Preocupação com terrorismo ofusca economia e clima em cúpula do G20

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Image caption Crise desencadeada por ataques em Paris foi o principal assunto do encontro do G20

Desencadeados na véspera do início da cúpula do G20, os atentados em Paris dominaram a edição 2015 do encontro das nações mais desenvolvidas e industrializadas do mundo, que terminou nesta segunda-feira em Antália, na costa mediterrânea da Turquia.

Pressionados a dar uma resposta dura aos ataques, os líderes enfatizaram o tema em discursos e em uma declaração final separada que prometeu – embora sem medidas concretas – uma nova era de cooperação na luta contra grupos extremistas de ação transnacional.

No entanto, enquanto a ameaça global do terrorismo entrou em foco, os compromissos para enfrentar os problemas da economia mundial e as mudanças climáticas ficaram aquém do esperado, segundo analistas.

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Não houve, por exemplo, novas metas e ações urgentes para endereçar ao que se configura como a "terceira fase" da crise econômica iniciada em 2007 nos Estados Unidos, ampliada à Zona do Euro desde 2010 e que agora atinge os chamados "mercados emergentes", como Brasil, Rússia e China.

O comunicado final de 2015 do G20 reconhece, sem citar os emergentes, que o crescimento econômico global é "desigual e abaixo das expectativas, apesar da perspectiva positiva em algumas economias maiores". Mas permanece com o plano de ação do encontro de 2014 na Austrália: elevar o PIB global em 2% até 2018 na comparação com um cenário sem as medidas.

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Image caption Não é difícil advinhar assunto tratado por Obama e Putin durante o encontro do G20, na Turquia

"O foco dos líderes nos ataques bárbaros de Paris foi compreensível e apropriado, mas os resultados econômicos da cúpula, que representam o trabalho de todo o último ano, só podem ser descritos como sem ambição e frustrantes", afirmou Thomas Bernes, do think tank canadense CIGI (Centro para Inovação da Governança Internacional, na sigla em inglês).

"Desde 2014 já houve uma queda de 2% no crescimento global, então será necessário um aumento adicional de 4% para alcançar o objetivo de Brisbane. O comunicado não reconhece isso e não propõe novas medidas."

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A nota do G20 afirma que metade dos compromissos de crescimento de longo prazo assumidos na Austrália foram renovados, mas esse ponto também entrou na berlinda. John Kirton, diretor do G20 Research Group da Universidade de Toronto, referência no acompanhamento das atividades do grupo, disse que não houve transparência no acompanhamento dessas metas.

"O comunicado diz que o G20 implementou metade das EAC (Estratégias Amplas de Crescimento). Provas, por favor?", escreveu Kirton em sua conta no Twitter.

Houve a percepção de que os líderes, embora tenham concordado nos desafios à frente, não avançaram em propostas para combater a incerteza e os riscos de queda que rondam a economia mundial.

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Image caption Após atentados em Paris, segurança foi reforçada para evento que reuniu líderes mundiais

A ameaça é real e vem na esteira do mau desempenho de gigantes emergentes como Brasil e Rússia – os únicos membros do G20 em recessão em 2015, e com retrações do PIB previstas em torno de 3% e 4%, respectivamente, típicas de países em guerra.

Há ainda preocupação com o freio do crescimento e a volatilidade do mercado financeiro na China – que entra em uma transição para um modelo mais focado no consumo interno, e menos no comércio exterior – e com o aumento da dívida no bloco dos emergentes, incluindo países como Turquia, Malásia e o próprio Brasil.

Preocupação para Paris

Outro ponto que desapontou analistas que acompanham o G20 de perto foi o dos compromissos em relação às mudanças climáticas. As expectativas eram altas para um possível comunicado ousado do grupo, o que seria um aceno importante para a COP-21, a Conferência do Clima que começa em duas semanas na capital francesa.

O tema foi o que mais tirou o sono dos diplomatas na cúpula do G20, todos em busca de consensos de linguagem que sugerissem a busca real por uma solução coletiva contra o aquecimento global.

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Se, por um lado, os líderes expressaram a determinação em buscar um acordo que tenha força de lei, não houve avanço sobre qual seria o instrumento apropriado para isso. E tampouco houve menção a um mecanismo que obrigasse os países a revisar periodicamente suas metas antes dos prazos finais, para eventualmente acelerar o ritmo das mudanças. Índia e Arábia Saudita teriam sido os países a barrar uma menção nesse sentido.

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Image caption Em duas semanas, uma Paris ainda sob luto sediará conferência global sobre clima

Para esses especialistas, ficou a sensação de que o G20 apenas "olhou para o retrovisor" ao repetir a meta amplamente conhecida de manter o aquecimento global abaixo de 2°C até 2100.

"O trecho sobre mudança climática no comunicado do G20 foi inútil ou pior do que inútil", criticou John Kirton. "A única coisa que os líderes do G20 tiveram para dizer sobre clima foi 'vejo você na próxima conferência do clima'", fez coro o diretor-adjunto de ativismo e campanhas da ONG Oxfam, Steve Price-Thomas.

Contudo, para a própria Oxfam, a reunião do G20 progrediu ao reconhecer que a desigualdade social é combustível para a instabilidade, puxa o crescimento para baixo e precisa ser enfrentada.

A ONG elogiou os compromissos do diretório da economia global em promover empregos de qualidade para setores em risco, como os jovens que não estudam e nem trabalham.

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Image caption Agenda de encontros bilaterais de Dilma Rousseff foi bastante escassa

Brasil tem participação tímida

Já o Brasil teve uma participação modesta no encontro, longe dos tempos de 2009, quando o país navegava sobre a onda da crise mundial e um Barack Obama então no primeiro ano de governo dizia que o presidente brasileiro à época, Luiz Inácio Lula da Silva, era "o cara".

Como o Itamaraty já esperava, não foi contemplada a demanda do país por uma menção, na declaração final, de uma condenação a eventuais aumentos de subsídios agrícolas diante da queda mundial dos preços das commodities – a União Europeia barrou a proposta desde o início, e o tema permanece uma preocupação no cenário brasileiro.

A agenda de encontros bilaterais paralelos à cúpula – que costuma ser um termômetro do prestígio dos mandatários – foi escassa para o país: a presidente Dilma Rousseff manteve encontros com o secretário-geral da ONU, Ban-ki Moon, e com o primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau.

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