Como grupo de jovens virou referência internacional na denúncia de abusos policiais

  • 30 outubro 2015
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Coletivo Papo Reto no Complexo do Alemão | Crédito: Divulgação Direito de imagem Divulgacao
Image caption Integrantes do Coletivo Papo Reto durante gravação de vídeo no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro

Um coletivo de jovens baseados no Complexo do Alemão, na Zona Norte do Rio de Janeiro, vem fazendo barulho ao filmar abusos policiais e disputar espaço na sociedade com visões alternativas sobre os problemas, a cultura e os talentos existentes numa das maiores favelas do mundo.

Formado por oito pessoas de variados perfis, reunidas no final de 2013 na mobilização em prol de famílias atingidas por chuvas e desabamentos no Alemão, o Coletivo Papo Reto Comunicação Independente tem menos de dois anos de vida, mas deu projeção a seus integrantes e se tornou fortemente ativo nas redes sociais, com a publicação de vídeos no YouTube e a organização de manifestações na praia de Ipanema.

O grupo despertou o interesse da mídia internacional, de jovens de outras comunidades cariocas e até da ONU, entre outras razões por divulgar flagrantes de abusos policiais gravados por eles ou recebidos por outros moradores do Alemão, e por fazer reportagens acompanhando questões tensas da favela, como protestos e operações policiais.

Os objetivos são parecidos com os de vários outros grupos de periferia do Rio: fortalecer a comunidade e sua inserção na cidade.

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'Uma moradora nos alertou no WhatsApp'

A maneira como eles têm feito isso, no entanto, tem gerado resultados surpreendentes para seus próprios integrantes.

"Tudo surgiu de forma natural", conta o integrante Raull Santhiago, de 26 anos. "Todos tinham ligação com ativismo, audiovisual ou direitos humanos. Um tinha uma câmera, outro era bom no celular, outro sabia mediar conflitos. Vimos que nossa atuação era necessária, e aí num certo momento a gente se tornou o Papo Reto." O nome vem da gíria carioca "mandar um papo reto", que significa "ir direto ao ponto", "falar sem papas na língua".

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Image caption (Esq. para dir.) Carlos, Thainã e Lana falam ao vivo em laje no Alemão

Essa atuação conta com participação da comunidade – moradores lhes enviam vídeos ou fotos gravados com seus celulares – e é inserida na dinâmica da favela com um esquema de trocas de alertas e mensagens pelo WhatsApp, que ajuda a mapear o que está acontecendo na comunidade, que áreas devem ser evitadas, e onde podem filmar ou intervir de alguma forma.

Eles cada vez mais têm sido chamados por moradores para documentarem algo – de abordagens policiais a moradores a protestos e tiroteios.

Em abril deste ano, quando o menino Eduardo de Jesus, de 10 anos, foi morto dentro de casa por um tiro de fuzil durante ação da polícia no Alemão, a equipe do coletivo foi uma das primeiras a chegar ao local e gravou as reações dos moradores e o corpo da criança ainda ensanguentado no chão.

"Uma moradora nos alertou no WhatsApp e recebemos aquele vídeo que foi divulgado depois, da mãe dele desesperada. Fomos os primeiros a chegar. Ali não era só filmar. Já tinha muito morador ao redor da cena, e fica uma situação muito tensa com a polícia. Tivemos que mediar", explica Lana de Souza, de 26 anos, que integra o coletivo.

'Já recebemos ameaças'

Filmar operações da polícia e ouvir denúncias de abuso em tempo real não é algo que flua de forma tranquila no ambiente tenso e volátil das grandes favelas do Rio.

"Já recebemos ameaças da polícia. Algumas na nossa página do Facebook, outras diretamente. Já levaram o cinegrafista para a delegacia, já quiseram ver nossas imagens no celular, mas nós sabemos dos nossos direitos", diz Lana, que é estuda jornalismo e faz produção e edição no Papo Reto.

O trabalho tem sido realizado em conjunto com a ONG americana Witness, cuja missão é auxiliar grupos e ativistas ao redor do mundo a utilizarem, com segurança, a produção de vídeos como ferramenta de defesa e denúncia em periferias, favelas, países em guerra e locais de conflito.

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Image caption Grupo acredita que, a longo prazo, seu trabalho terá um impacto sobre abusos cometidos pela polícia dentro das favelas

A parceria despertou o interesse da TV catariana Al-Jazeera, que deve transmitir no início de dezembro um documentário sobre o Papo Reto gravado no Rio como parte de uma série sobre ativistas que criam soluções tecnológicas em meio à luta por direitos ao redor do mundo.

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Impacto sobre abusos

O grupo acredita que, a longo prazo, o trabalho terá um impacto sobre abusos cometidos pela polícia dentro das favelas e cita o recente registro feito por moradores do Morro da Previdência, em setembro, quando policiais foram flagrados forjando a cena de um crime após a morte de um jovem.

Consultada pela BBC Brasil, a Secretaria de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro disse que cinco policiais foram indiciados por fraude processual e a Justiça decretou a prisão de todos os envolvidos.

Em nota, o governo também destacou esforços para conter abusos e disse que dispõe de 2 mil câmeras espalhadas pela cidade e 1,5 mil em viaturas da PM, além de ressaltar esforços com o programa de pacificação e o Sistema Integrado de Metas e Acompanhamento de Resultados.

