Os cinco principais desafios do governo Macri na Argentina

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Image caption Maurício Macri é o primeiro presidente argentino sem sobrenome Kirchner desde 2003

Ao tomar posse como presidente da Argentina nesta quinta-feira, Maurício Macri assumiu uma série de desafios políticos, econômicos, sociais e internacionais, apontam analistas ouvidos pela BBC Brasil.

"O principal deles é gerar confiança entre os argentinos e no exterior para que suas medidas tenham credibilidade e respaldo", diz a analista política Mariel Fornoni, da consultoria Management y Fit, que faz pesquisas de opinião no país. Pablo Knopoff, da Isonomía, ressalta a missão de fazer com as iniciativas do novo governo se tornem um "consenso" entre a população.

Macri foi eleito com diferença inferior a 3% sobre o candidato de Cristina Kirchner, Daniel Scioli. A presidente deixa o governo com índice de aprovação que varia entre 25% e 35%, de acordo com pesquisas. E buscará ser opositora atuante, embora pairem dúvidas sobre essa liderança após a vitória – mesmo apertada – do opositor.

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Para economistas, a herança do kirchnerismo (2003-2015) é motivo de alerta. "A Argentina tem problemas como a inflação, cujo dado oficial é questionado, o controle cambial e a limitação de reservas no Banco Central", afirma o economista Dante Sica, da consultoria Abeceb.

Segundo o especialista, Macri se beneficia da vontade dos argentinos, que votaram por "mudanças". E, apesar dos desafios, o país "tem uma nova oportunidade de voltar a ser respeitado pelos governos, organismos e investidores internacionais".

O novo presidente precisará buscar apoio de outros setores do empresariado, e não apenas do agroindustrial, que respaldou sua eleição, avalia Raul Ochoa, economista da Universidade Tres de Febrero. Muitos empresários locais, afirma, "ganharam muito dinheiro com a economia fechada, e é hora de abrir este mercado”.

Confira, a seguir, cinco dos principais desafios da gestão Macri.

1. Controle cambial

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Image caption Cristina e Nestor Kirchner governaram a Argentina por 12 anos

A medida foi implementada em 2011, diante da fuga de capitais. Hoje, os argentinos convivem com pelo menos três tipos de câmbio – o oficial, o paralelo (chamado de "blue") e aquele usado em transações financeiras por meio da Bolsa.

Poupar em dólares para se defender da inflação e pensar na moeda americana na hora da compra e venda de imóveis são, por exemplo, hábitos tradicionais na Argentina.

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O novo ministro da Fazenda e Finanças, Alfonso Prat-Gay, disse durante a campanha presidencial que o controle cambial terminaria no dia seguinte à posse de Macri.

No entanto, ele passou a declarar nos últimos dias que o fim da medida só ocorrerá quando o Banco Central tiver mais reservas.

Oficialmente, elas estão em cerca de US$ 25 bilhões, mas estariam comprometidas com pagamentos, segundo economistas.

2. Congresso Nacional

Base política de Cristina Kirchner, a Frente para a Vitória (FPV) tem maioria no Senado e mais votos que Macri na Câmara, explica a analista Mariel Fornoni.

"Mas é preciso ver como os peronistas agirão a partir de agora, já que muitos deles atribuem a derrota nas urnas à Cristina. Alguns deles podem chegar a apoiar medidas de Macri."

Os peronistas são definidos como a força política mais arraigada e adaptável aos tempos políticos no país. Mas geralmente se unem na oposição quando um não peronista – caso de Macri – está na Presidência.

Diante da "mágoa" com Cristina, no entanto, ainda não está claro o que ocorrerá, dizem os especialistas.

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Image caption Argentinos hoje convivem com três tipos de câmbio simultâneos

Nestor e Cristina Kirchner tiveram maioria no Congresso Nacional nos 12 anos de seu governo.

A gestão costumava aprovar seus projetos sem dificuldades, levando opositores a chamarem o Legislativo de "escribanía" (cartório, em espanhol).

Sem maioria, Macri deverá "aprender a negociar", observa o analista Rosendo Fraga, do Centro de Estudos Nova Maioria.

3. FMI, inflação e dívida

Especialistas do setor financeiro afirmam que o governo Macri deveria receber uma missão técnica do Fundo Monetário Internacional (FMI) para que seja verificada a fórmula de cálculo da inflação do país.

"Por ser integrante do Fundo, a Argentina já deveria ter permitido essa verificação e ter um dado estatístico confiável. Ou não conseguirá atrair investidores", diz o economista Orlando Ferreres, da consultoria Ferreres e Associados.

Macri nomeou um economista crítico do cálculo inflacionário do kirchnerismo para o INDEC, o IBGE argentino.

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Ferreres assinala que o novo presidente precisará encarar outro problema: "Chegar a um entendimento com aqueles que não aceitaram o pagamento da dívida argentina, que entrou em calote em 2001".

Trata-se de um percentual residual, mas que, segundo especialistas, deixou tecnicamente a Argentina no "default" (calote, em inglês) pela segunda vez desde aquele ano.

"E, para voltar a ter acesso ao crédito internacional, o governo Macri deverá resolver esse problema”, lembram assessores do novo ministro da Fazenda.

4. Cristina Kirchner na oposição

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Image caption Cristina Kirchner indica que fará oposição a Macri

A ex-presidente já indicou, em diferentes discursos, que pretende atuar na oposição ao governo Macri, com quem já mantém uma relação tensa.

Numa carta publicada nas redes sociais, Cristina disse que o sucessor teria gritado com ela ao telefone, enquanto eles definiam detalhes de cerimonial da posse desta quinta.

Assessores da presidente anunciaram depois que ela não compareceria à cerimônia.

"A derrota do candidato do governo à Presidência não foi perdoada por muitos peronistas, e será difícil que ela consiga ser líder da oposição sem esse apoio", afirma Fornoni.

Interlocutores de Cristina sugerem que ela pode se candidatar às eleições legislativas, daqui a dois anos, ou à próxima disputa presidencial.

Em seu último discurso à frente do país, na noite de quarta, disse para uma multidão de apoiadores que a Argentina "está muito melhor agora do que em 2003", quando o kirchnerismo chegou à Presidência.

"Quando Nestor assumiu, ninguém tinha nem um níquel no bolso. O país está muito melhor agora", disse.

5. Política externa

A ministra das Relações Exteriores do governo Macri, Susana Malcorra, disse em diferentes entrevistas que a pasta não pode ter "ideologias".

Analistas interpretaram essa afirmação como uma alfinetada à política externa de Cristina, criticada por eles pelas relações difíceis com vários países, incluindo os da região e os Estados Unidos, e por se aproximar da Venezuela.

Interlocutores do governo brasileiro dizem que a relação pode ser "mais fluida", em termos comerciais, com Macri.

"Existe mais disposição para detalhar e enfrentar os problemas de forma conjunta", afirmam, sob a condição de anonimato.

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