Delinquência veio antes de religião em trajetória de extremistas na França

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Image caption Nascido na Bélgica, mas com origem marroquina, Abaaoud é um dos jovens que vivia na Europa e resolveu se juntar ao Estado Islâmico

A delinquência – e não convicções religiosas – tem sido o ponto comum de partida de jovens europeus no caminho que leva ao extremismo. O perfil dos autores de atentados na França nos últimos anos se repete: passagens pela polícia, penas de prisão e radicalização.

Álcool, drogas, discotecas, rap, videogames e paqueras faziam parte da vida de muitos desses jovens europeus que nem sequer seguiam a religião ou sabiam falar árabe antes de se radicalizarem.

O belga de origem marroquina Abdelhamid Abaaoud, 28 anos, suspeito de ser o mentor dos atentados em Paris na sexta-feira, 13 de novembro, e morto na operação policial em Saint-Denis na quarta-feira, começou a ter problemas com a Justiça em 2002.

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Ele foi preso várias vezes entre 2006 e 2012, mas nunca cumpriu penas superiores a três meses, segundo uma nota dos serviços secretos belgas consultada pelo jornal Le Monde.

De acordo com seu pai, um pequeno comerciante de origem marroquina, a radicalização de Abaaoud teria começado após sua saída da penitenciária em 2012. No ano seguinte, segundo investigadores europeus, ele teria conseguido entrar na Síria para se juntar ao grupo autodenominado Estado Islâmico.

Na prisão em 2010, Abaaoud cumpriu pena por assalto à mão armada com o francês Salah Abdeslam, 26 anos, suspeito de ter participado dos ataques nos bares e restaurantes de Paris e que continua foragido.

O irmão de Salah, Brahim Abdeslam, 30, o homem-bomba que se explodiu na região dos bares perto do Stade de France, foi filmado pela TV belga há seis meses, ao ser preso em flagrante durante um assalto a um bar.

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Image caption Salah Abdeslam ainda é procurado pela polícia na Bélgica

Foi logo após esse crime que Brahim teria começado a mudar de comportamento, segundo relatos de amigos ao canal de TV France 2.

Os dois irmãos franceses de origem marroquina tinham um bar, o Les Béguines, no bairro de Molenbeek, em Bruxelas. A área é conhecida como reduto de islamistas radicais na Europa.

Autoridades belgas haviam decretado o fechamento do bar por cinco meses, após a polícia ter descoberto, em agosto, que no local havia consumo e venda de drogas. Em setembro, os irmãos venderam discretamente o Les Béguines.

No local, os clientes consumiam bebidas alcoólicas, fumavam e jogavam videogames, segundo relatos de amigos de Brahim e Salah à TV francesa.

Futebol e discoteca

Os irmãos Abdeslam, segundo amigos, gostavam, até pouco tempo, de futebol, discotecas e de paquerar.

"Eles começaram a rezar há três meses. E também pararam de fumar baseado e começaram a praticar artes marciais", contou um amigo em programas da France 2.

Outro amigo, que mora no mesmo prédio em Molenbeek onde os irmãos residiam, contou à France 2 ter ouvido uma estranha briga entre os dois irmãos na quinta-feira, véspera dos atentados em Paris.

"Pela janela, ouvi um deles gritando que só iria se rolasse grana. O outro dizia que ele tinha de ir de qualquer jeito. Mas a resposta era que se não tivesse dinheiro, ele não iria", disse o jovem, cujo rosto não foi mostrado.

Hasna Aït Boulahcen, 26 anos, prima de Abaaoud, também morta no cerco policial em Saint-Denis, vinha sendo investigada por suspeita de ligação com o tráfico de drogas.

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"Hasna não sabia nem dizer 'Bom dia' em árabe e achava o islã uma chatice", disse um amigo da jovem ao Le Monde, acrescentando que há alguns anos ela gostava de vodka e de ir a discotecas - e queria se alistar no Exército francês.

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Image caption 'Hasna não sabia nem dizer bom dia em árabe e achava o islã uma chatice', disse um amigo dela

Depois disso, ela se radicalizou e passou a usar o véu integral. Ela não teria ligação direta com os atentados e seu papel teria sido o de encontrar um esconderijo para Abaaoud, segundo os primeiros elementos das investigações.

Outros ataques

Autores de outros atentados na França, nascidos no país e com origem imigrante, também tinham ficha longa na polícia e se radicalizaram na prisão.

Entre eles estão Mohammed Merah, que matou militares e crianças em uma escola judaica em Toulouse, em 2012; Chérif Kouachi, que cometeu, com seu irmão Saïd, o atentado contra a revista satírica Charlie Hebdo, em janeiro, e Amedy Coulibaly, de origem malinesa, autor do ataque contra um supermercado judaico.

