Os chavistas que podem ajudar a eleger a oposição na Venezuela neste domingo

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Image caption Pela primeira vez em mais de uma década, Chavismo pode sofrer derrota eleitoral

"Votei em Chávez, não em vocês, que são uns corruptos e não servem para nada".

A autora da frase é Yuraima Rondon, uma mulher que ficou famosa depois de ser filmada exibindo sua tatuagem do ex-presidente da Venezuela, Hugo Chávez, pelo político Henrique Capriles, durante a campanha para as eleições parlamentares de domingo.

Fazendo um gesto obsceno com seu dedo médio, a mulher continua: "Estou cansada de apenas se importarem conosco quando precisam de nosso voto". Capriles aproveita para narrar a cena e dizer que "mesmo as pessoas que acreditaram no projeto do governo podem mudar".

Mas vão realmente mudar?

Crise

Essa é a pergunta que apenas as urnas podem responder. Desde 1999, quando Chávez foi eleito, os chavistas têm vencido as eleições. Mas há dúvidas se o regime poderá contar com o apoio do eleitorado agora que a Venezuela passa por uma das piores crises de sua história.

Nos últimos dois anos, a inflação disparou, houve queda nos investimentos públicos e o país enfrenta uma escassez de produtos. Tudo agravado pela queda de mais de 60% no preço do petróleo, o principal motor da economia venezuelana.

O governo, sobretudo o presidente Nicolas Maduro, culpa a oposição e o setor privado.

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Image caption Crise econômica é uma das críticas que afastam chavistas do governo

Mesmo assim, pesquisas preveem a primeira vitória da oposição desde a eleição de Chávez, em 1999.

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O aposentado Gilberto Quintero, de 76 anos, votou em Chávez no passado, mas promete agora endossar a oposição.

"Esse governo prometeu acabar com a corrupção, mas o que fez foi legalizá-la. Estamos ganhando dinheiro mas não podemos comprar nada. As geladeiras estão vazias, assim como as panelas".

Já o funcionário público venezuelano Guillermo Pérez diz que pretende anular o voto. Ex-militante chavista, ele afirma que há muito tempo não se sente representado pelo governo. Seu desencantamento se deve principalmente à falta de respostas do presidente Maduro à crise.

“É difícil para alguém que tem um pouco de noções de economia acreditar que a crise é resultado de uma conspiração contra o governo”, diz Pérez.

Ele também critica a repressão à manifestações contra o governo no ano passado. Organizações não governamentais afirmam que mais de 150 pessoas, entre elas estudantes, foram vítimas de abusos graves e acusam Maduro de ter utilizado força excessiva e detenções arbitrárias para dispersar os manifestantes.

“Uma das coisas criticadas por Chávez nos governos anteriores a ele era a forma como os estudantes e movimentos sociais eram tratados. Agora estão fazendo igual”, diz.

Segurança

O professor de sociologia da Universidade Central Julio de Freitas concorda com esta crítica. Ele era próximo do chavismo, chegando a ocupar um cargo de confiança no governo, mas diz que não vai votar no partido de Maduro.

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Image caption Insegurança afeta classe média e setores populares, diz professor

Ele aponta a dificuldade do chavismo de dar respostas ao problema de segurança pública como outra das causas do afastamento dos eleitores. “A violência afeta todo mundo, não somente a classe média, mas sobretudo os setores mais populares”, afirma.

A Venezuela é o segundo país mais violento do mundo, com uma taxa estimada de 62 assassinatos para cada 100 mil habitantes, no ano passado, segundo o Ministério Público venezuelano - cifra superada apenas por Honduras.

Além das diferenças sociais, a falta de independência do Judiciário, abusos cometidos pela polícia e as péssimas condições das prisões são apontados por ONGs como responsáveis pelos alarmantes índices.

Disputas internas

A falta de confiança no governo é perceptível também no interior da militância chavista. A principal crítica é que Maduro não foi capaz de continuar o projeto idealizado por Chávez, do socialismo bolivariano, e pela grande distância que se formou entre a base, representada por movimentos sociais, e a cúpula do partido.

