Protesto não cria condição para governo de oposição que acalme país, diz historiador

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Image caption Protesto teve 500 mil pessoas em São Paulo, segundo Datafolha

Para o historiador e cientista político Luiz Felipe de Alencastro, as manifestações contra o governo Dilma Rousseff ocorridas no domingo foram "muito importantes", mas não criaram condições para a formação de um governo "que acalme o país".

"Os manifestantes não estão a favor de liderança de oposição nenhuma. Não há condições de se formar um governo consensual, que acalme um país, quando este governo cair", afirma Alencastro, professor emérito da Universidade de Paris Sorbonne e professor da FGV-SP.

O protesto realizado em São Paulo teve a presença de 500 mil pessoas de acordo com o Instituto Datafolha – superou o das Diretas Já e foi o ato político mais numeroso desde que o instituto iniciou a medição. Segundo a Polícia Militar, também houve público recorde em outras cidades.

Mas, apesar de os principais alvos da manifestação serem Dilma e o PT, nome da oposição como o senador Aécio Neves e o governo de São Paulo, Geraldo Alckmin, ambos do PSDB, foram hostilizados por manifestantes na avenida Paulista. O mesmo aconteceu com a ex-prefeita de São Paulo Marta Suplicy (PMDB).

Para Alencastro, a situação atual é diferente da que havia em 1992, quando o então presidente Fernando Collor de Mello sofreu um impeachment.

"O day after (dia seguinte) do Collor estava preparadíssimo antes de o processo de impeachment começar", diz. "Itamar já tinha formado um governo de coalizão."

Atualmente, para Alencastro, o quadro é outro. Ele diz que, se o processo de impeachment de Dilma avançar, ele seria organizado "por uma pessoa que pode estar a caminho da cadeia, que é o Eduardo Cunha (presidente da Câmara dos Deputados)". Se forem realizadas novas eleições, a oposição entraria dividida, diz ele. E, se o processo de impeachment demorar, o novo presidente teria que ser eleito indiretamente por um Congresso desacreditado.

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Image caption 'Não há condições de se formar um governo consensual, que acalme um país, quando este governo cair', afirma Alencastro

A outra solução aventada e em debate no Senado, um regime semipresidencialista, também "empodera um Congresso que não tem a menor condição moral e política de dirigir o país", afirma o estudioso.

"É uma situação que cria um entrave grande para a derrubada do governo. Ruim com ele, pior sem ele", diz ele, que classifica o governo de "incompetente e acuado".

O cientista político diz que o juiz da Lava Jato, Sérgio Moro, ovacionado nas manifestações de domingo, ganhou popularidade por "estar fazendo uma coisa inédita no país, que é prender gente poderosa" – o que poderia, no futuro, hipoteticamente cacifá-lo para uma vida política.

Mas, opina Alencastro, "o que a experiência da (Presidência de) Dilma mostra é que é desastroso ter gente sem experiência política no governo".

Outro nome citado entre uma parte dos manifestantes, o deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ) – que foi ovacionado em Brasília com uma manifestação já esvaziada –, para Alencastro, tem um "discurso político inaceitável".

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Image caption Aécio e Alckmin foram hostilizados na avenida Paulista

Eleições municipais

Alencastro considera que o divisor de águas nesta crise não serão as manifestações, mas sim as eleições de outubro.

Ele afirma que a eleição municipal vai refazer o mapa político-partidário do país e pode, por isso, reorganizar o jogo de forças. Isso ocorre sobretudo agora, com a proibição do financiamento privado de campanhas.

"Os candidatos precisarão se basear na militância e no prestígio que têm ou que não têm. O PT tem diretórios em 4.300 municípios dos 5.500 do Brasil. É o que tem mais. Talvez estejam todos acuados assim como o governo, mas vamos ver o que acontece."

Em São Paulo, afirma, a eleição será a "mãe de todas as batalhas".

Se o atual prefeito Fernando Haddad (PT) ganhar, "fica um embrião de renovação do PT". Se perder, "o PT rola ladeira abaixo, aí acaba".

Se o PSDB ganhar, opina Alencastro, o partido vai se dividir.

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Image caption Para especialista, eleições municipais irão ser definidoras

"O Alckmin está empurrando o (João) Dória como candidato, e o Serra está empurrando o (Andrea) Matarazzo. É uma primária presidencial: quem conseguir emplacar seu candidato (à prefeitura) no PSDB evidentemente sairá forte para ser candidato a presidente", afirma.

Outra hipótese que pode embaralhar o jogo, para ele, seria a nomeação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para um ministério.

"É uma incógnita, uma hipótese que eu acho complicada", opina. "Mas o Lula ainda tem 20% do eleitorado que votaria nele e é considerado melhor presidente da história por 36% dos eleitores, levando pancada cotidiana da imprensa há vários anos."

Segundo ele, não há nenhum jornal ou canal de TV no Brasil que apoie o governo, algo que não acontece em outras democracias.

"A própria divisão entre 'gente de bem' e 'matilha de petistas' feita pelo editorial do (jornal) O Estado de S. Paulo no domingo mostra isso. Você tira a dimensão humana do adversário. É uma coisa muito grave", conclui.