Mais 'enraizado' e com nível superior, imigrante brasileiro 'muda de perfil' no Reino Unido

(Getty) Direito de imagem Getty
Image caption Custo de vida e solidão foram apontados como as principais dificuldades no cotidiano dos imigrantes brasileiros no Reino Unido

Há 30 anos, quando decidiu deixar o Brasil rumo ao Reino Unido, a paulistana Yara Evans tinha o nome de solteira e um diploma de graduação de História pela Unicamp.

O objetivo era apenas fazer um curso de inglês, mas ela escolheu permanecer no país.

Desde então, concluiu uma graduação, um mestrado e um doutorado. Hoje, é professora da Open University e pesquisadora da Queen Mary, Universidade de Londres. Mas a trajetória não foi fácil.

"Trabalhei como arrumadeira e garçonete", relembra.

Junto com outros pesquisadores do GEB (Grupo de Estudos sobre Brasileiros no Reino Unido, formado por acadêmicos brasileiros ligados a universidades britânicas), ela desenvolveu o mais amplo estudo sobre imigrantes brasileiros no Reino Unido, ao qual a reportagem da BBC Brasil teve acesso exclusivo.

E uma das principais conclusões do relatório Diversidades de Oportunidades: Brasileir@s no Reino Unido, 2013-2014 reflete um pouco da vida de Evans: o imigrante brasileiro no país tem atualmente nível educacional e decidiu emigrar não mais apenas atrás de dinheiro, mas de uma "experiência de vida" - ainda que, em muitos casos, isso represente momentaneamente cair algumas posições na pirâmide social.

Leia também: De limpador de privadas a vice-presidente de banco: imigrante brasileiro dá volta por cima no Reino Unido

Além disso, está mais enraizado e integrado à sociedade britânica, e não tem previsão de retorno ao Brasil.

"O imigrante sem educação formal que vem ao Reino Unido trabalhar por um tempo, ganhar dinheiro e depois voltar ao Brasil ainda existe, mas nosso estudo mostra que ele já não é mais maioria", afirmou Ana Souza, professora da Universidade Oxford Brookes e uma das autoras da pesquisa.

Entre as razões apontadas para essa mudança de perfil estão a ascensão da classe C no Brasil e um controle de imigração mais rígido por parte do governo britânico.

Leia também: A guerrilheira que virou atleta de elite

Curtiu? Siga a BBC Brasil no Facebook

Comunidade brasileira

Direito de imagem Thinkstock
Image caption Sul e Sudeste são principais 'polos de emigração' para o Reino Unido

O levantamento foi realizado entre setembro de 2013 e fevereiro de 2014 com base em 700 questionários preenchidos na internet e em estabelecimentos que oferecem serviços a brasileiros, como representações diplomáticas. Só puderam participar da pesquisa adultos nascidos no Brasil que estivessem no Reino Unido havia pelo menos seis meses da data de início da pesquisa.

Não há um cálculo único sobre o tamanho da comunidade brasileira no Reino Unido, estimada entre 80 mil e 300 mil pessoas, incluindo aqueles que estão em situação irregular ou possuem dupla cidadania.

Segundo o Ministério das Relações Exteriores, cerca de 118 mil brasileiros vivem no país em situação legal, o que faz do Reino Unido o terceiro destino mais procurado por brasileiros na Europa - atrás de Portugal e Espanha.

Já de acordo com o último Censo britânico, de 2011, o número é de 52.148, uma alta significativa comparada à sondagem de 2001, quando apenas 8 mil brasileiros afirmaram morar no Reino Unido. A imensa maioria vive na Inglaterra e no País de Gales, principalmente na capital britânica, Londres.

De acordo com o relatório, três quartos dos entrevistados (73%) afirmaram ter pelo menos iniciado o nível superior no Brasil antes de emigrar ao Reino Unido. A maioria tem entre 30 e 39 anos, é casada (67%) e não tem filhos (55%). Sudeste e Sul continuam sendo os principais polos de imigração, com destaque para São Paulo, de onde vem um terço de todos os imigrantes (31%).

"Podemos afirmar, sem sombra de dúvida, que o novo perfil do imigrante brasileiro reflete as mudanças ocorridas no Brasil nos últimos anos. Houve uma significativa expansão do ensino superior atrelada às conquistas socioeconômicas. São pessoas que se tornaram classe média e vêm para o Reino Unido por motivos mais relacionados à aventura, língua, cultura e qualidade de vida", afirma Yara Evans, professora da Queen Mary, Universidade de Londres.

"Em paralelo, o governo britânico tem apertado o cerco contra os imigrantes ilegais, normalmente pessoas de baixo poder aquisitivo que vêm ao Reino Unido única e exclusivamente com o objetivo de ganhar dinheiro", acrescenta.

O controle mais rígido das autoridades se reflete na situação imigratória dos brasileiros que moram no Reino Unido. Pouco mais de um terço dos entrevistados - o maior contingente da amostragem - afirmou viver no país com um passaporte europeu por descendência (34%).

Outros 22% disseram possuir um passaporte europeu por união, 11% receberam visto de trabalho e residência, 8% são estudantes e 5% disseram estar no país sem visto. Apenas 1% disse permanecer no país com um visto de turista.

As proporções são distintas das verificadas no período de admissão, quando o imigrante chegou ao Reino Unido. Do total de imigrantes brasileiros, 22% afirmaram, por exemplo, ter entrado no país com um visto de turista. A maioria disse viver no Reino Unido entre 5 a 10 anos (35%), seguida daqueles que residiam no país entre 10 e 20 anos (24%).

