Jovens góticos têm risco maior de depressão, diz estudo

Jovens góticos
Image caption Para um blogueiro gótico, a diferença é que o grupo estaria mais aberto a discutir problemas como a depressão

Jovens que seguem o estilo gótico correm maior risco de sofrer de problemas como depressão e autoflagelação, de acordo com um estudo britânico.

Os cientistas sugerem que uma inclinação a se afastar da sociedade possa estar por trás deste vínculo, embora não tenham conseguido esclarecer ao certo os motivos.

No entanto, eles destacam que a maioria dos adolescentes góticos não apresentava qualquer problema e que apenas uma minoria pode vir a precisar de apoio.

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A pesquisa, publicada na revista especializada Lancet Psychiatry, acompanhou 3.694 jovens de 15 anos, todos moradores da cidade de Bristol, no sudoeste da Grã-Bretanha, entre 2007 e 2010.

O movimento gótico – caracterizado por roupas pretas, maquiagem escura pesada e música quase sempre sombria, com letras melancólicas – atrai adolescentes há décadas.

Os pesquisadores descobriram que, quanto mais identificados com os góticos, maior a probabilidade de episódios de autoflagelação e depressão.

No estudo, aqueles jovens que se descreveram como góticos tinham mais probabilidade de já haver apresentado sinais de depressão antes dos 15 anos e de ter sofrido bullying na escola.

'Estigmatizados'

No entanto, os cientistas dizem que o vínculo permanece mesmo entre crianças que não apresentaram estes fatores.

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Image caption O movimento gótico é tradicionalmente ligado a roupas escuras e música sombria

Para a coordenadora do estudo, Rebecca Pearson, da Universidade de Bristol, os motivos para a tendência podem ser vários, entre eles, a possibilidade de adolescentes mais suscetíveis à depressão se sentirem mais atraídos ao estilo de vida gótico.

"O ponto ao qual um jovem se identifica com a subcultura gótica pode representar o ponto ao qual jovens de grupos de risco se sentem isolados, excluídos ou estigmatizados pela sociedade", disse Pearson à BBC.

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Vida alternativa: a história de Nattalie

Nattalie Richardson, de 29 anos, nasceu em Norfolk, no leste britânico. Ela diz que começou a sofrer de depressão antes de virar gótica.

"Pessoalmente, acho que crianças deprimidas ou com doenças mentais são atraídas ao estilo de vida 'alt'. É uma forma de serem tão diferentes na aparência quanto se sentem por dentro", diz.

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"Sei que para mim, foi este o motivo para começar a usar roupas diferentes e de ter me tornado alternativa. Isso e a imagem se encaixavam com a música que eu ouvia e que parecia expressar a confusão em que a minha cabeça vivia. Isso me ajudou a me dar conta de que não era a única adolescente que se sentia deste jeito.

"Eu estava deprimida e doente antes de me tornar gótica."

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'Proteção de grupo'

O blogueiro e autodenominado gótico Tim Sinister disse à BBC não acreditar que adolescentes góticos corram mais risco de depressão, apenas que estão mais dispostos a falar sobre o assunto.

"A cena gótica é mais tolerante e aberta no que diz respeito a discutir a depressão, enquanto a sociedade como um todo tem mais estigma em torno da discussão de doenças mentais", disse Sinister.

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Image caption Especialista diz que pais não devem tentar evitar que os filhos virem góticos, apenas estar atentos a problemas

Especialistas dizem que pais não deveriam tentar evitar que os filhos façam parte de um grupo gótico, já que ter amigos e se identificar com uma comunidade pode protegê-los da depressão.

Em vez disso, sugerem que os pais observem os filhos e conversem com eles sobre qualquer preocupação.

Para o professor Kevin McConway, as questões abordadas pela pesquisa são "complicadas" e variam com o tempo.

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Para ele, seria errado partir do pressuposto de que ser gótico aumenta as chances de depressão, já que é preciso tempo para destrinchar relações de causa e efeito.

"Mesmo sem podermos ter certeza das causas, saber que existe um vínculo entre a identificação como gótico e depressão e autoflagelação já pode ajudar médicos a identificar e dar apoio a grupos de risco."