Mudanças à mesa: com dólar alto, iguarias nacionais tomam lugar de importadas

Hélio Casagrande, dono da delicatessen Cosa Nostra, no Rio (Foto: BBC)
Image caption Hélio Casagrande reduziu importados e aposta em nacionais para manter preços acessíveis em sua loja

Em vez de geleia francesa, doces do rincão gaúcho; em vez de shortbread cookie escocês, biscoitos amanteigados de Nova Friburgo; em vez de marzipã alemão, por que não frutas cristalizadas de Carmo de Minas?

Em resposta à alta do dólar, essas são algumas das alternativas oferecidas pelo empresário carioca Hélio Casagrande na delicatessen Cosa Nostra, no Rio, que outrora contava com mais de 80% de produtos importados.

A substituição de importações é um dos efeitos do dólar batendo na casa dos R$ 4, levando empresários como Casagrande a abrir mais espaço para produtos brasileiros. Sua loja em Ipanema continua a oferecer itens estrangeiros, mas os nacionais são agora quase metade dos produtos à venda.

Na outra ponta, setores da indústria brasileira como os de vinhos e queijos estão se beneficiando de mais espaço nas prateleiras de lojas e mercados.

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Casagrande afirma que está "dançando conforme a música" – como fez para atravessar os anos de hiperinflação e os sucessivos planos econômicos dos anos 1980.

"Estamos nos reinventando. Descobrimos um nicho bacana, de produtos regionais que fomos buscar em cidadezinhas no país todo", afirma. "Eles têm preços mais acessíveis e uma qualidade fantástica que agrega valor."

Ele espera que os preços mais em conta ajudem a impulsionar as vendas na loja – que, com a crise econômica, caíram quase de 30%.

Image caption Dólar alto fez delicatessen investir mais em produtos regionais, mais baratos e também de qualidade

O freio no consumo vem atingindo o comércio como um todo, com quedas consecutivas de vendas desde o começo do ano.

De acordo com a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), a intenção de consumo das famílias atingiu neste mês o menor nível desde que o índice começou a ser calculado, em 2010.

A CNC acaba de revisar a retração esperada este ano de -2,9% para -3,6%. Será o primeiro resultado negativo desde 2003.

A vez do vinho nacional?

Com a pressão do dólar sobre produtos importados, indústrias nacionais como as do queijo e do vinho acabam sentindo um efeito colateral positivo.

De acordo com o Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin), dados preliminares do mercado interno indicam que, do ano passado para cá, a venda de vinho branco nacional teve aumento de 5%; de tinto, 8%; e de espumantes, mais de 20%.

Para o gerente de promoção do Ibravin, Diego Bertolini, o momento é oportuno para aumentar a presença do produto nacional em um mercado que ainda tem preconceito com o vinho brasileiro.

"O dólar alto é um dos fatores que está ajudando o vinho brasileiro a ganhar competitividade. A gente nunca viu supermercados e distribuidores querendo trabalhar o vinho brasileiro com tanta força", afirma.

O varejo costuma ter maior rentabilidade com vinhos importados, afirma. Com o dólar alto, porém, o produto estrangeiro se torna menos lucrativo, pois empresários vêm reduzindo a margem de lucro para manter os preços competitivos.

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Image caption Com vinhedos como cenário de novela das seis, venda de nacionais deve crescer ainda mais

O fator novela

Dentro deste cenário, o espaço para o vinho nacional tende a crescer, explica Bertolini. E o fato de a atual novela das seis da Rede Globo ter como palco o mundo do vinho também ajuda. A trama de Além do Tempo é ambientada na Serra Gaúcha, principal polo produtor do país, com profissionais do vinho como protagonistas.

"Isso vai ajudar a impulsionar as vendas de vinhos e espumantes no fim do ano", aposta ele.

O viés positivo é um alento para uma indústria que também sofre com a alta de matérias-primas importadas, como a cortiça, e o aumento das tarifas elétricas.

"Não é um ano fácil. A rolha é importada, a produção das garrafas demanda muita eletricidade, a maior parte dos insumos aumentou. A nossa margem (de lucro) também está diminuindo. Mas, ao contrário de outras categorias, para nós o momento é interessante e temos que aproveitar para consolidar o setor", diz.

Ele descreve o sentimento em relação à crise com um "emoticon" imaginário: "Não é que estejamos rindo de uma orelha a outra. É uma carinha triste, mas com um sorrisinho discreto".

Efeito 'turista rico'

Esse efeito "gangorra" do dólar alto, com os impactos negativos e se equilibrando, também é sentido em restaurantes, sobretudo os que estão na rota de turistas estrangeiros.

