Tim Vickery: As 'mazelas' do Rio, no espírito de 'Seinfeld' e Festivus

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Um dos grandes personagens na história da comédia é George Constanza da série Seinfeld. Covarde, mesquinho e infalivelmente egoísta, George é hilariamente deplorável.

Os seus muitos defeitos se explicam em grande parte depois que conhecemos seu pai, Frank - um mandão, ignorante e brigão.

O senhor Constanza pai não celebra Natal. Seria fácil demais. Em vez disso, ele inventou a sua própria comemoração, o Festivus.

Cheio de rituais bizarros, um dos pontos altos do Festivus é quando Frank chama seus parentes para informá-los exatamente como, durante o percurso do ano, eles o deixaram decepcionado e furioso.

Como diria a Simone, "Então é Festivus". No verdadeiro espírito de festa de Frank (e, à maneira de Seinfeld, ou seja, de um jeito que absolutamente não deveria ser levado a sério), vou relatar algumas mazelas do Rio de Janeiro que me aborreceram neste ano.

A popularidade dos chinelos e da camisetas regata:

Cada vez que alguém fala que sou mais carioca do que inglês, fico pensando nesses dois crimes contra a elegância citados acima, cometidos por tanta gente por essas bandas.

Sei que o clima é quente, reconheço que o conforto tem o seu valor, mas não serve de desculpa por andar tão largado.

Andar sem camisa nenhuma fica muito mais estiloso. Confesso, meritíssimo, que às vezes boto uma camiseta regata só para vestir no elevador, ou para passear rapidinho com o cachorro. Mas sempre me sinto um lixo.

Chinelo, nem pensar!

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Image caption Popularidade das regatas incomoda colunista: 'Clima quente não serve de desculpa para andar tão largado'

Oi?

No Rio, não se comunica bem. Pode ser que se trumbica no barulho generalizado, mas acredito que tem mais a ver com uma falta de atenção.

O pessoal fica com preguiça de ouvir direito. Fico uma fera quando tem uma conversa perto de mim que não está fluindo por esse motivo.

"Blá-blá-blá", fala a primeira pessoa. "Oi?", responde a segunda. Então, tenho que aturar o "blá-blá-blá" de novo. Uma vez, se bem me lembro, num café, fui forçado a fazer uma intervenção.

Quando a conversa foi interrompida assim em três ocasiões, me vi gritando, "Pelo amor de Deus, chegue ao fim antes de todos nós morrermos!" Felizmente, ninguém respondeu com "oi?".

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Deixar a cadeira na janela vazia no transporte público:

Há um delito contra a cidadania que talvez seja mais perdoável no ônibus do que no metrô, por motivos de segurança.

Mesmo assim, numa condução cheia, é preciso uma mentalidade muito pequena para se sentar na cadeira da ponta e deixar a cadeira da janela vazia.

A eliminação desse hábito não solucionaria todos os problemas do transporte público na cidade, mas seria um bom começo.

Má conduta na fila do supermercado:

Há dois costumes aqui que, na minha humilde opinião, precisam ser repensados.

Um é esse modismo de pagar com cartão. Desculpe, mas sou da velha guarda em relação a isso. Passa a grana, e passa logo! Na teoria, e só na teoria, o cartão ajuda.

Na prática, a velhinha esqueceu a senha, o sistema está fora de ar e, com pressa, eu vou perdendo a cabeça. Isso é o que é, de modo risível, chamado de "progresso".

Pior ainda são aqueles (normalmente parecem donas de casa da classe média) que vão para o caixa rápido – dez itens ou menos – com o carrinho cheio. Em geral, sou contra a agressividade como forma de punição, mas nesses casos…

'Ele é assim mesmo'

Um aspecto da vida local que ainda não consigo entender. Um sujeito se comporta de maneira rude ou antissocial. Aí alguém reclama, e às vezes ouve a resposta: "Ele é assim mesmo".

Nas entrelinhas, o pensamento é o seguinte; se isso fosse um caso isolado, aí o cara deve ser advertido. Mas se é normal, se ele age dessa maneira com frequência, então ele conquistou um direito adquirido. Ele é assim mesmo, e vamos ter que tolerá-lo.

E depois de chiar tanto (mas sempre com um grande sorriso), nem eu me aguento mais. Chega de reclamações – e bom Festivus!

*Tim Vickery é colunista da BBC Brasil e formado em História e Política pela Universidade de Warwick