Alckmin recua em fechamento de escolas em SP: para onde vai o movimento dos estudantes agora

  • 4 dezembro 2015

As faixas na entrada da escola anunciam a decisão dos estudantes do lado de dentro: "Ocupar e resistir".

Apesar de o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, ter anunciado a suspensão da reorganização das escolas estaduais – medida que incluía o fechamento de 93 delas -, os alunos responsáveis pelo movimento que ocupou quase 200 escolas no último mês decidiram, por enquanto, manter as ocupações e a mobilização nos próximos dias.

"Consideramos essa suspensão uma meia vitória. Mas vemos isso como uma manobra do governador. Não vamos recuar. Vamos manter as ocupações porque queremos a revogação total do decreto dessa reorganização", disse à BBC Brasil Othilia Balades, aluna do terceiro ano do ensino médio do colégio Fernão Dias, na zona oeste de São Paulo, um dos primeiros a serem ocupados pelos estudantes.

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Havia também uma comemoração em frente à escola nesta sexta-feira, mas era por outro motivo: os alunos que haviam sido presos nos protestos dos últimos dias foram liberados e estavam prestes a voltar para o prédio.

"ÔÔÔ, a liberdade voltou", cantavam os estudantes, fazendo questão de reforçarem logo em seguida para jornalistas que estavam por ali: "Não estamos comemorando a suspensão do plano pelo governador, estamos comemorando que os nossos amigos foram liberados."

Nesta sexta-feira, após uma semana intensa de protestos em todas as regiões da capital, Geraldo Alckmin convocou uma coletiva para anunciar a suspensão da reorganização das escolas. Ele defendeu o modelo proposto de reorganizar as escolas por ciclo, alegando que as unidades de ciclo único têm resultados melhores. Mas agregou que "o ano de 2016 será para será começaremos a aprofundarmos o diálogo".

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Image caption Alunos do Fernão Dias, em São Paulo, promete resistir na ocupação até que governo revogue decreto de reorganização das escolas

"Vamos dialogar escola por escola. Os alunos continuarão nas escolas em que já estudam e nós começaremos a aprofundar esse debate, escola por escola, especialmente com estudantes e pais de alunos."

No entanto, os estudantes disseram que que não aceitam debater a proposta em seu formato atual. "Essa reorganização é para corte de gastos. Ela propõe fechar as escolas e nós não vamos aceitar isso", disseram os alunos da ocupação E.E. Fernão Dias.

"A proposta que a gente aceitaria é, primeiro de tudo, não fechar as escolas. É melhorar ensino, valorizar professor, melhorar a infraestrutura. E nada disso se consegue fechando escolas", disseram alguns alunos. "Queremos mudança, mas mudança conjunta, com diálogo. Primeiro de tudo, ele (Alckmin) tem que falar com todo mundo, pais, professores e alunos."

Mudanças e reivindicações

Os próximos passos do movimento foram definidos em assembleias com representantes de várias escolas do movimento. A decisão inicial é de permanecer nas ocupações e manter a resistência: "A gente não quer suspensão da reorganização, a gente quer que ela seja extinta."

"Apesar do recuo do governo, não tivemos uma resposta concreta. Dito isso, nós estudantes secundaristas em luta exigimos uma oficialização da proposta do governo, deixando clara sua intenção", afirmaram os estudantes na noite desta sexta-feira.

Eles querem que o governo publique no Diário Oficial a revogação do decreto da reorganização e que dê garantias que não vai punir alunos que participaram das ocupações. Além disso, pedem um audiências públicas para debater o sistema de ensino e a punição dos policiais que reprimiram os manifestantes.

Apesar de serem cautelosos para comemorar o anúncio de Alckmin sobre a suspensão do plano do governo, os alunos não esconderam a alegria ao verem a notícia de que o secretário estadual de Educação, Herman Voorwald, havia deixado o cargo.

"A gente está conseguindo", diziam em meio a abraços e comemorações, para depois seguirem com os cantos: "Não tem arrego, você fecha minha escola e eu tiro seu sossego!"

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Image caption Alunos se abraçam para comemorar queda de Secretário da Educação

Com a suspensão da reorganização, o governo de São Paulo garantiu que nenhuma escola será fechada, mas ressaltou que ainda considera muito importante a separação dos alunos por idade.

"Essas escolas de ciclo único, que já são hoje 1.500, têm resultado melhor que o universo (da rede de ensino paulista), geralmente quase 15% acima da média. São mais focadas e não misturam crianças de 6 anos com aluno de 17 anos de idade", disse Alckmin. "Por isso (temos) convicção dos benefícios que a reorganização traz para a qualidade da escola pública de São Paulo."

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Para implementar esse novo sistema, Alckmin anunciou que irá conversar com as escolas ao longo do próximo ano. Se isso acontecer, ao menos no Fernão Dias, os alunos já têm uma lista de reivindicações para passar ao governador.

"Queremos mais cultura, mais saídas com a escola, aulas diferentes. Estudo aqui desde a oitava série (do fundamental) e fui usar o laboratório só no meu terceiro ano (do ensino médio). Tem uma sala só de vídeo, que é uma disputa para os professores conseguirem usar e passar uma coisa diferente", opinou Othilia.

"Queremos aulas de política, de feminismo, de movimento negro…", pediu Lucas dos Santos, outro estudante da Fernão Dias.

"O que vai diminuir as salas é construção de escolas, não é colocar aluno em outra escola. Salas ociosas que eles falam é as que têm 20 alunos, e isso seria o ideal."

Aprendizado

Durante a tarde desta sexta, muita gente que passava pela rua onde fica a Fernão Dias, parava em frente à escola para falar com os estudantes e demonstrar apoio. Outros levavam comida para os alunos e outros mantimentos. Segundo eles, isso tem acontecido todos os dias. "Temos tido bastante apoio dos moradores da região".

Agora, após 26 dias de ocupação, os alunos do colégio já planejam dias diferentes em 2016.

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Image caption Moradores dos entornos dão apoio à ocupação levando comidas e mantimentos

"Vai ser bem diferente. A partir de agora, a gente vai perguntar por que temos que sentar e ver uma aula maçante por 50 minutos. Nós vamos questionar, porque não está bom assim", disse uma das alunas.

"A primeira coisa que a gente vai exigir é liberdade de expressão. O aluno não tem voz, não tem diálogo na escola. Elas (escolas) impõem um medo nos alunos, dão suspensão para quem não concorda com o sistema", afirmou outro.

Mais do que isso, eles contam terem aprendido um "senso de comunidade" que não tinham antes desses 20 e poucos dias de convivência no colégio. Desde o primeiro dia, os alunos se dividiram em comissões – de comida, de limpeza, etc – e garantem que "todo mundo colabora".

"Aprendemos a nos ajudar, a viver em comunidade, dividir as tarefas, cumprir as responsabilidades", contou Othilia em meio ao "mutirão da limpeza" que começou a acontecer justamente na tarde desta sexta-feira. "A gente passou a semana nos atos, ficamos fora e não deu tempo de limpar. Hoje estamos dando uma geral."