Outro elemento comum é o currículo profissional com "bicos" e empregos com baixa qualificação profissional. Chérif Kouachi, por exemplo, trabalhou como entregador de pizzas e vendedor em uma peixaria.

Para essas pessoas, tudo começou com o fracasso escolar, seguido do fracasso profissional e de poucas perspectivas em relação ao futuro.

"Há indivíduos que passam da delinquência à radicalização e, disso, à criminalidade terrorista", disse o presidente francês, François Hollande, em seu discurso no Congresso, após o ataque, no Castelo de Versalhes.

Guetos

Esses novos ataques relançam na França e também na Europa o debate sobre falhas na integração de cidadãos com origem imigrante e muçulmana.

"A partir dos anos 60, os imigrantes foram amontoados em periferias sem serviços. Isso acabou criando guetos e freou a integração", afirma o cientista político Stéphane Montclaire, da Universidade Sorbonne.

"O governo francês apostou que a inserção dos imigrantes ocorreria por meio da educação. Mas nessas áreas pobres, onde o desemprego cresceu e há muitos estrangeiros, os níveis escolares são muito baixos", diz Montclaire.

Nos anos 80, o governo criou, em áreas com problemas sociais, as chamadas "Zonas de Educação Prioritárias", que foram reformuladas e reforçadas neste ano para tentar limitar a menos de 10% a diferença entre os resultados escolares de alunos desse sistema e os demais no país.

Para o cientista político francês Olivier Roy, especialista em islã, muitos dos jovens que se radicalizam na Europa não falam árabe, e sabem pouco do islã praticado por seus pais ou da cultura muçulmana.

"Alguns não conseguem se moldar à sociedade ocidental onde vivem e inventam um islã que se opõe ao Ocidente", afirma Roy.

Roy, entretanto, vê avanços na integração da comunidade muçulmana na Europa graças ao surgimento de uma classe média de profissionais liberais e a realização de casamentos mistos. "As jovens que recusam a se casar com pretendentes impostos pelos pais são um sinal de integração", diz o especialista.

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Image caption De acordo com a lei do país, França não pode oferecer serviços públicos diferenciados para comunidade religiosa, nem financiar construção de mesquitas

Na França, diferentemente de outros países europeus, o modelo de integração multicultural - em que são aceitas e permitidas práticas e tradições religiosas e culturais que imigrantes trazem de seus países de origem - não é aplicado em razão da "lei da laicidade", de 1905, que prevê a separação entre o Estado e a Igreja.

Em razão da lei, o Estado francês não pode oferecer serviços públicos diferenciados para uma comunidade religiosa e nem financiar, por exemplo, a construção de mesquitas.

Foi com base nessa lei que foi aprovada, em 2004, a proibição do uso de símbolos religiosos nas escolas e também, em 2010, do uso do niqab, véu islâmico que deixa somente os olhos à mostra, ou ainda, desde 2011, rezas em grupo nas ruas.

Ao mesmo tempo, existem situações em que há um certo "afrouxamento" da lei da laicidade na França - algumas prefeituras ou subprefeituras permitem cardápios sem carne de porco em cantinas escolares ou salas para rezas oferecidos com aluguéis a preços abaixo do mercado.

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Falhas

Nenhum modelo é perfeito. Em países europeus onde o multiculturalismo foi adotado, o sistema também não funcionou.

A chanceler alemã, Angela Merkel, admitiu o "fracasso total" das políticas visando criar uma sociedade multicultural na Alemanha e passou a defender uma real integração, a começar pela língua.

Para o primeiro-ministro britânico, David Cameron, o multiculturalismo criou sociedades paralelas no país.

"O multiculturalismo só funciona quando não existe um grupo dominante", diz o professor Montclaire.

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Image caption Ataques a França causaram comoção - e tensão - na Europa

Os atentados em Paris também relançaram debates na Europa sobre a imigração em geral e a acolhida de refugiados. Partidos e governos contrários (ao acolhimento de refugiados) endureceram seus discursos.

Isso se deve em parte à notícia de que um dos homens-bombas do Stade de France teria entrado na Europa (pela ilha de Leros, na Grécia) como refugiado, usando um passaporte sírio falso. O nome no documento seria de um soldado de Bachar al-Assad morto há meses, segundo investigadores.

"O temor de que potenciais terroristas se misturem aos refugiados tornou-se, infelizmente, uma realidade concreta", disse a líder do partido de extrema-direita francês Front Nacional, Marine Le Pen.

"O Front National deve avançar na França após os atentados com suas análises simplistas", afirma Montclaire.

Países como a Polônia, Hungria e Eslováquia, que se recusam a receber refugiados, questionam a política europeia e pedem o reforço das fronteiras do continente.