Como destino trágico de um capitão português selou futuro de região mais nobre do Rio de Janeiro

Direito de imagem Nicola Facchinetti Acervo Museu Imperial Casa Geyer
Image caption Lagoa Rodrigo de Freitas antes da urbanização; à frente, na direita, o Morro Dois Irmãos

Os anos 1710 não foram fáceis para o capitão Rodrigo de Freitas. Em 1711, com a segunda invasão francesa ao Rio de Janeiro, os homens de posses foram chamados pela Coroa portuguesa a ajudar a pagar o resgate exigido pelos invasores para que a cidade não fosse bombardeada. Em 1717, morreu sua mulher, Petronilha Fagundes.

Falido e viúvo, Rodrigo de Freitas decidiu deixar o Rio e voltar a Portugal, sua terra, com o único filho e herdeiro, João de Freitas e Castro. A viuvez ajudou a selar o destino do capitão português e da imensidão de terras do engenho que ele possuía na zona sul do Rio, incluindo a lagoa que herdou seu nome, hoje um cartão postal do Rio.

Das terras do capitão também saíram os bairros de Ipanema, Jardim Botânico, Horto, Gávea, Leblon, Lagoa, Copacabana e Fonte da Saudade. A história deles é contada no livro A Fazenda Nacional da Lagoa Rodrigo de Freitas, dos historiadores Carlos Eduardo Barata e Claudia Braga Gaspar (Editora Cassará).

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O livro, que será lançado no dia 3 de outubro, traz relatos, curiosidades e imagens sobre como o engenho deu origem a uma fábrica de pólvora e depois a vários bairros da região mais nobre do Rio de Janeiro.

O projeto de A Fazenda Nacional foi selecionado pela Secretaria Municipal de Cultura do Rio e lançado com o selo oficial da Biblioteca Rio 450 anos. É o resultado de uma pesquisa de dez anos dos dois autores, que são primos, cresceram em Ipanema e se dedicam a estudar a história dos bairros do Rio de Janeiro. Juntos escreveram Villa Ipanema, sobre a formação do bairro, e De Engenho a Jardim, sobre o Jardim Botânico. Claudia é também autora de Orla Carioca e Praias do Rio.

Barata, especializado em genealogia, é diretor do Museu do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e autor do Dicionário das Famílias Brasileiras, entre outros. Com documentos, mapas e 180 ilustrações, o livro é concebido como uma espécie de roteiro histórico, geográfico e sentimental do passado do coração da zona sul carioca.

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A seguir, algumas histórias sobre a velha Fazenda Nacional e os bairros que dela se originaram:

Lagoa

Direito de imagem Haley Pacheco de Oliveira Wikimedia Commons
Image caption Lagoa receberá competições nos Jogos Olímpicos e Paralímpicos do Rio 2016

Piraguá ou Sacopenapã foram os primeiros nomes da lagoa, que depois foi tomando os nomes dos proprietários, como era costume à época. O terreno primeiro pertencia à Coroa Portuguesa, que criou ali, em 1575, o Engenho D'El Rei.

Em 1598 a área foi vendida a Diogo Amorim Soares, e a Lagoa tornou-se conhecida como Lagoa do Amorim. O proprietário vendeu o terreno ao genro Sebastião Fagundes Varella em 1609 e o local passou a chamar-se Lagoa do Fagundes. Em 1707, seu genro, o capitão Rodrigo de Freitas, casado com Petronilha Fagundes, adquire o engenho, que passa a se chamar Engenho da Lagoa Rodrigo de Freitas.

Com a morte de Petronilha, em 1717, e já com as finanças combalidas depois de ter ajudado a pagar o resgate exigido pelos invasores franceses, o capitão Rodrigo de Freitas retornou a Portugal. Levou consigo o único filho, João, então com 13 anos. Outros três filhos que tivera com Petronilha morreram muito pequenos.

De mudança, o capitão vendeu a parte do terreno que daria origem a Copacabana. Voltou para sua cidade natal, São Martinho de Penacova, e recuperou-se financeiramente em Portugal, pois um capataz contratado por ele para as terras da Lagoa foi arrendando partes da propriedade a várias famílias, o que garantiu a Rodrigo de Freitas e seu herdeiro uma boa renda.

