Análise: Ataques em Paris vão impactar fronteiras e refugiados

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Image caption Para jornalista da BBC, atentados ameaçam princípio de livre trânsito de pessoas na União Europeia

A França deu início a três dias de luto nacional. O presidente francês, François Hollande, descreveu os ataques como "um ato de guerra contra a França".

Em tais momentos, a normalidade política é suspensa.

Apesar disso, o interlúdio não disfarça o fato de que os ataques a tiros e explosões vão ter consequências na política.

O presidente francês diz que os ataques foram "planejados fora da França".

'Uma nova dimensão'

Autoridades gregas afirmam que pelo menos um dos autores dos ataques teria atravessado a ilha de Leros com um grupo de 69 refugiados. O homem, aparentemente, se registrou e teve suas digitais colhidas na Grécia.

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É muito cedo para saber se o passaporte, registrado na Grécia e descoberto na cena de um dos locais dos ataques, corresponde ao documento de um dos atiradores.

Mas o Ministério do Interior da Sérvia diz que o detentor do passaporte sírio cruzou a Sérvia no dia 7 de outubro deste ano, onde buscou asilo.

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Image caption Ataques em Paris deixaram pelo menos 129 mortos

Se a conexão ficar estabelecida, a crise de refugiados ganhará uma nova dimensão.

E isso já pode ser observado na Polônia. O Ministro para Assuntos Europeus do páis, Konrad Szymanski, condicionou receber a entrada de refugiados a garantias de segurança.

"Vamos aceitar refugiados somente se tivermos garantias de segurança", disse ele.

A Polônia havia se comprometido a receber 4,5 mil refugiados. Agora pairam dúvidas se isso realmente vai acontecer.

Já outro ministro polonês pareceu desafiar a estratégia da Alemanha de acolher refugiados quando disse que "temos de estar cientes de que estávamos errados, muito ingênuos ou idealistas".

O presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, alertou neste domingo contra ceder ao que ele chamou de "reações primárias" à crise de refugiados.

Livre trânsito

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Image caption Atentados ocorreram em seis localidades distintas da capital francesa

Qualquer evidência de que as rotas de refugiados tenham sido usadas por terroristas colocará novos problemas para a chanceler alemã, Angela Merkel. Ela já assiste a uma queda em sua popularidade e está sob pressão para fechar as fronteiras da Alemanha, algo que, se materializado, representaria uma derrota política para ela.

Neste fim de semana, Merkel comparou a crise aos desafios da reunificação alemã. Mas unir a população alemã é muito diferente de que aceitar talvez milhões de refugiados de diferentes culturas.

Hans-Georg Maassen, diretor da BfV, a agência de inteligência doméstica alemã, disse: "Temos verificado que os extremistas estão abordando refugiados em centros de acolhimento. Temos conhecimento de pelo menos 100 casos."

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A curto prazo, Merkel tende a se manter firme, mostrando resistência a pressões que crescem em torno dela.

Ela também sabe que se a Alemanha fechar as fronteiras haverá um impacto em cadeia em vários países, do sul da Europa até os Balcãs.

Nessa hipótese, haveria uma nova onda de refugiados e tensões entre países poderiam crescer perigosamente. Assim, a chanceler alemã, por enquanto, tentará enfrentar uma crise sobre a qual, para muitos, ela já parece ter perdido o controle.

Controle das fronteiras

Outro impacto deve ocorrer no livre trânsito de pessoas garantido pelo acordo de Schengen.

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Image caption Vigílias foram realizadas em todo o mundo em homenagem aos mortos

E esse princípio, um dos pilares da União Europeia, já se encontra ameaçado.

"Não vamos nos enganar; o futuro do Schengen está ameaçado e o tempo está se esgotando...temos de voltar a ganhar controle das nossas fronteiras externas”, disse há alguns dias Dias atrás, o presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, disse que

Com os ataques em Paris, isso se tornou mais urgente. Especialmente depois que foi revelada uma suposta conexão de vários homens presos perto de Bruxelas, na Bélgica, com os atentados ocorridos na noite de sexta-feira.

Ainda não se sabe como atiradores e armas conseguiram atravessar as fronteiras e se, nesse caso, controles de fronteiras teriam feito alguma diferença.

Diversos países, incluindo a Alemanha, suspenderam o acordo de Schengen.

A França já introduziu controles de fronteiras temporários. A determinação para defender o princípio do livre trânsito de pessoas, previsto pelo acordo de Schengen, não deve ser subestimada, mas quanto mais países reimplementarem controles de fronteiras ou se fecharem, mais ameaçado estará o princípio de uma Europa aberta.

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'Assunto sensível'

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Image caption Ataques em Paris deixaram mais de 130 mortos e dezenas de feridos

Além disso, o autodenominado 'Estado Islâmico' mudou claramente sua estratégia.

O grupo extremista está preparado para realizar novos ataques contra qualquer país que se junte à coalizão militar contra ele. Por meio de suas ações sangrentas, quer minar a vontade da opinião pública europeia de usar a força na Síria.

Mas se o 'EI' pretende lançar mão de ações de maior dimensão dentro da Europa, então o controle das fronteiras se torna um assunto muito mais sensível.

Por último, os ataques em Paris vão alimentar a sensação de uma crise na Europa, de que as fronteiras não estão seguras em um momento em que o conflito no Oriente Médio bate à sua porta.

Angela Merkel está apostando em um acordo com a Turquia para aceitar mais refugiados. O objetivo é reduzir o êxodo daqueles que buscam uma nova vida na Europa e, talvez, interceptar terroristas.

E a Turquia ─ especialmente agora depois dos ataques ─ continua a ser um país central na solução dessa crise.

A Europa segue em busca de um acordo com Erdogan (president da Turquia) apesar de suas tendências autoritárias.

Os ataques aprofundaram a sensação de insegurança na Europa. No campo política, a extrema-direita tentará se aproveitar disso.

Entretanto, na França, depois dos atentados contra o semanário satírico Charlie Hebdo, a Frente Nacional, de Marine Le Pen, não colheu nenhum dividendo imediato, mas embora não necessariamente relacionados, os ataques em Paris tornaram a crise de refugiados mais complexa e, sobretudo, mais sensível de ser enfrentada.

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