Três histórias (uma sem ‘final feliz’) ilustram desafio de cotas para deficientes no Brasil

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"No começo, achei que não fosse conseguir, porque não conseguia ler nada. Com o tempo, fui decorando o tipo de pão", relembra Reginaldo Nagatomo, 32 anos, repositor e deficiente visual. "Sempre tinha uma pessoa comigo, que eles chamam de padrinho. Você nunca fica sozinho quando entra, mesmo que não tenha deficiência. Hoje, só de pegar no pão eu já sei qual é."

"No caso de um colaborador, o Celso, deu um gelo na barriga contratá-lo para a produção. Ele é cego. Não conhecíamos os limites dele, ele próprio foi determinando", conta a gestora Samanta Vilalon Barbosa. "Agora estamos colhendo os frutos. Ele é um colaborador produtivo. As pessoas pensam que é utópico, temem ter um funcionário que não é produtivo, que vão sair perdendo. Mas a gente vê que não é assim."

Os depoimentos acima ilustram o cotidiano de pessoas desbravando territórios ainda pouco explorados no Brasil. São alguns dos pioneiros em um movimento que tenta tornar o ambiente de trabalho mais inclusivo para os 45 milhões de cidadãos brasileiros com algum tipo de deficiência.

Reginaldo, Celso e Samanta trabalham na Padaria Real, em Sorocaba (SP). A empresa tem 800 funcionários, distribuídos entre quatro lojas, uma fábrica e um restaurante.

Famosa na cidade por suas coxinhas, a padaria abraçou, há dois anos, o desafio de se tornar uma empresa inclusiva. E enquanto luta para se adequar à legislação nessa área, seu caso ilustra as dificuldades e oportunidades que a inclusão oferece.

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Inclusão

Segundo o Dicionário de Direitos Humanos do Ministério Público da União, inclusão social quer dizer deixar de excluir – seja por raça, orientação sexual, gênero ou qualquer outra razão.

No entanto, isso não significa permitir que o excluído se adapte, por mérito próprio, ao sistema vigente, mas sim exigir que poder público e sociedade ofereçam condições necessárias para acolher as especificidades de todos.

No caso da pessoa com deficiência, isso quer dizer, por exemplo, oferecer rampas, elevadores e banheiros acessíveis para cadeirantes. Ou piso tátil e lupas eletrônicas para pessoas com deficiência visual - recursos que colocam a pessoa com deficiência em pé de igualdade com quem não tem deficiência.

Inclusão também implica mudança de conceitos, de jeito de pensar o mundo.

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Para brasileiros hoje, entender esse conceito à primeira vista complexo se tornou imperativo: no último 6 de julho, o governo sancionou a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (LBI), que reúne várias outras leis que já existiam sobre o assunto.

Segundo a procuradora regional da República Eugênia Gonzaga, a legislação anterior estava desencontrada e havia incompatibilidades com a Convenção da ONU sobre Pessoas com Deficiência, da qual o Brasil é signatário desde 2008.

"A LBI é boa, até mais avançada do que em muitos países. Ela quase repete a convenção da ONU. E ficou bem mais clara", disse Gonzaga à BBC Brasil.

"Por outro lado, deixou muito sem esclarecer, porque ia ser ainda mais difícil de votar. Esperávamos mais, mas foi o que foi possível fazer no momento."

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Lei de cotas

Grupos que defendem os direitos de pessoas com deficiência no Brasil ficaram desapontados com alguns vetos feitos ao texto original da LBI.

Por exemplo, foi vetada uma cláusula que determinava que empresas com a partir de 50 funcionários reservassem ao menos uma vaga para pessoas com deficiência.

Empresas maiores, com a partir de cem funcionários, já são obrigadas, pela lei de cotas para pessoas com deficiência, em vigor desde 1991, a reservar de 2% a 5% de suas vagas a essas pessoas. Pela regra, a Padaria Real deveria estar empregando pelo menos 16 pessoas com deficiência.

Segundo Samanta, trabalham hoje ali 15 pessoas com deficiência. "Já estamos no processo de inclusão e não queremos parar. Nossa média (de contratação) é uma pessoa com deficiência por mês", diz.

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Na esfera jurídica, a procuradora Eugênia Gonzaga explica por que ela e seus colegas defendem que haja uma cota.

"No Brasil, temos grupos extremamente excluídos, e só a conscientização não basta. Por isso defendemos cota. Mas ela não pode vir sozinha. É importante, para quem tem deficiência, saber que não está lá para cumprir número", ressalta. "A pessoa quer oferecer sua capacidade."

Seguindo essa lógica, multas para não cumpridores só são aplicadas em último caso, quando os fiscais do Ministério do Trabalho, depois de dar tempo e apoio às empresas, concluem que elas não têm mesmo a intenção de cumprir a lei.

