Conto inacabado de Tolkien é lançado na Grã-Bretanha

JRR Tolkien
Image caption O autor de 'Senhor dos Aneis' se inspirou profundamente pela mitologia finlandesa

Um inédito conto inacabado do cultuado autor de O Senhor dos Anéis e O Hobbit, JRR Tolkien, foi lançado na Grã-Bretanha nesta quinta-feira e revela que o escritor também se inspirou na Finlândia para criar o seu universo fantástico.

The Story of Kullervo (A história de Kullervo, em tradução literal) narra a trajetória sombria de um menino órfão que é escravizado e acaba se suicidando depois de descobrir que, sem querer, cometeu incesto nas florestas de Karelia, na Finlândia.

Tolkien descobriu a lenda de Kullervo ainda menino, quando frequentava uma escola em Birmingham, na região central da Inglaterra.

O próprio escritor ficou órfão depois de perder o pai ainda pequeno e a mãe aos 12 anos de idade.

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Pouco antes de concluir a escola secundária, ele leu a obra mitológica finlandesa Kalevala, que entre outras tramas traz a de Kullervo.

"Ele foi muito influenciado por toda aquela mitologia", disse à BBC a acadêmica Verlyn Flieger, da Universidade de Maryland, nos Estados Unidos, que editou o manuscrito de A História de Kullervo. "Em cartas, ele se mostrava entusiasmado com esta 'história muito boa'."

Frase inacabada

Ele começou a escrever a sua própria versão do mito finlandês ao entrar na universidade, em Oxford, no ano seguinte. Curiosamente, após trabalhar nela por alguns meses, a deixou de lado.

Image caption Entre as influências finlandesas mais marcantes na obra de Tolkien estaria o pessimismo

O manuscrito de cerca de 26 páginas termina com uma frase inacabada.

"Ele tinha acabado de chegar ao clímax, à cena mais dramática, e ali parou. Não há sequer um ponto final ou qualquer tipo de continuação. Só as palavras 'a sua pressa era tão terrível'", conta Flieger. "Não sabemos por que ele não o concluiu."

Assim, inacabado, o manuscrito passou quase meio século praticamente esquecido em uma estante da biblioteca Bodleian, de Oxford.

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Tolkien passou os anos seguintes se dedicando a inventar as suas próprias línguas élficas e escrevendo livros sobre hobbits, elfos e dragões. Isso tudo no tempo livre entre as suas atividades como professor de anglo saxão e inglês antigo na universidade.

A História de Kullervo é uma das 50 canções no épico Kalevala, uma obra que narra em 22.795 versos as aventuras de Sampo, um objeto mágico que confere poderes mágicos a quem o possui.

Tolkien se apropriou de inúmeros elementos da narrativa em seus próprios livros: um objeto mágico poderoso, incesto, batalhas entre irmãos, heróis órfãos que saem em busca de aventuras.

"Kullervo é a história que deu origem ao Hamlet, de Shakespeare – um príncipe que lança uma terrível vingança contra o tio que assassinara o seu pai, o rei", afirma Verlyn Flieger. "É provável que Tolkien soubesse que Shakespeare havia se inspirado nela."

Tradição oral

Direito de imagem BBC World Service
Image caption As histórias da 'Kalevala' são um registro dos poemas da tradição oral da Finlândia

No livro O Silmarillion (iniciado em 1914, mas publicado postumamente), Tolkien transforma Kullervo em Turin Turambar, o seu herói guerreiro.

Os poemas contidos na Kalevala foram colhidos por um médico que percorreu a região de Karelia para registrar a tradição oral do país nórdico. Os mitos se tornaram um importante símbolo da identidade nacional finlandesa durante os séculos em que o país foi dominado pela Suécia.

"Tolkien gostava do fato de se tratar de um mito nacional. Ele queria que a Inglaterra tivesse algo parecido. A Grã-Bretanha tem histórias dos celtas, mas a Inglaterra não preservou uma mitologia. Com o O Senhor dos Anéis, ele queria criar uma Kalevala para a Inglaterra", afirmou um biógrafo de Tolkien, John Garth, da universidade americana de Nevada.

A influência dos mitos finlandeses foi tão grande que Tolkien aparentemente se dedicou a aprender o difícil idioma, emprestando um livro sobre a gramática finlandesa diversas vezes de uma biblioteca da universidade.

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A professora de finlandês Riita-Liisa Valijarvi, da Universidade College London, diz acreditar que o interesse pode ser visto na língua dos elfos criada por Tolkien.

"O sistema de sons é muito fácil, muito básico, e foi isso que inspirou o élfico", diz Valijarvi, que identifica entre os estudantes do seu departamento o interesse comum em heavy metal e ficção de fantasia.

Alguns deles até aprenderam a falar élfico, diz a acadêmica.

"Eu mesma não fiz isso, mas reconheço o visual e o clima da língua."

'Complicado'

Tolkien teria ficado intrigado com os longos sons de vogais em finlandês e com o uso de trema. Frases em élfico como "Mindon Eldalieva" ("As Imponentes Torres do Povo Élfico, em tradução livre) e "Oron Oiolosse" (Pico da Neve Eterna) usam tanto sons quanto o estilo da língua.

O idioma inventado pelo escritor é considerado "extremamente complicado", segundo John Garth.

Image caption As histórias da Terra Média teriam sido criadas após a invenção do idioma élfico

Para Tolkien, a língua inventada veio antes da terra em que ela teria sido falada, a Terra Média, segundo Flieger. As aventuras de Bilbo e Frodo injetaram uma nova vida à língua criada pelo filólogo Tolkien.

"Com A História de Kullervo, Tolkien se deu conta de que língua, cultura e mitologia são indissociavelmente relacionados", diz Flieger. "Ele criara um idioma, então inventou uma mitologia."

Mas a inspiração de Tolkien não se limitou a fontes finlandesas. Ele também se inspirou em imagens românticas medievais, paisagens rurais do País de Gales, a mitologia do Rei Arthur e nas próprias experiências na Batalha de Somme, entre julho e novembro de 1916.

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Verlyn Flieger diz que o aspecto mais finlandês da obra de Tolkien é o clima.

"Há uma veia profunda de tragédia e pessimismo em todos os livros, mesmo em O Hobbit, certamente em Senhor dos Anéis. A História de Kullervo é, sem dúvida, o conto mais sombrio que ele escreveu. É a primeira vez que podemos testemunhar este lado sinistro."