Eleição na França pós-ataques: a Frente Nacional mudou de cara?

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Image caption Partido pode ter vitória inédita

O partido de extrema-direita francês Frente Nacional está atraindo um novo tipo de eleitor.

E eles podem fazer a diferença nas eleições regionais deste domingo, as primeiras após os ataques que deixaram 130 mortos em Paris.

Os atentados, de autoria do grupo autodenominado Estado Islâmico, impulsionaram a popularidade da Frente Nacional, que tem uma plataforma anti-imigração, anti-União Europeia e anti-islâmica.

O partido tem chances reais de vencer em algumas regiões pela primeira vez - hoje, eles não governam nenhuma. A votação ocorre em dois turnos, neste domingo e no próximo.

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Milhares de militantes do partido se reuniram na semana passada em um centro de conferência na cidade de Toulon, na Riviera Francesa.

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Image caption Marion Marechal-Le Pen: "Não somos uma nação islâmica"

Eles balançavam suas bandeiras tricolores enquanto esperam a principal atração da noite: a aparição de Marion Marechal-Le Pen, a neta de 25 anos do fundador do partido.

Eles vaiaram quando imagens dos políticos tradicionais da França foram exibidas em um telão.

Este é um partido diferente do que Jean Marie Le Pen, um antigo soldado paraquedista, fundou em 1972.

Na reunião, não havia skinheads. Tampouco havia muitos rostos não brancos. Mas, com certeza, não era uma reunião de neonazistas.

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"Eu era o tipo de pessoa que nunca pensaria em aderir", disse Philippe Lansade, empresário de cerca de 40 anos que se filiou à Frente Nacional no dia seguinte aos ataques de Paris.

"Morei na Inglaterra e nos Estados Unidos. Não entendo como você pode falar do Tea Party americano ou o UKIP no Reino Unido como política tradicional, mas aqui perguntam se nós somos fascistas", diz.

"Terrível lição"

Jean Marie Le Pen já chamou o Holocausto de "detalhe da história". Mas comentários como este, percebidos como antissemitas, são altamente desencorajados no partido atualmente.

Image caption Pesquisas indicam que popularidade do partido aumentou entre 4 e 7 pontos percentuais após ataques

A retórica anti-islâmica, porém, é lugar comum entre os militantes.

"Sabemos o que somos", disse Marion Marechal-Le Pen em seu discurso.

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"E sabemos o que não somos. Nós não somos uma nação islâmica."

Ela falou sobre a "terrível lição" dos ataques de 13 de novembro.

"A lição é que o islã radical se estabeleceu em certas partes do país devido à imigração em massa. Isso criou pessoas francesas que pegam em armas contra o país que as recebeu. Então precisamos repensar a política global, em termos de controle de fronteiras, aquisição de nacionalidade e restringir os fluxos de imigração se não quisermos que as coisas piorem."

Uma pesquisa de opinião feita recentemente mostrou que a popularidade da Frente Nacional cresceu entre 4 e 7 pontos percentuais desde os ataques de Paris.

A líder do partido, Marine Le Pen (filha de Jean Marie e tia de Marion) pode vencer na região do norte de Nord-Pas-De-Calais-Picardie, uma das 13 que irá às urnas em dois turnos, neste domingo e no próximo.

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Image caption Vitória pode impulsionar candidatura do partido à Presidência em 2017

Marion Marechal-Le Pen pode ganhar na região sulista de Provence-Alpes-Cote d'Azur.

Seria a primeira vez que a Frente Nacional ganharia em qualquer das regiões francesas.

Essas chamadas "super-regiões", geograficamente falando, não são poderosas politicamente.

Mas uma ou duas vitórias poderiam ser um impulso moral para a campanha à Presidência de Marine Le Pen em 2017.

Pesquisas atuais mostram que ela poderia ganhar a maior parte dos votos no primeiro turno em 2017 - mas poucos acreditam que ela venceria no segundo.