A ilha indonésia que prosperou com a descoberta de um tesouro sob a terra

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A BBC Brasil estreia nesta segunda-feira uma nova série em vídeo, sobre como a vida dos moradores em seis ilhas remotas tem sido transformada por mudanças econômicas, sociais e populacionais.

A sobrevivência de Buru, uma remota ilha tropical no arquipélago indonésio, sempre veio da terra: fazendas de eucalipto ou arrozais.

Mas, há quatro anos, tudo mudou. Diz a lenda local que uma mulher sonhou que havia algo precioso escondido nas montanhas da ilha. Ela, então, começou a desbravar a natureza e encontrou o que buscava: ouro.

A história se espalhou e milhares de pessoas de todo o país se mudaram para o monte Botak, atraídos pela chance de uma nova vida. A região transformou-se numa grande área de mineração.

Empresas de China e Coreia do Sul instalaram fundições por lá. Profissionais de todas as áreas se tornaram mineradores - até mesmo professores. A corrida ao ouro foi tão grande que houve falta de profissionais em escolas.

Todos encontraram o que procuravam. Muitos se tornaram ricos, construíram casas melhores e compraram motos - algo que, até então, era artigo de luxo.

Mas, o fluxo de mineradores profissionais de outras partes da Indonésia tornou o trabalho difícil para inexperientes.

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Image caption Campos de escavação se espalharam por Buru
Image caption Localização de Buru e grande arquipélago dificultam que governo central controle região

Professores logo voltaram às escolas. Outros moradores sem o conhecimento adequado se tornaram operários em vez de empresários. Trabalhavam 12 horas por dia para alguém, em minas sem luz operadas por recém-chegados. Tudo sem regulação.

Mas eram estes recém-chegados que faziam mais dinheiro. Muitos moradores ficaram indignados e, assim, os níveis de criminalidade subiram.

Antes disso, o histórico da ilha já era violento. Nos anos 1960 e 1970, o governo prendeu cerca de 12 mil pessoas como parte de uma repressão contra supostos comunistas.

O último grande episódio de violência havia sido no início dos anos 2000, quando muçulmanos e cristãos se enfrentaram. Desde então, a situação havia se estabilizado na ilha.

Corrida pelo ouro

Mas a corrida pelo ouro acabou com a tranquilidade da ilha. Disputas sobre quem deveria escavar por ali levaram a confrontos violentos.

Para tentar retomar a paz, em novembro de 2014, o governo local pediu pelo fim da escavação na mina ilegal do monte Botak. Mas foi ignorado.

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Image caption Operários passam até 12h por dia em minas subterrâneas sem iluminação
Image caption Buru viveu uma corrida em busca do ouro e profissionais mais experientes passaram a dominar a exploração

A localização de Buru - a 2.260km da capital, Jacarta, e entre 17 mil outras ilhas - significa que é difícil para o governo central controlar a região.

Há também outros riscos: ao procurar por ouro, interessados escavam pedras ou a terra onde acreditam haver metal precioso. Depois, as esmagam junto com água.

Mercúrio é usado no processo - e a sobra do produto é uma das maiores frontes de poluição do mundo. É altamente venenoso e pode bloquear veias e danificar o cérebro, rins e pulmões.

A água contaminada atinge rios e penetra o solo. A cadeia alimentar é toda atingida - peixes, frangos e vacas podem ser envenenados.

Autoridades locais não regulam ou monitoram o uso de mercúrio e outras substâncias envolvidas em extração de ouro - mas a maior parte do mercúrio que entra na Indonésia chega por vias ilegais.

Mas nem isso parece impedir a corrida pelo ouro de Buru.