'Temer governaria com todo mundo, como Itamar', diz Pedro Simon

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Image caption Após redemocratização, Simon foi senador por três mandatos consecutivos, entre 1991 e 2015

Para o ex-senador e líder histórico do PMDB Pedro Simon, de 85 anos, um eventual governo do hoje vice-presidente Michel Temer seria uma "reedição" da gestão Itamar Franco (1992 – 1995).

"No seu governo, Itamar não teve uma crise, um escândalo de corrupção. Ele lançou o real, fez o Brasil mudar", opina.

Itamar era vice-presidente no governo Fernando Collor (PRN) e assumiu o poder após um processo de impeachment. "(Temer) iria governar com todo mundo, teria o mesmo estilo e a mesma forma (de Itamar)", defende Simon, que foi senador pelo PMDB por 24 anos e apoiou a ex-senadora Marina Silva nas duas últimas eleições presidenciais.

O ex-senador nega, porém, que Temer seja "oportunista" e que o PMDB esteja se preparando para assumir o poder diante da perspectiva da abertura de um processo de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff.

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Na segunda-feira, após Dilma fazer declarações cobrando fidelidade de Temer, o vice-presidente lhe enviou uma carta reclamando que foi menosprezado em seu governo e que ele e o PMDB nunca receberam sua confiança. Temer também se queixou sobre a exclusão de nomes ligados a ele de cargos importantes.

"(Temer) se sentiu constrangido e deu uma resposta. Só exagerou um pouco no teor dessa resposta na minha opinião", diz Simon, para quem a carta não representa um "rompimento" com o governo. Abaixo confira alguns trechos da entrevista concedida pelo peemedebista à BBC Brasil:

BBC Brasil - A carta de Temer representa um rompimento com o governo?

Pedro Simon - A carta não é um rompimento. Tem um estilo forte porque a maneira pela qual a Dilma provocou o assunto foi sem grandeza, como se ela estivesse dando uma ordem, constrangendo o vice-presidente. Ele se sentiu constrangido e deu uma resposta. Só exagerou um pouco no teor dessa resposta na minha opinião. Podia ter sido ser mais ameno. Mas tudo que disse é verdade, não inventou nada. Aproveitou o momento e fez essa análise completa (da participação do PMDB no governo).

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BBC Brasil – O vice-presidente e o PMDB não podem passar por oportunistas?

Simon - Alguém de fato pode achar que o PMDB está sendo oportunista, mas o partido está fazendo o que tinha de fazer, precisava responder.

O que o Temer disse (na carta) é que agiu o tempo todo ao lado do governo, ajudou, colaborou, mas nunca foi chamado para decidir. Não teve nenhuma decisão importante na qual o PMDB esteve presente.

É claro que o momento em que o Temer está fazendo essas críticas faz com que fique em uma posição delicada. Meio que dá margem para essas acusações de que ele está se colocando à disposição, que está esperando para subir (para a presidência). Mas não foi oportunismo.

Image caption Itamar Franco assumiu a Presidência após impeachment de Collor

BBC Brasil - O timing foi errado?

Simon - O momento quem definiu foi a presidente Dilma, ao fazer as declarações cobrando (fidelidade de) Temer. Ele teve de responder.

BBC Brasil - O PMDB está se preparando para assumir o governo?

Simon - Que eu saiba não. O que fez foi publicar uma ideia (o documento "Uma Ponte Para o Futuro") assim como a Dilma tinha feito, o PT fez. Fez uma proposta de entendimento nacional.

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BBC Brasil - Como seria um eventual governo Temer?

Simon - Lá atrás, quando (a crise) começou a pegar ritmo, eu insisti para a presidente Dilma que ela tinha de estabelecer um grande entendimento nacional, um governo de reconciliação, fazer o que o Itamar Franco fez após o impeachment do Fernando Collor.

No seu governo, Itamar não teve uma crise, um escândalo de corrupção. Ele lançou o real, fez o Brasil mudar.

O governo Temer seria a reprodução do governo Itamar. Ele iria governar com todo mundo, teria o mesmo estilo e a mesma forma.

O PMDB não poderia governar sozinho. Teria de ser um governo de entendimento – com todos, oposição e governo, inclusive com o PT, apesar de que com o PT pode ser difícil.

Quando o Itamar assumiu o PT não quis participar. Votou contra o Plano Real, inclusive. Mas, justiça seja feita, também não criou grandes problemas.

