Alta demanda faz mordomos britânicos ganharem até R$ 48 mil por mês

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Image caption Escolas britânicas formam centenas de novos mordomos por ano; metade se emprega no exterior

A figura do mordomo há muito tempo virou algo mais comum nas obras de ficção do que na vida real. Séries de época, como a produção britânica Downton Abbey, nos dão uma ideia da vida desses profissionais domésticos em outros tempos.

Mas, em em pleno século 21, a profissão ainda vive. Uma prova disso são as escolas de formação de mordomos que funcionam em Londres e que têm cada vez mais demanda.

O British Butler Institute, por exemplo, forma de 350 a 400 mordomos por ano. Segundo seu diretor, Gary Williams, metade dos graduados permanece em empregos na Grã-Bretanha. O restante vai para o exterior, principalmente para trabalhar na China, onde há uma elite emergente, e nos países petroleiros do Golfo Pérsico.

De acordo com Sara Vestin Rahmani, diretora da British Butler Academy, cerca de 30% desses empregadores estão nos Emirados Árabes Unidos, no Catar e na Arábia Saudita.

“Os clientes são uma mistura de famílias reais, xeques e donos de petroleiras – cada um com uma média de três casas e 15 funcionários para cada uma”, conta Rahmani, cuja escola também oferece cursos no exterior.

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O poder dos ‘supermordomos’

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Image caption A série britânica 'Downton Abbey' parece ter aumentado a popularidade da figura do mordomo

Na Grã-Bretanha, os salários variam de 40 mil a 50 mil libras (R$ 233 mil a 292 mil na cotação atual) por ano, segundo Willliams. Já no Golfo Pérsico, um mordomo ganha, em média, 65 mil libras (quase R$ 380 mil) por ano, sem precisar pagar impostos e com bônus “quase certos”.

Esses valores, no entanto, disparam quando se trata dos “supermordomos”, aqueles que podem se vangloriar de ter trabalhado em hotéis de luxo, para algum membro da realeza ou para alguns dos patrões mais endinheirados do mundo. Seus salários podem, facilmente, superar as 100 mil libras por ano (ou R$ 583 mil, equivalente a R$ 48 mil por mês).

Em 2014, Rahmani conseguiu emprego para 30 “supermordomos” nos países do Golfo, todos recebendo em torno da cifra acima. Em 2015, sua escola enviou o dobro desses profissionais de destaque para o exterior – um sinal de como a figura do mordomo está cada vez mais em demanda.

John Deery é um desses “supermordomos”. Ele tem pouco mais de 40 anos e nasceu na Irlanda do Norte. Entre suas funções estão a de planejar e servir refeições ou atuar como manobrista de carros.

Mas Deery também é responsável organizar as viagens de seu patrão - um empresário - e ainda gerenciar três de suas casas. Uma fica nos Bálcãs e emprega 34 funcionários, outra está em Londres e conta com 12 empregados, e uma terceira está em reformas.

“Nessa profissão, você precisa saber quando é hora de ficar em segundo plano, sem se intrometer, respeitando o ritmo do patrão e dando espaço para que ele esteja confortável o tempo todo. Também é preciso garantir que a casa funcione como um relógio”, explica Deery.

“Você precisa estar sempre alerta, sempre dedicado. E você tem que abrir mão de ter uma vida pessoal. Mas eu adoro o que faço.”

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Tradição britânica

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Image caption Treinamento inclui de primeiros-socorros a cursos de arranjos florais

Para os milionários no Oriente Médio, da Ásia ou da Rússia, um dos atrativos dos mordomos britânicos é o fato de eles conhecerem muito bem as nuances da tradição britânica de servir.

Mas o estereótipo do mordomo como um senhor idoso que se dedicou àquele emprego por toda a vida já não se sustenta. Hoje, um mordomo novato na profissão tem, em média, 41 anos. E, segundo Rahmani, 40% dos formandos de sua escola são mulheres. Muitas atuam como damas-de-companhia ou secretárias para outras mulheres no Golfo Pérsico).

Muitos mordomos também têm um histórico de mudança de profissão. Deery, por exemplo, era designer gráfico. Outros serviram como militares. Também há um bom número de profissionais que eram atores, o que não surpreende se pensarmos no elemento performático que o papel exige.

Com o aumento da demanda por mordomos no exterior, a indústria de formação desses profissionais está prosperando na Grã-Bretanha.

Em 2010, foi criado o City & Guilds Butlers Diploma, um curso que cobre vários aspectos do trabalho: de lições sobre resposta a incêndios e primeiros-socorros a como cuidar de peças de couro, lã e madeira. Isso sem falar nas aulas de preparo e serviço de refeições, conhecimentos sobre vinho, costura, etiqueta e administração doméstica.

Segundo Patricia Paskins, uma das criadoras do curso, o diploma foi criado porque o hotel Savoy e a família real britânica estavam treinando seus funcionários no mais alto padrão de exigência. “Como eles não tinham uma qualificação reconhecida no fim do curso, nos pediram um diploma.”

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Aviões e faculdades

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Image caption Idade média dos formandos é de 41 anos, e muitos são mulheres

Atualmente Paskins está fazendo o treinamento de mordomos para a Etihad Airways, de Abu Dhabi, que pretende usá-los para servir as suítes privativas dos aviões Airbus A380.

Outros surpreendentes empregadores de mordomos são as mais tradicionais universidades britânicas.

Richard Hein é o mordomo-chefe da Peterhouse, o mais antigo “college” de Cambridge. Desde sua fundação, em 1344, a instituição conta com mordomos.

Hoje, os funcionários contam com a ajuda da tecnologia para executarem melhor suas tarefas. “Temos um grupo no WhatsApp e usamos para cobrir os turnos, para treinamento, para compartilhar fotos de algo interessante que tenha a ver com o trabalho”, explica Hein, no cargo há cinco anos.

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Leia a versão original dessa reportagem (em inglês) no site BBC Capital.