O capitão nunca se casou novamente, concentrando-se na educação do filho e na administração de seus bens. Morreu em 1748.

Segundo os registros da antiga Fazenda Nacional, o espelho d'água da Lagoa tinha 4,48 milhões de metros quadrados. Mas foi sendo sucessivamente aterrado para construções e hoje tem cerca de 2,3 milhões de metros quadrados. No ano 2000, a Lagoa foi tombada pela União e sua geografia é preservada.

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Jardim Botânico

Direito de imagem Acervo do Arquivo Central do IphanReproduzido do livro A Fazenda Nacional
Image caption Portão da antiga Fábrica de Pólvora no Jardim Botânico, em projeto e foto atual

Em 1808, com a corte portuguesa de mudança para o Rio fugindo do avanço napoleônico na Europa, a Coroa decidiu construir uma fábrica de pólvora para melhorar as defesas da cidade. Desapropriou o velho Engenho da Lagoa, área ainda pouco povoada e distante do Centro do Rio, e deu ao lugar o nome de Fazenda Nacional da Lagoa Rodrigo de Freitas.

Na sede do velho engenho foi construída a Fábrica de Pólvora e Munição, que funcionou ali de 1810 a 1828.

Dentro da Fazenda Nacional, D. João 6º criou um Jardim de Aclimação, transformado em Jardim Público e depois no atual Jardim Botânico. O entorno da área era arrendado por famílias abastadas, que mantinham ali suas chácaras, e pequenos arrendatários. Em 1868, eram 153 chacareiros na região.

O portal da fábrica de pólvora sobreviveu à explosão do lugar, em 1831, e marca hoje o acesso ao parquinho infantil do Jardim Botânico. A sede do engenho é a casa-sede do Jardim Botânico. Tudo o que restou da fábrica está tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Quando a Coroa desapropriou as terras do engenho da Lagoa Rodrigo de Freitas, em 1808, foi estabelecido que os herdeiros do capitão seriam indenizados. Mas o pagamento demorou: só em 1827 a indenização foi paga. Faltava ressarcir o que era do Município do Rio, que também possuía terras ali. Apenas em 1869 foi quitada, com apólices da dívida pública, a dívida da União com o Município.

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De economia rural para área urbana

Direito de imagem George Leuzinger Colecao Maria Lucia Sisson
Image caption Na sede do Engenho da Lagoa, D. João 6º, recém instalado no Brasil, construiu uma fábrica de munição

A partir do último quarto do século 19, foram estabelecidas regras para a venda dos terrenos da Fazenda Nacional da Lagoa Rodrigo de Freitas, possibilitando que os arrendatários se transformassem em proprietários. Com a República (1889), os arrendatários foram sendo definitivamente chamados a pagar à União pelas terras, ou instados a devolvê-las. Acelera-se então o processo de formação dos bairros de todo o entorno da Lagoa.

"Dessa convulsão da área da Fazenda Nacional da Lagoa Rodrigo de Freitas, na virada do século 19 para o 20, quando todos os terrenos são remidos (quitados) ou devolvidos à União, resultará a sua transformação de uma propriedade de economia rural em uma área urbana, origem de muitos dos atuais bairros da zona sul carioca", contextualiza o livro.

"O Barão de Ipanema, por exemplo, que já havia comprado uma parte da área de Copacabana junto com Constante Ramos, compra também a faixa entre o Arpoador e o Jardim de Alá e manda urbanizar a região, que chamou de Villa Ipanema, em 1894", conta o historiador Carlos Eduardo Barata, autor, junto com Claudia Gaspar, de Villa Ipanema, lançado em 1994, quando o bairro completou cem anos.

Já a Gávea, segundo Claudia Gaspar, começou a se separar mais cedo, com a criação da Freguesia de Nossa Senhora da Conceição da Gávea, em 1873. Aos poucos também foram se instalando na região do Horto e do Jardim Botânico muitas fábricas de tecido, como São Félix, Carioca e Corcovado.

Por decreto, foram concedidos privilégios de isenção de impostos sobre importação de materiais de construção e de concessão de terrenos e edifícios às empresas que se propusessem a construir casas populares.

