Tim Vickery: As lições de carioquês que os livros não ensinam

Direito de imagem Eduardo Martino

Desconfio que o leitor já tenha percebido, mas eu nunca estudei a língua portuguesa de uma maneira formal.

Peguei as primeiras noções com amigos brasileiros em Londres, todos abençoados com a paciência dos santos. Depois disso, fui parar nas ruas do Rio de Janeiro e era o caso de se virar, meu irmão.

Aprender assim, organicamente, tem os seus prós e contras. Já vi muitos estrangeiros mais letrados na língua em apuros – por exemplo, folheando desesperadamente as páginas “p” no dicionário na busca de “peraí” – uma das expressões mais necessárias em qualquer contexto carioca.

Nunca passei por isso. Por outro lado, até hoje tenho que pensar com cuidado (e, quando estou ao vivo na televisão brasileira, com um certo pânico) em como formar uma frase que drible qualquer necessidade de pousar num maldito subjuntivo.

Tem outras armadilhas do idioma.

Uma vez, recém-chegado ao Rio, estava perdido em Copacabana. Decidi tirar a minha dúvida numa banca de jornal. Mas, antes de expressar um tímido “por favor, onde fica….?”, já me senti expulso por uma negativa bem redonda.

O jornaleiro cumpria todos os estereótipos de um português de uma certa idade – barrigudo, mal-vestido, cinco dias sem fazer a barba. Mirando do canto do olho enquanto coçava lá embaixo, emitiu duas palavras como se cada uma provocasse uma dor intensa.

“Pois não.” Nem percebi o ponto de interrogação no seu tom de voz. Só a negativa: Não. Ele estava me mandando embora.

Claro, eu não gostei do atendimento, mas me retirei levando um certo respeito pela astúcia dele. Ele já sabia que eu não ia comprar nada. Que sujeito esperto! Obviamente não dá para acreditar em tudo que se fala por aí dos portugas.

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Direito de imagem Tomaz Silva Ag Brasil
Image caption Foi num ônibus do Rio que Tim Vickery teve uma 'aula de carioquice' no idioma

Uma outra experiência nos meus primeiros meses no Rio mostra a dificuldade de lidar com sotaques. O carioca tem fama de puxar bem o “s”. Verdade, mas tem muitas vezes em que ele nem se dá ao trabalho de pronunciar a coisa. Isso foi uma outra lição que tive de aprender desde cedo.

Cheguei ao Rio logo depois do Plano Real (que quase me levou à falência, mas isso é outra historia). Na época, a tarifa de ônibus era de somente 35 centavos (difícil acreditar hoje em dia, eu sei). Para alegria da nação, o plano conseguiu vencer a hiperinflação. Ainda assim, os preços logo começaram a subir de uma maneira mais suave, e um belo dia o ônibus aumentou para 45 centavos.

Eu não sabia. Subi, entreguei os meus preciosos 35 centavos, mas para a minha surpresa fui barrado na catraca.

O trocador era um senhor de idade, careca, o típico pequeno magro que é sempre mais forte do que aparece. Ele pegou uma moeda e a bateu com raiva contra o balcão. “Ma dé!” gritava, “ma dé!”

Ma dé? Que diabos era isso? Duas palavras tão curtas, e eu sem entender bulhufas de nenhuma delas. A salvação veio quando vi um anúncio da nova tarifa. Juntei as peças. Mais dez! Paguei com grande prazer. Foi um aumento muito pequeno em comparação com a aula de carioquês que acabara de ganhar. Não era me’mo?

*Tim Vickery é colunista da BBC Brasil e formado em História e Política pela Universidade de Warwick