“Muitos companheiros sentiram que o PSUV não estava sendo o partido da revolução como tinha sido anunciado desde seu início”, diz Douglas Aponte, militante do Redes, que surgiu, segundo ele, para conter as disputas internas do partido do governo e o descontentamento dos militantes.

Image caption Douglas Aponte, militante do Redes: 'Não existem candidatos fora do chavismo'

Mas na prática, o Redes e outros pequenos partidos que agrupam os descontentes se posicionam do lado chavista, fazendo parte de um acordo nacional chamado Aliança Perfeita, que reúne os partidos de esquerda. “Não existem candidatos fora do chavismo”, afirma Aponte.

Mas ele admite que foram cometidos erros econômicos e políticos e que existe um desgaste. “Estamos lutando contra nós mesmos também, não somente contra a oposição”, reconhece.

Mas para o deputado governista Juan Contreras, os problemas não irão retirar votos do chavismo.

"Temos um povo que disse 'basta', que fez andar um processo revolucionário e não vai deixar que esse processo saia de suas mãos, porque obteve conquistas políticas e sociais em um país em que ninguém jamais se responsabilizou por ninguém", diz à BBC Mundo.

"Essa maioria tem problemas pontuais, mas vai votar por Chávez", afirma o político, sentado em seu escritório decorado com pôsteres do ex-presidente, morto por um câncer em 2013.

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Image caption Eleições podem dar à oposição controle do legislativo, mas há grande número de indecisos

Hugo Chávez chegou ao poder em 2002 e naquele mesmo ano seus adversários políticos tentaram dar um golpe de estado. Quatro anos mais tarde, formou-se uma frente de partidos para fazer oposição mais legítima, mas o então presidente e seus partidários seguiram vencendo. Porém, o Chavismo agora enfrenta o perigoso adversário sob a forma da crise econômica.

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"A guerra econômica da direita pode ter afetado nossas vidas, mas o povo tem consciência de quem elevou sua qualidade de vida foi a revolução. Por isso, vão votar por Chavez", acrescenta Contreras.

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Image caption Políticos de oposição, como Ramos Allup, ainda não conseguiram conquistar de vez o eleitorado

Porém, pesquisas de opinião mostram que a população culpa o governo Maduro pelos problemas econômicos. E, pela primeira vez em 17 anos, a oposição chega como favorita para uma eleição e pode assumir o controle do Legislativo e tornar a vida de Maduro bem mais difícil.

Há, porém, o temor de fraudes, sobretudo depois de o governo venezuelano recusar um pedido da Organização dos Estados Americanos (OEA) para o envio de observadores.

Mas especialistas afirmam que uma eventual vitória será causada muito mais por demérito do governo que mérito da oposição.

"O divórcio do povo com o chavismo ainda não está concluído, porque muitos ainda acreditam que as conquistas alcançadas com Chávez são ainda menos menos possíveis de serem recuperadas com a oposição no poder", explica Juan Manuel Trak, cientista política da Universidade Católica Andrés Bello (UCAB).

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"E a oposição não conseguiu articular um discurso que gere muito mais esperança", completa.

Luiz Vicente León, presidente do instituto de pesquisas Datanalisis, culpa divisões internas na oposição pelo que chama de falha no envio de uma mensagem concreta.

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Image caption Morto em 2013, o ex-presidente ainda tem índice de aprovação de 58%

Segundo o Datanalisis, há uma imensa parcela de indecisos entre os chavistas, o que indica mais abstenção do que migração de votos para a oposição. Mas para o ex-chavista Ronald Denis, que foi vice-ministro do Planejamento no governo Chávez em 2003, não há dúvida que muitos venezuelanos farão "votos de protesto".

"O chavismo tem 20% de militância, e o resto é algo sentimentalista e clientelista. A maioria desses 80% vai castigar (o movimento) nas urnas".

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