Leia também: Em cinco pontos: Qual a solução para a crise de refugiados na Europa?

'Descensão social' e trabalho

Direito de imagem Thinkstock
Image caption Ascensão da classe C no Brasil e um controle de imigração mais rígido por parte do governo britânico estão por trás de mudança de perfil de imigrante

Evans ressalva, contudo, que, apesar do nível educacional mais alto, o imigrante brasileiro nem sempre consegue manter o mesmo nível social que tinha quando deixou o Brasil. Especialistas classificam esse movimento como "descensão social".

"Uma das primeiras barreiras para o imigrante brasileiro é, sem dúvida, o idioma. Não adianta ter um diploma de pós-graduação se ele escorrega no inglês. O mercado aqui é extremamente competitivo", afirma Evans, que, radicada há 30 anos no Reino Unido, confessa ter trabalhado como arrumadeira de hotel e garçonete quando chegou ao país, apesar de ter sido formada em História pela Unicamp.

Segundo o levantamento, pouco mais da metade dos imigrantes brasileiros no Reino Unido exercia uma atividade remunerada durante o período de realização da pesquisa. Além disso, um quarto (22%) trabalhava e estudava. Uma minoria (14%) declarou não trabalhar e outro grupo minoritário dedicava-se integralmente aos estudos (12%). A maioria disse ter conseguido trabalho por meio de amigos e conhecidos (28,5%).

Ainda de acordo com a pesquisa, um quarto dos entrevistados exercia atividades relacionadas ao setor de negócios/administração, seguido por serviços ao consumidor (12,2%) e limpeza (11.9%).

Direito de imagem Arquivo pessoal
Image caption Professora de universidade britânica, Yara Evans conta ter trabalhado como arrumadeira e garçonete quando chegou ao Reino Unido, há 30 anos

Leia também: Suíça diz que sistema financeiro do país foi seriamente afetado por escândalo da Petrobras

O estudo também revelou que a maioria dos imigrantes brasileiros (68%) exercia atividade remunerada quando emigrou, enquanto cerca de um quarto apenas estudava (26%).

Segundo o relatório, a maior parte deles diz ter deixado o Brasil em busca de uma experiência de vida/cultural (34%), seguida por quem saiu do país para fazer um curso de idioma. Apenas 17% afirmaram ter emigrado para ganhar dinheiro e voltar para o Brasil.

Motivos semelhantes levaram esses imigrantes para o Reino Unido. Três quartos (73%) afirmaram ter escolhido o país como primeira opção ao emigrar. A grande maioria (69%) também afirmou não ter morado fora do Brasil anteriormente.

Quatro em cada dez entrevistados disse ter escolhido o Reino Unido por motivos relacionados à aventura/língua/cultura/qualidade de vida (39,3%). A segunda razão mais frequentemente citada foi acompanhar/unir-se à família (13,1%).

O estudo também confirma que a maior parte dos imigrantes (77%) já conhecia alguém no Reino Unido antes de optar pelo país como destino. Pouco mais de um terço (35%) declarou ser essa pessoa membro de sua família ou parente.

"Chamamos isso de imigração de cadeia, quando um imigrante vai puxando o outro. Trata-se de um fenômeno reconhecido nos processos migratórios. Em outras palavras, o imigrante 'paraquedas', aquele que vem sem conhecer ninguém, já não é um perfil tão comum quanto no passado", diz Evans, da Queen Mary.

Vida social e dificuldades

Segundo as autoras, o levantamento revela ainda que o imigrante brasileiro vem se enraizando mais, com maior integração à sociedade britânica.

Dos entrevistados, apenas um quarto faz remessas de dinheiro ao Brasil. Além disso, pouco mais de um terço afirmou ter intenção de voltar ao Brasil. A maior parcela se mostrou indecisa quanto aos planos de voltar ao país natal para se fixar permanentemente.

O estudo também mostrou que mais da metade dos filhos dos brasileiros que vivem no Reino Unido morava com os pais. Apenas uma pequena parcela residia no Brasil (entre 4% a 7%).

Direito de imagem Thinkstock
Image caption Integração do imigrante brasileiro à sociedade britânica vem aumentando

Leia também: Estatuto do Desarmamento em debate: O controle de armas pode salvar vidas?

Além disso, na maior parte dos casos, a proporção de entrevistados que declarou se relacionar com não-brasileiros ou participar de atividades não direcionadas a brasileiros é maior do que a dos que se relacionavam com brasileiros ou atividades dirigidas a estes. Quase a metade dos entrevistados não manifestou preferência.

E, apesar de mais da metade dizer estar casada com brasileiros (52%), um terço relatou serem seus cônjuges ou companheiros de origem britânica (31%).

"Tudo isso evidencia um processo de enraizamento maior na sociedade britânica", resume Evans.

Apesar disso, o custo de vida (50%) e a solidão (28%) foram apontados como as principais dificuldades do cotidiano. Língua (26%), moradia (25%) e integração à sociedade britânica (23%) também foram mencionadas.

"O imigrante brasileiro pode até querer voltar para o Brasil, mas na prática isso não está acontecendo. O noticiário negativo sobre o país também vem, em certa medida, postergando esses planos", conclui Souza, da Oxford Brookes.

Notícias relacionadas