Robert Muggah, especialista em segurança pública norte-americano baseado no Rio e estudioso de zonas de conflito em diversos países, diz que a chance cada vez maior de que abusos policiais sejam filmados por qualquer cidadão com um celular se torna um fator importante na interação entre comunidade e polícia.

"As novas tecnologias lançam uma nova luz sobre antigos problemas, e a forma como a polícia age deve ser impactada como consequência, mas é importante alertar que os grupos que se dedicam a isso têm virado alvo em lugares como o México, por exemplo. É algo sério e arriscado", avalia.

À frente do Instituto Igarapé, Muggah desenvolve um projeto conhecido como smart policing (policiamento inteligente, em tradução livre), que filmaria todo o expediente de um policial por meio de um aplicativo instalado em seus celulares.

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Image caption Moradores do Complexo do Alemão enviam vídeos ou fotos gravados com seus celulares ao coletivo

Presos na farda, os aparelhos gravariam tudo que os agentes fazem. Em fase final de testes, o equipamento já recebeu aprovação da cúpula de segurança pública fluminense, mas aguarda definições orçamentárias e burocráticas.

Segurança, critérios e treinamento

A partir de experiência com riscos de segurança, a ONG Witness – que dá apoio ao grupo carioca – desenvolveu, ao longo de 23 anos, manuais e técnicas que visam estimular a produção deste tipo de material, como prova jurídica contra os abusos, mas de forma que garanta a segurança ou ao menos minimize o perigo para os envolvidos.

"Hoje todo mundo tem uma câmera no bolso. Isso gerou novas oportunidades, mas também desafios. Não há mais a necessidade de que um perito da Anistia Internacional venha ao local e determine se algo aconteceu para que se inicie um processo. O abuso é gravado. Qualquer um pode coletar provas, e as coisas não acontecem mais na invisibilidade. Eu acho que reduz o abuso policial sim, a longo prazo", diz Priscila Néri, uma das responsáveis pelas atividades da Witness no Brasil.

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Image caption (Esq. para a dir.) Carlos Coutinho, Priscila Néri, Renata Trajano, Yvette Alberdingkthijm e Raull Santhiago em Nova York em evento que juntou Papo Reto e Witness

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"Por outro lado, tudo isso tem um risco enorme. Como filmar? Como gravar sem colocar em perigo quem filma e quem aparece? Para quem mostrar esses vídeos? Como armazená-los de forma segura? Como usar esse material da forma mais efetiva e estratégica possível?", aponta Priscila, indicando as áreas em que a organização atua – inclusive em locais como o Oriente Médio.

A entidade realiza oficinas dentro do Alemão com os integrantes do Papo Reto.

"Passamos a medir mais os riscos, e vamos repassar o conhecimento para os moradores", diz Thainã Medeiros, integrante do coletivo.

Uma questão polêmica é que eles não filmam atividades do narcotráfico. Lana Souza explica o motivo: "A polícia está dentro da favela como representante legal do Estado, para fazer cumprir a lei e agir seguindo as leis. Temos como cobrar que eles façam isso. Podemos denunciar e recorrer à Justiça se houver problema. No caso do tráfico, não temos qualquer segurança se fizermos denúncias. O jornalista vem, faz reportagem e vai embora. Nós vivemos aqui 24 horas por dia".

Apesar das preocupações e ameaças, a intenção do grupo é continuar fazendo barulho.

Eles já organizaram dois "Farofaços" – protestos em Ipanema contra a Operação Verão, que segundo o governo do Estado do Rio de Janeiro intercepta linhas de ônibus vindas da Zona Norte às praias da Zona Sul para identificar jovens em "situação de vulnerabilidade", que consideram com grande chance de irem à praia para cometer crimes.

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Image caption Coletivo se tornou conhecido por fazer reportagens sobre o cotidiano da favela e documentar abusos policiais em vídeos e fotos

Para Victor Ribeiro, responsável pelos treinamentos da Witness, o modelo deve ser reproduzido por jovens de grandes favelas como o Complexo da Maré e da Rocinha, que já estão procurando o Papo Reto.

Nos últimos dois meses o grupo foi convidado para palestras em universidades do México, discussões na sede da ONU, em Nova York, além de ter chamado a atenção de jornais como The New York Times e o australiano Sydney Morning Herald.

Raull Santhiago passou a trabalhar permanentemente em programa da emissora Globo News que visita periferias do Brasil.

"Eles vivem na pele essa realidade de ser esculachado pela polícia, serem vítimas de racismo e preconceito, de ameaças, e estão criando algo novo e muito sofisticado, que está oxigenando a comunicação em favelas do Rio", avalia Oliveira.

Os integrantes do Papo Reto detêm legitimidade local, conquistando a confiança dos moradores por também serem da favela, mas ao mesmo tempo miram longe, criando estratégias e circulando pelos diferentes espaços - seja num beco do Alemão, na laje da favela de onde costumam gravar seus programas, na Cidade do México, na TV ao vivo, ou na ONU.

Para Victor Ribeiro, da Witness, o Papo Reto pode ser visto como um novo modelo de comunicação comunitária.

"Eles se tornaram referência de coragem, denunciando ilegalidades e abusos da polícia, mas não são uma galera tensa, que só fala de violência. Pelo contrário. Fazem brincadeiras, são descolados, criativos. Denunciar violência policial é algo imposto a eles pela realidade em que eles vivem, e um papel que muitos não querem assumir, mas eles também brincam, fazem entrevistas, se orgulham da cultura da favela", diz.