O lado bom do fracasso no mundo dos negócios

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Image caption A britânica Michelle Mone começou do zero sua marca internacional de lingerie

Parece enredo de filme: empresária que começou negócio milionário do zero quase perde tudo quando o marido (e principal sócio) tem um caso com uma funcionária.

Mas foi exatamente isso o que ocorreu com a britânica Michelle Mone, sócia da confecção multinacional de lingerie Ultimo, que tem faturamento anual de US$ 78 milhões (quase R$ 280 milhões).

Depois de um divórcio que ganhou as páginas dos tabloides e que fez o casal travar uma verdadeira batalha judicial, Mone teve que encontrar novos investidores para comprar a parte do ex-marido no negócio. Era o começo de sua volta por cima.

Há algumas semanas, ela foi apontada pelo governo da Grã-Bretanha para liderar uma iniciativa de incentivo a start-ups para atuarem em áreas onde há mais desemprego.

"Enfrentei muitos dramas na minha vida, em momentos em que podia ter perdido tudo", conta, descrevendo sua experiência como um ótimo exemplo de resiliência nos negócios. "O que fiz foi trabalhar mais e encontrar um jeito de avançar. Se você não desistir, você vai encontrar um jeito. É algo que sempre senti em minha carreira."

A resistência de Mone foi construída da maneira mais difícil – por meio de uma situação pessoal que ela não deseja para ninguém. Mas como podemos aprender a ter essa qualidade que é tão essencial hoje em dia?

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Começando pelas bases

Aprender com uma experiência negativa é uma boa maneira de melhorar a resistência. Mas, segundo Derek Mowbray, diretor da consultoria em liderança WellBeing and Performance Group, não é preciso chegar à beira da falência para isso: adotar a atitude certa ajuda e muito.

"A resiliência é um jeito de reagir a acontecimentos desafiadores. É basicamente uma escolha", define Mowbray.

Ter a presença de espírito necessária para realizar uma apresentação a um cliente mesmo que algo imprevisto aconteça é um exemplo de resistência.

"Quando alguma coisa grave ocorre, temos que aprender a ter uma atitude robusta para lidar com o problema com as nossas próprias habilidades", explica o consultor. "Ajuda muito acreditar que você não vai errar."

Para ele, essa crença em si mesmo está no cerne da resiliência.

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Olhar para a frente

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Image caption Andrea Johnson encarou perda do emprego como empurrão para começar negócio próprio

Muitas vezes, há diferenças sutis – mas cruciais – na maneira de se enxergar e que tornam algumas pessoas resistentes e outras não.

"Pessoas sem muita resiliência veem a história de suas vidas parando quando elas atingem um certo ponto, talvez quando tenham falido ou deixado de trabalhar", afirma Olivier Schobbens, consultor de carreiras na Bélgica. "Essas pessoas passam muito tempo pensando e remoendo aquela falha."

"Já os resilientes simplesmente pensam: ‘Tudo bem, houve um acidente de percurso, mas a vida continua’", diz ele.

A capacidade de se manter positivo e sob controle em períodos de grande estresse é uma das marcas registradas da resistência.

Ela também é a marca de alguns dos empreendedores mais bem-sucedidos do mundo. Como a americana de origem jamaicana Andrea Johnson, fundadora da Serra Trading Company, empresa familiar de café que tem um faturamento anual de US$ 300 mil por ano (pouco mais de R$ 1 milhão).

Johnson resolveu se arriscar no mundo dos negócios quando perdeu seu emprego na grife Giorgio Armani, durante a crise global de 2008.

"Pensando bem, foi o empurrão que eu precisava", conta ela.

Mudar de ramo foi um desafio, mas Johnson rapidamente se tornou especialista na indústria mundial do café. As vendas agora estão estáveis e a empresa pretende entrar no mercado asiático com parceiros em Hong Kong e no Japão.

A empresária acredita que é "resiliente por natureza" e atribui isso à maneira como ela enfrenta obstáculos. "Tenho uma mente muito lógica e gosto de esmiuçar os problemas em partes, para ir superando-os", afirma.

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Paixão e objetivos

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Image caption Australiano ouviu 'nãos' durante um ano até conseguir investidores para start-up

Pessoas como Johnson também costumam ter uma forte noção de seus objetivos. "Esses profissionais têm mais facilidade de dar a volta por cima quando sabem claramente a diferença que eles querem fazer no mundo com sua vida profissional", diz Schobbens.

Essa paixão ajuda a aumentar a capacidade de resistência e a superar obstáculos.

O empresário australiano Stephen Ibos sabia que tinha uma ótima ideia de negócio nas mãos, mas sofreu quando buscava investidores para sua start-up.

"Passei um ano me reunindo com pessoas que me diziam: ‘o que você quer fazer é tecnicamente impossível’, ‘não vai dar certo’", conta.

Só depois de muitas apresentações, ele conseguiu achar alguém que acreditou na ideia e o ajudou a encontrar o financiamento necessário. Hoje, sua empresa, Maestrano, oferece serviços de computação em nuvem para companhias de pequeno e médio porte, e já se expandiu para os Estados Unidos.

"Todos os dias enfrentamos desafios que nem imaginávamos que existiriam no dia anterior", afirma.

Por isso, para Mowbray, a resiliência é, acima de tudo, aceitar e encarar os riscos, em vez de evitá-los. Expor-se a novos desafios e a experiências estranhas ajuda a trabalhar essa resistência.

"É uma maneira de aumentar suas experiências e saber com que tipos de situações você sabe lidar", diz o consultor.

Para ele, saber ver o lado bom de um fracasso é essencial para quem quer ser bem-sucedido no mundo dos negócios.

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Leia a versão original desta reportagem em inglês no site da BBC Capital