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Image caption Reginaldo Nagatomo trabalha há um ano como repositor de produtos da padaria Real, em Sorocaba (SP)

Cultura

Para os defensores dos direitos de pessoas com deficiência, no entanto, não basta cumprir a lei. A inclusão requer uma mudança cultural.

A empresa de educação inclusiva nos negócios Consolidar Dorina, associada à Fundação Dorina Nowill para Cegos, prepara equipes de empresas para incluir pessoas com deficiência e acompanha o desenvolvimento profissional de candidatos.

Lincoln Tavares, um dos educadores da Consolidar, explica que a ideia é criar empresas que valorizem a diversidade e não enxerguem os trabalhadores com deficiência como uma mera cota.

"A maioria das empresas sofre para reter o talento com deficiência. Quer cumprir a cota, mas não tenta qualificar ou desenvolver essa pessoa", diz.

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Ele descreve cenários que encontra em algumas visitas.

"Entramos na empresa e não vemos uma pessoa com deficiência trabalhando nos departamentos. Aí, abrimos uma porta no fundo do corredor e vemos 20 pessoas com deficiência trabalhando. 'Aqui, estamos cumprindo os 2%', eles dizem. Mas o dia a dia dessas pessoas é de segregação."

"Tratada como 'coisa', essa pessoa não se sente parte da empresa. Se encontra outra que pague R$ 50 a mais, muda de emprego."

Experiências

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Image caption Em seu primeiro emprego, Anna Luiza Abdalla diz que a oportunidade foi um aprendizado

Na Padaria Real, a meta é que cada um dos 800 funcionários, com ou sem deficiência, passe por sessões de educação inclusiva. Já trabalham na casa cadeirantes, pessoas cegas, com baixa visão e com deficiência intelectual.

Samanta diz que a inclusão desses funcionários começa no próprio processo de seleção.

"A pessoa diz no que gostaria de trabalhar e passa por uma preparação. A equipe também é preparada. Quando é feito esse trabalho prévio, o ganho é maior. Todas as pessoas que passaram por isso tiveram um ganho comportamental, de enxergar a vida de um outro jeito."

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O repositor Reginaldo, que tem baixa visão, começou a trabalhar na padaria há cerca de um ano e, aos poucos, superou a própria insegurança.

Como acontece com Celso no empacotamento, quem vê Reginaldo trabalhando nem sempre se dá conta de que ele tem baixa visão.

"Hoje, me sinto totalmente tranquilo. Se alguém procura algum produto, indico onde está. Quem é cliente mesmo e vem todo dia já sabe que tenho baixa visão, mas muitos nem sabem."

"Essa é a ideia. Que seja vista a competência - não a deficiência", diz Samanta.

Poucas semanas antes da entrevista à BBC Brasil, a padaria empregou também Anna Luiza Abdalla, 20 anos, com Síndrome de Down, para trabalhar no atendimento aos clientes.

Samanta comemorou a chegada da nova funcionária.

"Acho que a gente sai ganhando, sem demagogia, porque, em primeiro lugar, as pessoas estão desempenhando suas funções, sendo produtivas. A Anna Luiza tem um efeito direto no cliente, que fica encantado em ver essa cultura. Mas não adianta dizer que é fácil porque não é. Ela nunca trabalhou, mora com os pais, é protegida. Então está tendo de enfrentar novos desafios."

Alguns dias depois, porém, Samanta informou à BBC Brasil que Anna Luiza não havia sido efetivada na empresa.

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"Nosso objetivo é trabalhar com as competências do novo talento e desenvolvê-lo, não somente tê-lo como 'vitrine'. Como a Anna, apesar de todo o esforço, não correspondeu, não vamos efetivá-la", escreveu a gestora por e-mail.

Em entrevista à BBC Brasil após sua saída da padaria, Anna Luiza comentou suas dificuldades.

"Vou ser sincera, eu não sou muito responsável com os horários, sou um pouco avoada, isso me atrapalhou um pouco na padaria. Isso não é do Down, é de mim mesma. Infelizmente, meu jeito é esse", disse.

"(Mas) adorei, aprendi muita coisa. Gosto muito do contato com clientes, foi meu ponto forte nesse trabalho. Sempre fui muito social, adoro conversar, olhar no olho da pessoa, tocar na pessoa."

E agora, olhando para o futuro, o que Anna Luiza gostaria de fazer?

"Queria ser DJ. Sempre gostei muito de música, nasci ouvindo música. De uns dez anos para cá, meu irmão me ensinou sobre música eletrônica. Com 18 anos, já com mais maturidade, decidi ser DJ. Gosto de tecnologia, isso ajuda muito também."