Na época, o PT achava que o governo ia desandar, ia pro beleléu, mas errou feio. Fernando Henrique Cardoso participou, foi ministro e ganhou com isso.

No atual momento, se o PT quiser fazer oposição vai ser ainda mais complicado depois desse governo desastroso. Não sei que tipo de oposição poderá fazer.

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Image caption PMDB está dividido quanto a impeachment e pode decidir futuro do processo

BBC Brasil - Hoje é possível um governo de entendimento com Dilma?

Simon - Sempre achei que esse governo de entendimento poderia ser feito com Dilma. Hoje, já não sei. O PT está sendo tão radical, não sei se a liberaria para fazer isso.

E o que a Dilma está fazendo? Voltou ao troca-troca, ao toma lá da cá para conseguir votos (no Congresso).

BBC Brasil - Como o PMDB controlaria as contas públicas? Alguns economistas defendem que seriam necessárias "medidas impopulares" (como aumentos de impostos e cortes de gastos).

Simon - Se for um governo de entendimento em que todos estiverem participando há condições para se aprovar essas medidas impopulares, porque todos vão estar de acordo.

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BBC Brasil – O senhor é a favor do cancelamento do recesso parlamentar para que o impeachment seja votado rapidamente? Parte do PMDB é contra.

Simon - Acho que não dá para deixar (o processo) esfriar, mas também não dá para votar tudo correndo, só para deixar tudo como está. Você precisa saber o que está votando. (O ideal é) nem tão correndo que pareça que estamos medo, nem tão devagar que pareça provocação.

O bom seria em março começarmos o ano com um governo constituído. Com uma certeza (sobre quem estará no Executivo).

BBC Brasil - O senhor é contra ou a favor do processo de impeachment?

Simon - O governo vive uma situação muito grave em função dos grandes escândalos de corrupção: o mensalão e, agora, a Lava Jato. Agora, esse pedido de impeachment está baseado na decisão do Tribunal de Contas da União (TCU), que rejeitou as contas da presidente (de 2014).

O TCU é um órgão auxiliar do Congresso Nacional. Sua decisão não é definitiva – pode ser aprovada ou rejeitada pelo Congresso. Além disso, é frequente que os técnicos do TCU recomendem a rejeição das contas de um governo. O que acontece é que (os ministros do) TCU, (agindo) politicamente, no geral aceitam essas críticas, mas em vez de rejeitarem (as contas definitivamente) votam por sua aprovação "com restrições". Sempre foi assim. E, em parte por isso, essa decisão não mobiliza o povo como a questão da corrupção.

Essas investigações (sobre corrupção) se aproximam cada vez mais do (ex-presidente) Lula e da Dilma e acho que é isso que, em algum momento, poderia levar ao impeachment. Isso seria uma votação muito mais segura. Mobilizaria mais a opinião pública. Hoje a rejeição ao governo Dilma é de 70%, 80%. O povo é imensamente favorável (ao impeachment). Mas a questão das contas é (vista como) menor, mais tímida.

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Image caption Eduardo Cunha aceitou na semana passada pedido de impeachment contra Dilma Rousseff

BBC Brasil - Mas o senhor é a favor ou contra esse processo nas atuais condições?

Simon - Sou a favor que se faça uma análise com profundidade (dos fatos que poderiam justificar uma saída de Dilma) no momento exato. E não algo correndo, justificando (o processo) de qualquer maneira.

Acho que nessas condições (um impeachment) não seria o ideal. Deveriam pressionar mais para uma saída com base nesses casos de corrupção revelados pela Lava Jato.

BBC Brasil – Mas até agora não há indícios que impliquem diretamente a presidente (nesses escândalos).

Simon - Nesse longo período em que esses fatos (esquemas de corrupção) ocorreram na Petrobras Dilma foi ministra de Minas e Energia, que tem responsabilidade pela estatal, presidente do conselho da empresa, como chefe da Casa Civil, e presidente da República.

BBC Brasil - A abertura do processo de impeachment foi uma vingança de Eduardo Cunha?

Simon - Quem abriu o processo foi um fundador do PT (o jurista Hélio Bicudo, ele diz que não fundou o PT, apenas foi filiado). O Cunha pode estar movimentando (o processo) como uma forma de autodefesa, digamos, mas isso não tira seu valor.