O que o mundo corporativo pode aprender com criminosos

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À primeira vista, a audaciosa fuga de Joaquín 'El Chapo' Guzmán, o maior barão do narcotráfico do México, em julho, não parece ter algo a ensinar ao mundo corporativo.

Mas alguns especialistas em negócios sugerem justamente o oposto. Para eles, independentemente do lado moralmente condenável da atividade desses criminosos, cartéis de crime organizado, hackers, piratas e outras pessoas que atuam fora da lei poderiam mostrar a corporações legítimas algumas coisinhas sobre como ter jogo de cintura e responder a rápidas mudanças de planos.

Longe de incentivar a ilegalidade, esses gurus corporativos defendem que executivos poderiam olhar para o submundo para tirar lições sobre flexibilidade, inovação e a capacidade de se adaptar rapidamente a novas situações.

"As organizações criminosas têm uma agilidade que faz falta em grandes empresas, com seus organogramas complexos", afirma Marc Goodman, diretor do Future Crimes Institute e consultor na área de crimes cibernéticos.

Enquanto corporações tradicionais se concentram nas regras a serem seguidas, os criminosos estão sempre procurando maneiras de burlá-las. "Para criminosos, o céu é o limite e isso cria a oportunidade de pensar grande", diz Goodman.

El Chapo, líder do cartel de Sinaloa, por exemplo, escapou de sua cela em uma prisão de segurança máxima através de um pequeno buraco no cubículo do chuveiro e que conduzia a um túnel de mais de 1,5 quilômetro com iluminação e ventilação.

Lançar-se na aventura foi algo que solicitou pensamento criativo, planejamento de longo prazo e perseverança – habilidades essenciais semelhantes às necessárias para se dar bem no mundo dos negócios.

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Lições de sobrevivência

Devin Liddell, diretor da consultoria de estratégia de marcas Teague, com sede em Seattle, condena a violência e outras atividades ilegais. Mas se tornou curioso sobre a maneira como grupos criminosos permanecem ativos por tanto tempo.

Alguns cartéis mexicanos, por exemplo, conseguem sobreviver apesar dos vários esforços dos agentes da lei nos dois lados da fronteira com os Estados Unidos e dos milhões de dólares gastos por forças de segurança internacionais na tentativa de desmantelá-los. Liddell acredita que essa situação traz uma importante lição sobre longevidade e sobrevivência.

Uma estratégia que ele destaca é a maneira como os bandidos reagem a mudanças. Para burlar os controles de fronteira entre o México e os Estados Unidos, o cartel de Sinaloa fez tudo o que esteve a seu alcance e mais. Eles construíram um enorme túnel, contrataram familiares para trabalharem na fronteira como agentes de segurança e até usaram uma catapulta para superar um muro altamente fortificado.

Por outro lado, muitos negócios legais fracassam porque hesitam em se adaptar rapidamente aos ventos que mudam o mercado. Um exemplo foi o que aconteceu com a antiga gigante do setor de aluguel de filmes e games Blockbuster. A empresa não conseguiu acompanhar as mudanças e perdeu espaço para os serviços de aluguel por correio e para as tecnologias de streaming. Sua marca simplesmente desapareceu.

Liddell acredita que a diferença é que as organizações criminosas encaram a improvisação como uma parte natural de sua atuação diária, enquanto empresas veem inovações como um processo a ser estabelecido com planejamento.

"A maneira como companhias inovam e se organizam é um reflexo de sua liderança", afirma o especialista.

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Traços em comum

As start-ups também usam estratégias pouco comuns para resolver problemas e montar seus negócios do zero. Essa criatividade e inovação normalmente é forjada por causa da necessidade, como um orçamento apertado, por exemplo.

Tanto criminosos quanto fundadores de start-ups "questionam a autoridade, agem fora do sistema e enxergam maneiras novas e inteligentes de se fazer as coisas", afirma Goodman. "Seus líderes podem se tornar tanto El Chapo quanto Elon Musk (empresário fundador do PayPal e da Tesla Motors, entre outras empresas)."

Alguns empreendedores não têm medo de procurar brechas na legislação na tentativa de "bagunçar" o mercado. Os fundadores do serviço de streaming de música Napster, por exemplo, ficaram famosos por terem violado leis que protegem os direitos autorais. Mas a tecnologia que criaram abriu caminho para uma inovação legal à medida em que os próprios legisladores foram se atualizando.

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Image caption Fuga mirabolante de 'El Chapo' pode ter algo a ensinar a empresários, segundo 'gurus corporativos'

Goodman e outros consultores acreditam que analisar muito bem como resolver problemas antes de se preocupar com restrições é algo que poderia ajudar empresas já estabelecidas a não serem vítimas de concorrentes menos limitadas a tradições.

No livro The Misfit Economy (A economia do peixe fora d’água, em tradução literal), as autoras Alexa Clay e Kyra Maya Phillips analisam como indivíduos podem usar essa lógica para se tornarem mais inovadores e empreendedores dentro de uma estrutura corporativa.

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Elas estudaram criminosos violentos, como os piratas da Somália, mas também indivíduos comuns que quebram regras para encontrar soluções criativas para os problemas de seus empreendimentos, como os hackers ou até moradores de uma favela em Mumbai, na Índia.

As autoras descobriram que todas essas pessoas compartilham algumas características: a capacidade de se impor, de ter jogo de cintura, de provocar, de explorar pontos fracos e de imitar outros.

Para Clay, um ótimo exemplo é o caso do empreendedor saudita Walid Abdul-Wahab. Ele se associou a fazendeiros amish nos Estados Unidos para começar a exportar leite de camelo para o país antes mesmo de as autoridades americanas aprovarem o produto para consumo.

Com sua perseverança, ele conseguiu fundar uma rede de criadores de camelos americanos e começou a vender seu leite pelas redes sociais. Hoje, sua empresa, a Desert Farms, distribui seu produto a grandes supermercados e redes de produtos naturais em todo o território americano.

"Aquelas pessoas que não têm a chance de entrar para o mundo dos negócios mais tradicionais acabam sendo obrigadas a pensar de maneira mais criativa para encontrar maneiras de sobreviver", diz Clay.

"Eles precisam ter garra e flexibilidade se quiserem vencer. E em muitos casos, é a penúria que traz a inovação."

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Leia a versão original desta reportagem em inglês no site da BBC Capital