A cidade italiana que floresceu com 'segredo' do chocolate asteca

Antica Dolceria Bonajuto Direito de imagem Antica Dolceria Bonajuto
Image caption Processo de moagem segue o descoberto pelos colonizadores espanhóis do Século 16

Em um dia quente de maio, abri a porta de um pequeno café na Sicília e encontrei uma solitária senhora idosa sentada no escuro. Sem perceber que o café estava fechado, contei a ela – em um italiano “macarrônico” - que buscava um tipo especial de chocolate, único à ilha italiana.

Surpresa e feliz por ver um turista em uma época não tão popular, ela se levantou e puxou uma cortina que revelou uma parede com prateleiras reunindo dúzias e dúzias de barras de chocolate em quase todos os sabores que se pudessem imaginar.

Por anos, viajantes têm sido atraídos pela historia siciliana, seus vulcões e a notória culinária, mas por alguma razão seus chocolates ainda são pouco conhecidos. Isso mesmo depois de a Unesco (braço cultural da ONU) ter tombado a cidade de Modica e sua tradição na produção de chocolates inspirada nas antigas tradições astecas.

Moagem

Durante a administração espanhola, no século 16, conquistadores foram ao México e trouxeram de volta cacau e receitas para o que os astecas chamavam de xocatl, uma pasta resultante da moagem das sementes da fruta, usando uma pedra conhecida como metate.

Ao contrário do produto que hoje conhecemos como algo açucarado e cremoso, o chocolate original era amargo e usado para enriquecer molhos para carnes, ser pulverizado sobre saladas mesmo comido como petisco.

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Se preparado com algumas especiarias, era considerado um afrodisíaco.

Em Modica, gerações de famílias têm seguido a mesma receita há séculos, usando metates feitas de lava petrificada do vulcão Etna. O modo de preparo inclui açúcar, mas de forma que ele não derrete e dá ao chocolate uma textura mais crocante que o normal. A partir daí, os sicilianos incorporariam sabores apreciados na ilha, como óleo de limão ou pistache. Hoje, os sabores estão mais adaptados a gostos mais modernos, como o sal marinho.

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Image caption Em Modica, canela, pimenta e caramelo habitam os chocolates

Depois da conversa com a mulher no café, continuei minha jornada até o coração da indústria chocolateira da Sicília. Modica estava a apenas uma hora de carro e eu me sentia pronto para descobrir as mais populares lojas de chocolate da cidade. Quando cheguei a Modica, meus olhos se encantaram com as igrejas barrocas, piazzas e pequenas vielas. Meu nariz, por sua vez, não conseguiu escapar dos aromas de cacau e especiarias.

A primeira loja que encontrei foi a Antica Dolceria Bonajuto, fundada na década de 1880 e ainda administrada pela família original. Enquanto o resto da Europa começou a desenvolver o gosto pelo chocolate ao leite no século 19, a família Bonajuto continuou se atendo às tradições astecas. Na loja, prateleiras estavam repletas de amostras combinadas com chilli, canela, limão, baunilha e caramelo.

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Na mesma rua está a Antica Dolceria Rizza, aberta em 1935 e que fez fama com iguarias como o chocolate sabor gengibre. O Café del’Arte oferece chocolate quente e frutas cobertas com chocolate. Os comerciantes em Modica levam a sério a preservação e a celebração das tradições chocolateiras. Mesmo quando a maior parte da cidade foi destruída em um terremoto, em 1693, a indústria sobreviveu.

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Image caption A cidade tem pouco mais de 50 mil habitantes

Em 2013, o Consórcio para a Proteção do Chocolate de Modica publicou receitas datadas de 1740. Anualmente, sempre em dezembro, a cidade é palco de um festival que celebra a tradição doceira e arquitetura barroca da cidade, o ChocoModica.

Modica conta até com um Museu do Chocolate, localizado no Palácio da Cultura. No interior, tudo é feito de chocolate, incluindo a decoração. A cidade agora também ficou conhecida na Europa por ser o local das filmagens da série policial de TV Inspetor Montalbano, da BBC, o que deverá trazer uma nova leva de turistas e potenciais novos descobridores dos segredos do chocolate de Modica.

No entanto, mesmo a divulgação das receitas não “massificou” o chocolate de Modica para fora da Itália. Uma desculpa perfeita para mais e mais visitas à Sicília.

Leia a versão original dessa reportagem (em inglês) no site BBC Travel

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