Comboio de alemães e austríacos cruza fronteira para dar carona a imigrantes

Comboio | Foto: Reuters Direito de imagem Reuters
Image caption Neste domingo, pelo menos 140 carros deixaram Viena para buscar imigrantes em Budapeste

Um comboio de dezenas de carros dirigidos por ativistas alemães e austríacos cruzou a fronteira da Hungria para dar carona a imigrantes e ajudá-los a chegar à Europa Ocidental.

A iniciativa foi chamada de "comboio dos refugiados". Até a tarde deste domingo 140 carros já haviam deixado Viena com o objetivo de buscar imigrantes na capital húngara, Budapeste.

Desde que a Hungria abriu as suas fronteiras, na sexta-feira, após dias de caos e confronto, milhares de refugiados – a maior parte deles vindos da Síria – decidiram deixar o país em direção a Áustria ou Alemanha.

Muitos, frustrados por terem sido impedidos de embarcar em trens em Budapeste, começaram a caminhar ao longo de uma estrada para a Áustria – daí a iniciativa do comboio.

"Acho que esse é meu dever. Sou mãe e não posso mais fechar os olhos (para o que está acontecendo)", disse à BBC a ativista austríaca Angelika Neuwirth. "Somos todos seres humanos. Ninguém é ilegal."

Alguns ônibus e trens também foram disponibilizados para levar os refugiados da fronteira da Hungria até Viena ou a Alemanha.

Leia mais: Brasil acolhe mais sírios que países na rota europeia de refugiados

Image caption Refugiados caminham da Hungria para a Áustria

Não está claro como a polícia húngara deve responder à iniciativa do comboio. Segundo sua porta-voz, Viktoria Csiszer-Kovacs, quem atravessar a fronteira levando imigrantes estará violando a lei.

Na semana passada, quatro ativistas austríacos que tentaram dar carona a refugiados foram detidos acusados de tráfico de pessoas, mas acabaram sendo liberados pouco depois.

Nas últimas horas, alguns ativistas conseguiram transportar imigrantes sem serem parados pela polícia.

Papa

Enquanto o comboio de alemães e austríacos se dirigia a Budapeste, no Vaticano, o papa Francisco exortou os católicos de toda a Europa a ajudar a resolver a crise dos imigrantes.

Segundo o pontífice "cada paróquia católica, cada comunidade religiosa, cada mosteiro e cada santuário na Europa" deveria hospedar uma família de imigrantes.

"E isso deve começar por minha diocese em Roma", disse.

Direito de imagem AFP
Image caption Papa exortou católicos a ajudarem as famílias de imigrantes que estão chegando na Europa

Autoridades alemãs dizem que 11 mil pessoas chegaram ao país para pedir asilo no sábado e mais 10 mil estavam sendo esperadas para este domingo.

Leia mais: Refugiados na Europa: a crise em mapas e gráficos

Leia mais: Brasileiro que resgatou imigrantes diz que eles não comiam havia 2 dias

Segundo autoridades da Alemanha, Áustria e Hungria a decisão de permitir que os imigrantes atravessem suas fronteiras tem como objetivo evitar uma crise humanitária, mas não cria um precedente.

Na tarde deste domingo, o chanceler da Áustria, Werner Faymann, já anunciou que as medidas de emergência adotadas para lidar com a crise dos refugiados começariam a ser removidas de forma gradual.

"Sempre dissemos que essa era uma situação de emergência em que devíamos agir rápido e de forma humana", disse Faymann. "Ajudamos mais de 12 mil pessoas em situação grave. Agora, temos de caminhar passo a passo para sair dessa situação de emergência para uma normalidade."

Pelas regras da União Europeia, os refugiados precisam pedir asilo ao primeiro país do bloco em que colocam os pés – embora haja quem defenda uma revisão desta norma.

Em agosto, a Alemanha já havia flexibilizado essa regra ao permitir que os Sírios registrem seu pedido de asilo no país, independentemente de como tenham entrado na Europa.

Homenagem

Ainda neste domingo, uma cerimônia foi realizada em Vancouver, no Canadá para lembrar o menino sírio Alan Kurdi, sua mãe e seu irmão, que morreram tentando atravessar o mar Mediterrâneo para fugir para a Europa.

A foto do corpo de Alan numa praia da Turquia causou grande impacto e consternação ao redor do mundo.

O menino tinha uma tia no Canadá, Tima Kurdi, mas o país havia rejeitado um pedido de asilo para a família.

Tima diz que agora está preocupada com o pai das crianças, Abdullah, que sobreviveu à tragédia e enterrou a família na Síria na sexta-feira.

"Ele não quer deixar os túmulos. Está dormindo há três dias no chão, ao lado deles", conta Tima.

Curta nossa página no Facebook para receber mais reportagens da BBC Brasil.