Na reta final do 2º turno argentino, candidatos evitam 'extremos' e se copiam

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Image caption Daniel Scioli (à esq.) e Maurício Macri (à dir.) estão a menos de duas semanas do segundo turno

A menos de 10 dias do inédito segundo turno da eleição presidencial argentina, no próximo dia 22, os candidatos à sucessão de Cristina Kirchner adotaram como estratégia refutar os rótulos de esquerda e de direita e têm, cada vez mais, defendido posições convergentes.

Os presidenciáveis Daniel Scioli, da governista Frente para a Vitória (FPV), e Maurício Macri, da coalizão opositora Cambiemos (Mudemos), preferem outras definições. Integrante do movimento político peronismo, o primeiro costuma se definir como sendo "peronista" e de "centro". Já o segundo afirma que sua "ideologia é o desenvolvimento moderno do século 21".

Nos bastidores e diante das câmeras, ambos afirmam que a definição sobre "esquerda" e "direita" faz parte do passado. Porém, em meio à disputa acirrada, trocam farpas sobre a linha ideológica que corresponderia ao outro.

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Em entrevista a correspondentes estrangeiros em Buenos Aires na terça, Macri respondeu que o "século 21 requer uma nova forma de definição" ao ser questionado sobre ser "conservador" e de "direita".

A seu lado, o chefe da sua campanha, Marcos Peña, disse que "a agenda conservadora é a de Scioli, a nossa é a da transformação".

O presidenciável governista já tinha declarado, no dia seguinte ao resultado do primeiro turno, que seu adversário é o candidato do "mercado", indicando que, para ele, como interpretaram mais tarde seus assessores, Macri é "direita".

Pesquisas de opinião divulgadas no fim de semana indicaram que o oposicionista teria vantagem sobre Scioli e venceria o pleito. No entanto, cerca de 10% continuam indecisos, segundo a consultoria política Management y FIT.

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Image caption Se eleição fosse hoje, Maurício Macri venceria candidato de Cristina Kirchner, apontam pesquisas

Definição difícil

Na prática, as agendas de propostas e as atitudes dos dois dificultam uma definição ideológica rigorosa, como observou a analista Mariel Fornoni, da Management y FIT.

Segundo ela, desde a histórica crise vivida pelo país em 2001, os partidos políticos se fragmentaram, o que contribuiu para enfraquecer o debate sobre direita e esquerda na Argentina. "Não temos partidos com estruturas fortes", disse Fornoni.

Amigos de longa data, Scioli e Macri chegaram à política na idade adulta, sem terem participado de militância juvenil, como recordou o professor de ciências políticas da Universidade Torcuato di Tella e consultor político Sergio Berensztein. Para ele, Macri é "pragmático" e Scioli, "representante do governo".

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Em temas como liberação da maconha e legalização do aborto, os candidatos não parecem pensar muito diferente.

No caso do aborto, Macri disse ser "a favor da vida" e Scioli, segundo assessores, também. Na entrevista de terça-feira, quando questionado sobre a experiência uruguaia de liberação da maconha, o oposicionista disse estar "aberto" à discussão e que esperaria os resultados da medida implementada no país vizinho. Segundo assessores, Scioli seria contra a liberação total, mas poderia aceitar um debate sobre o assunto.

Sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo, ambos dizem que respeitarão a lei nacional - que regulamenta o casamento gay - em vigor desde 2010, uma das bandeiras do governo de Cristina.

"O primeiro casamento gay da Argentina ocorreu aqui em Buenos Aires", já disse Macri sobre o tema. Integrantes de seu partido, o PRO, incluindo sua candidata a vice, Gabriela Michetti, foram contra a lei.

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Image caption Em vários pontos, discurso de Scioli, escolhido por Cristina para sucedê-la, é similar ao de rival

'Mimetização'

Numa espécie de "mimetização" de algumas propostas dos candidatos, como escreveu um colunista do jornal La Nación, outras bandeiras que eram do kirchnerismo deixaram de ser rejeitadas pela campanha oposicionista – caso da estatização da petrolífera YPF e da companhia Aerolíneas Argentinas.

Além disso, Macri tem repetido que uma das principais medidas sociais implementadas pelo atual governo, a chamada Asignación Universal por Hijo (Ajuda Universal por Filho, em tradução livre) foi ideia de uma aliada política sua.

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No meio empresarial, segundo fontes do setor, enquanto áreas da indústria apoiam a Scioli, na agroindústria Macri é o preferido. "Neste caso não existe ideologia mesmo. É uma questão de realidade", disse um empresário do setor agroindustrial.

Segmentos da indústria entendem que o kirchnerismo "fortaleceu" o ramo, apesar dos problemas gerados como o acesso a peças importadas para a fabricação. Já no setor agroindustrial afirma-se que o aumento da carga tributária, entre outras medidas, acabou prejudicando a produção e a rentabilidade.

Entre os políticos que se declaram de esquerda, como o candidato presidencial derrotado no primeiro turno, Nicolas del Caño, Scioli e Macri são igualmente conservadores e não os representam. Eles têm defendido o voto em branco no dia 22.

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