Esquerda faz ato contra impeachment, mas ajuste fiscal mina apoio a Dilma

Manifestantes pró-Dilma em frente ao Instituto Lula ( Foto: Nelson Antoine/AP) Direito de imagem Nelson Antoine l AP
Image caption PT é acusado de tentar tornar ato pró-democracia em pró-governo, o que outros movimentos refutam

Quatro dias após as manifestações realizadas em diversas cidades pedindo o afastamento da presidente Dilma Rousseff, partidos de esquerda e movimentos sociais marcaram manifestações públicas para esta quinta-feira (20) em pelo menos onze capitais brasileiras.

Desde o dia 13 de março, quando movimentos como a UNE (União Nacional dos Estudantes), o MST (Movimento dos Sem Terra) e entidades sindicais foram às ruas em defesa da Petrobras e de Dilma, não houve um protesto reunindo tantos grupos de esquerda.

Enquanto isso, grupos que pedem a saída da petista fizeram manifestações algumas vezes e durante este período, a crise política atingiu seu auge, bem como a desaprovação ao governo – segundo pesquisa do instituto Datafolha divulgada no início do mês, 71% da população vê a gestão como ruim ou péssima.

Em São Paulo, o protesto está marcado para o Largo da Batata, na zona oeste, a partir das 17h, enquanto no Rio os manifestantes se reunirão mais cedo, às 11h, na Cinelândia, centro da cidade.

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Segundo parte dos representantes de grupos sociais e de partidos de esquerda ouvidos pela BBC Brasil, a demora em organizar manifestações públicas se deve à política econômica do governo, mais especificamente ao ajuste fiscal, que desagradou os setores da sociedade representados por esses grupos.

Também por esse motivo, o ato desta quinta é menos pró-Dilma que o de março: a maioria das entidades participantes diz que é contra o impeachment, mas não irá às ruas apenas para expor isso, nem poupará críticas ao governo.

O PSOL vai mais longe: acusa o PT de "sequestrar" um ato que não foi organizado por ele, mas por movimentos sociais – inserções do partido da presidente na TV convocam para o protesto desde a terça (18).

Divergências

No Facebook, os convites para os protestos desta quinta expõem a dificuldade em unir em torno de um objetivo comum todos os movimentos que irão às ruas – como UNE, CUT (Central Única dos Trabalhadores), MST, MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto) e partidos como PT, PC do B e PSOL.

Na convocação feita por MTST, UNE e CUT, por exemplo, não há uma menção direta à defesa ao mandato de Dilma. São elencadas três principais palavras de ordem: contra o presidente da Câmara, Eduardo Cunha; contra o ajuste fiscal; e, por fim, "contra a ofensiva conservadora", defendendo o “aprofundamento da democracia”.

Outro convite, criado pelo PT, é mais sucinto: "Movimentos sociais contra o golpe e pela democracia". Em sua página na rede, o PC do B, partido de esquerda mais próximo ao governo petista, convoca seus seguidores "contra o golpe". Já o PCO, pequena sigla de extrema esquerda, diz que irá às ruas contra a "direita golpista".

Direito de imagem Eraldo Peres l AP
Image caption Manifestantes farão contraposição aos que foram às ruas no domingo pedir a saída de Dilma

"Se o PT não colocasse a colher, teria muito mais gente na rua", diz Luiz Araújo, presidente do PSOL. Segundo ele, a tendência é que em alguns lugares ocorram "dois protestos" – um seguindo o molde estipulado desde o início, com críticas ao governo, e outro pró-Dilma, como defendem PT e PC do B, por exemplo.

"Tudo o que o governo vem fazendo rompeu com o laço de confiança com os movimentos sociais", afirma Araújo, citando o ajuste fiscal. "Mas não queremos um golpe, não queremos que a direita volte."

Alberto Cantalice, vice-presidente nacional e coordenador de mídias sociais do PT, diz ser natural que os movimentos e partidos apresentem suas "demandas específicas" no protesto. Ressalta, porém, que o "centro é a defesa da democracia, do Estado de Direito e contra o golpe".

"Quem vai defender o governo somos nós, do PT. Os movimentos têm críticas e vão fazê-las, mas também vão defender a democracia. Não haverá qualquer constrangimento", afirma.

Sem refresco

Embora vá às ruas também contra o "golpismo", o MTST não fará qualquer defesa do governo Dilma Rousseff, afirma seu líder, Guilherme Boulos.

"Ninguém tem disposição de ir para a rua para defender um governo com essa política", diz. "A pauta do governo Dilma é ajuste fiscal, corte de direitos, de investimentos sociais. Essa pauta é indefensável por qualquer movimento social que se preze."

Direito de imagem Agencia Brasil
Image caption Ajuste fiscal de Dilma e Levy é apontado como ponto de ruptura entre esquerda e governo

Nem a CUT, central sindical historicamente ligada ao PT, vai poupar críticas à gestão federal. Mais uma vez, por causa do ajuste fiscal.

Embora a CUT não aceite a interrupção do mandato da petista, não está satisfeita com a política econômica e seus efeitos nos "direitos dos trabalhadores”, diz seu presidente em São Paulo, Adir dos Santos Lima.

Edson Carneiro, secretário-geral da Intersindical – central nascida de uma dissidência da CUT – afirma que um apoio ao governo seria um tiro no pé. "Não dá para sair à rua hoje e fazer uma defesa acrítica. Quem fizer isso perde o diálogo com os trabalhadores."

A senadora Vanessa Grazziotin, do PC do B, partido mais integrado com o governo, diz ver com normalidade o fato de movimentos sociais enfrentarem problemas de mobilização. "É natural que, quando se adotam medidas que não são positivas para o conjunto dos trabalhadores, mesmo se necessárias, dificuldades apareçam."

Diálogo

Partido de extrema-esquerda surgido de dissidência petista e também crítico ao governo, o PCO diz acreditar que faltou aos outros movimentos dialogar com seus militantes. O presidente da sigla, Rui Costa Pimenta, afirma porém que "o importante é que está se formando um movimento contra o impeachment".

Para ele, a mobilização deve crescer caso um pedido de afastamento avance no Congresso – mesma opinião de Grazziotin e Cantalice. "As pessoas paulatinamente vão sendo ganhas", acrescenta Renan Alencar, presidente da UJS (União da Juventude Socialista).

Direito de imagem Fabio Rodrigues Pozzebom l Ag. Brasil
Image caption Para Cristovam Buarque, em seu partido, o PDT, só quem tem cargo no governo defenderá Dilma

Aliado de Dilma, o PDT divulgou vídeo em que seu presidente, Carlos Lupi, afirma que a sigla é contrária ao impeachment. À BBC Brasil, no entanto, o senador Cristovam Buarque (PDT-DF) afirmou não ver chances de a militância do partido sair em defesa da petista, a não ser "a parte da cúpula que tem cargo no governo, tem ministério".

"Não tenho como defender", resume. "Ela se elegeu fazendo promessas diferentes do que está acontecendo agora. E cometeu erros gravíssimos", continua ele, que disputou o Planalto em 2006 contra o então presidente Lula.

O PSTU, outro partido de extrema-esquerda criado por dissidentes petistas, diz que, por ora, não sairá em defesa do mandato da presidente.

Para Zé Maria, presidente da sigla, a massa "está sentada em casa" assistindo a toda a movimentação e não se sente representada pelo PT – daí o fato de, em sua opinião, o protesto desta quinta ter "apenas a burocracia sindical e movimentos sociais controlados financeiramente pelo governo".

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