É o caso do Le Pré Catelan, em Copacabana. Dono de uma estrela Michelin desde abril, quando a prestigiosa publicação francesa distribuiu suas primeiras distinções no Brasil, o restaurante do Hotel Sofitel sente ao mesmo tempo com o efeito-crise – que aperta os gastos dos clientes brasileiros – e o efeito-real-barato – que abre as mãos dos estrangeiros.

"Com a crise, os brasileiros estão preocupados com o futuro e diminuindo os gastos. Vão a restaurantes mais baratos, pensam bem no que vão escolher e, quem sabe, vão preferir tomar uma cerveja em vez de um vinho", diz Roland Villard, chef executivo do Sofitel.

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Image caption Segundo entidade, venda de vinhos nacionais cresceu do ano passado para cá

Para os estrangeiros, porém, por um punhado de dólares pode-se chegar muito mais longe. O Brasil – e o Rio, mesmo com seus preços proibitivos – de repente ficou muito mais barato para quem chega com moedas fortes.

"Para qualquer estrangeiro ficou mais interessante vir ao Brasil. Porque podem gastar mais e aproveitar mais a viagem com o mesmo dinheiro", diz Villard.

Como exemplo da disposição extravagante, ele conta que a casa vendeu alguns vinhos da linha superior na última semana – na faixa de R$ 5 mil a garrafa.

Ainda assim, a estratégia não é a de se apoiar nos comensais estrangeiros. O chef afirma que, para não afastar a clientela nacional, os preços do restaurante não acompanham a inflação.

"Adaptamos o menu para segurar os preços e manter o movimento, de modo a evitar prejuízo sobre o resultado final", afirma.

Sessões Netflix e ceia turbinada

Se a recessão está levando o movimento em restaurantes e lojas a cair, o mesmo não se observa, necessariamente, em supermercados.

Na rede carioca Zona Sul, que tem 35 lojas distribuídas pela cidade, o vice-presidente comercial Pietrangelo Leta afirma que o volume de vendas vem se mantendo. As pessoas estão segurando os gastos na rua – e seu negócio ganha com isso, afirma.

"Muita gente está trocando o cinema pelo Netflix, o restaurante pela refeição em casa. Acho que muitos clientes vão fazer essa substituição", considera.

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Image caption Para a rede de supermercados Zona Sul, do Rio, crise faz o consumidor jantar mais em casa

Mesmo no fim do ano, quando a compra de produtos importados para as ceias natalinas pode sofrer um baque, Leta aposta no contrário.

"Com a variação cambial, muita gente vai deixar de viajar no fim do ano. Então a ceia pode ficar mais rica para compensar. O cliente vai deixar de fazer aquela viagem para a Itália ou para a Argentina, então vai fazer uma ceia mais caprichada, convidar mais gente", avalia.

Ele afirma que a rede não vai reduzir o foco em produtos importados, que atualmente representam cerca de 16% da gama ofertada. Porém, tem buscado saídas para amenizar o impacto para o consumidor, como parcerias com fornecedores antigos para conseguir condições de compras mais vantajosas e redução da margem de lucro.

Natal antecipado

Semana que vem o empresário Hélio Casagrande já inaugura a decoração natalina na sua delicatessen em Ipanema. Um Papai Noel de 1,50 m estará saudando os clientes na porta com um animado "Ho! Ho! Ho!". Diante da perspectiva de as vendas natalinas caírem, ele resolveu começar mais cedo.

"A gente sabe que o nível de estresse de todo mundo é muito grande em relação à política e à economia. Mas não acredito que as pessoas vão deixar de comprar coisas para o Natal."

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Ele dá exemplo das alternativas nacionais que ele vêm oferecendo aos seus clientes. Os 200 g de patê de foie gras nacional saem a R$ 39,80, contra R$ 139 pelo francês; o queijo de ovelha da Serra da Mantiqueira custa R$ 25,90, enquanto o manchego espanhol, também de ovelha, sai a R$ 39 (150g); e os biscoitos amanteigados de Friburgo custam R$ 9,90, versus os R$ 39,90 pelos shortbread cookies escoceses.

A quem não se dispõe a pagar R$ 390 por uma champanhe Louis Roederer, ele sugere um espumante Dal Pizzol em edição comemorativa, a R$ 149.

Seja qual for a escolha etílica, porém, a dica de todos os entrevistados é estocar bem a adega até o fim de novembro, já que em dezembro começa a valer o aumento do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) sobre vinhos, espumantes e destilados – decretado pelo governo em setembro como parte das medidas para equilibrar as contas públicas.

E aí, seja com variantes nacionais ou importados, o brinde a 2016 custará um pouco mais ao consumidor.

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