'Flor espacial' ajudará telescópio a buscar vida em planetas distantes

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Image caption Exoplanetas podem reunir condições para a existência de vida

Quando olhamos para as estrelas cintilantes no céu, é fácil esquecer que aquelas luzes distantes são sóis. E, assim como a esfera incandescente que temos no centro de nosso sistema planetário, esses sóis também têm mundos orbitando a sua volta.

“Estimamos haver centenas de bilhões de planetas apenas em nossa galáxia, a Via Láctea”, diz a astrofísica Sara Seager.

Seager tem dedicado sua vida à procura por exoplanetas, mundos fora do Sistema Solar e muito distantes da Terra, que possam reunir condições para abrigar vida.

Mas... como saberemos? Não podemos simplesmente dar um zoom na superfície e olhar – a distância é simplesmente muito grande. E se uma espécie alienígena não for inteligente, ela certamente não estará enviando sinais.

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A astrofísica, porém, acredita ter uma maneira de localizar “assinaturas biológicas” em exoplanetas – e isso envolve uma espaçonave gigante em forma de flor capaz de bloquear a luz de uma estrela.

Batizada de "starshade" ("sombra estrelar", em tradução livre), essa espaçonave faria sombra para que um telescópio espacial pudesse observar os exoplanetas.

Sombra

Tal tecnologia seria um enorme passo na procura por “planetas gêmeos” da Terra, pois resolveria o problema de sóis brilhantes demais, que ofuscariam as observações. “Teríamos uma tela que permitiria que apenas a luz refletida pelo planeta entrasse no campo visual do telescópio”, explica Seager.

Com orçamento previsto em US$ 1 bilhão, a missão poderia estudar nada menos que 55 sistemas solares em apenas três anos. Seager, que chefia um comitê da Nasa, a agência espacial americana, acredita que pelo menos 22 deles possam ter “gêmeos”.

A grande vantagem da flor voadora é que os astrônomos não precisarão usar um telescópio extremamente sofisticado – e caro. Ao bloquear a luz de uma estrela antes que ela atinja o telescópio, a "starshade" faria boa parte do trabalho de visualização.

“Não vamos precisar de um telescópio que seja muito sensível ou mecanicamente estável. Na verdade você pode usar qualquer telescópio espacial mais velho. Podemos comprar um usado”, brinca Seagers.

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Image caption 'Flor espacial' terá desafio logístico de bloquear a luz de 55 sóis em missão de reconhecimento

Mas a história muda com a construção da flor gigante. A começar pela engenharia e pela logística. “A tela terá dezenas de metros de diâmetro, mas precisará voar a dezena de milhares de quilômetros do telescópio. É muito difícil.”

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Nem tão difícil, porém, quanto criar um telescópio capaz de compensar a interferência da luz dos sóis dos sistemas estudados, pondera a astrofísica.

Pesquisadores da Universidade Princeton e do Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa estão preparando modelos de "starshade" para serem testados.

“Precisamos descobrir como abrir a espaçonave no espaço para que todas as pétalas fiquem no lugar certo, com precisão milimétrica”, explica Jeremy Kasdin, um dos cientistas de Princeton.

Pelos planos de Seager, a "starshade" se posicionaria entre as estrelas e o telescópio. Ao bloquear diretamente a luz solar, a flor pode revelar exoplanetas que antes não poderiam ser vistos.

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Image caption Técnicas atuais não são sensíveis o suficiente para examinar atmosfera de exoplanetas

A espaçonave seria equipada com foguetes que ajudariam a manobrá-la para diferentes posições, de acordo com cada uma das 55 estrelas a serem visitadas. Isso exigiria combustível e uma precisão espetacular para evitar desperdícios que poderiam comprometer a missão.

No ano passado, a busca por exoplanetas teve um desfalque: a sonda Kepler sofreu uma falha crítica. Ela media o desvio na luz de estrelas para detectar se um planeta passava em frente a um sol.

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Programada para ser lançada no ano que vem, a missão Tess também usará o método de trânsito em busca de planetas, mas sem a mesma sensibilidade que a "starshade" teria.

“Esse método não tem precisão para analisar as atmosferas de planetas. Precisamos olhar para eles mais diretamente, pois alguns desses planetas são milhões de vezes menos brilhantes que suas estrelas”, explica Seager.

Se tudo der certo – em especial se alguém assinar o cheque na Nasa –, a missão sonhada pela astrofísica será lançada em 2022.

Leia a versão original desta reportagem (em inglês) no site da BBC Future

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