Joias arquitetônicas

Dentro do terreno da antiga Fazenda Nacional estão algumas preciosidades arquitetônicas. Uma delas é a Capela de Nossa Senhora da Cabeça, uma das mais antigas capelas do Rio. Foi erguida no princípio do século 17, na chácara da Cabeça, uma das muitas que foram surgindo na área, e hoje está dentro da maternidade Melo Mattos, no Jardim Botânico.

Foi num passeio na Chácara da Cabeça que a escritora e artista britânica Maria Graham se apaixonou pela vista da lagoa e se inspirou para desenhar, em 1821, uma panorâmica do local, em sépia e bico de pena. Maria Graham, a Lady Calcott, foi preceptora da princesa Maria da Glória, filha de D. Pedro 1º e futura rainha de Portugal. O desenho pertence ao acervo do British Museum e é uma das 180 ilustrações de A Fazenda Nacional.

Direito de imagem Servico Geografico do Exercito
Image caption Os bairros de Ipanema e Leblon saíram das propriedades do capitão para tornarem-se alguns dos mais famosos do Rio

Outra construção importante é o Solar Grandjean de Montigny, onde morou o arquiteto francês August Henry Grandjean de Montigny. Depois de chegar ao Brasil com a Missão Artística Francesa, em 1816, o arquiteto francês adquiriu na Gávea um sobrado construído no século 18 pelo português Joaquim Pereira da Cruz.

A data exata da construção do solar que serviu de residência a Grandjean de Montigny é muito discutida até hoje. Segundo Carlos Barata e Claudia Gaspar, que tiveram acesso à escritura de compra da propriedade, Montigny se estabeleceu lá em 1817, mandando depois reformar o imóvel e incorporando a ele elementos da arquitetura neoclássica, da qual foi um grande mestre.

Lá, o arquiteto viveu com a família por muito tempo, e aos poucos foi vendendo partes do terreno. O solar fica hoje dentro da área da Pontifícia Universidade Católica (PUC) e pertence à universidade.

Leblon e Ipanema

O Leblon herda o nome do nobre francês Emmanuel Hippolyte Charles Toussiant Le Blon de Meyrach, o Charles Leblon. Ele chegou ao Rio por volta de 1839 e foi proprietário da Cia. de Seguros Marítimos.

Comprou um sem-número de propriedades na região, conhecida pelo nome de Caminho da Restinga – que, com o tempo, passou a ser chamar Caminho do Leblon, embora o nobre francês tenha morrido sem ter a oportunidade de ver seu nome de família perpetuado no bairro, conta A Fazenda Nacional, citando o clássico História das Ruas do Rio de Janeiro, de Brasil Gerson.

Já Ipanema surge como um bairro planejado. Satisfeito com o investimento que fizera para abrir várias ruas no novo bairro de Copacabana (lembrando que essa foi a primeira área a ser vendida por Rodrigo de Freitas, logo que se mudou para Portugal), o Barão de Ipanema (José Antônio Moreira Filho) teve boas razões para comemorar a chegada do bonde à região, em 1892, passando pelo Túnel Velho (entre Botafogo e Copacabana).

Decidiu então investir em outra área desmembrada da velha Fazenda Nacional, a área da praia Funda. Em sociedade com o coronel Antônio José da Silva, começou o novo empreendimento: um bairro planejado em toda a extensão de areia entre Copacabana e Leblon. Em abril de 1894 foi lavrado o auto de fundação da Villa Ipanema.

Morador de Ipanema, o escritor e jornalista João do Rio (João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto, 1888-1921) era apaixonado pelo bairro e trouxe para conhecer o lugar a bailarina Isadora Duncan. Num artigo de 1917, intitulado Praia Maravilhosa, o cronista descrevia as belezas do lugar e o encanto de Isadora Duncan pela ainda pouco conhecida Ipanema.

Narra João do Rio: "O Rio entendeu-se pelas praias. Contornou o Pão de Açúcar e continuou no Leme, em Copacabana. O novo bairro é o derradeiro ponto dessa reticência de casarias. Mas é o ponto final mais formoso de uma cidade – uma nova cidade toda bela num pedaço de terra tão linda, que, sem exageros, é impossível contemplar sem lhe dar o verdadeiro nome: a Praia Maravilhosa".