim Barbosa, que liderou o Supremo Tribunal Federal entre 2012 e 2014.

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Image caption Fonte: Pesquisa USP/Unifesp/Open Society

Os pesquisadores também levantaram as intenções de voto dos paulistanos para as eleições à prefeitura no ano que vem.

“O dado mais interessante é a rejeição”, diz Ortellado. De acordo com a pesquisa, 64,9% dos presentes não respondeu ou respondeu “nenhum”; 12,1% indicaram o empresário João Dória Júnior e 10,4% mostraram preferência pelo apresentador de televisão José Luiz Datena – na lanterna aparece o atual prefeito da cidade, Fernando Haddad (PT), com 2,5%.