Moro divulga conversa entre Lula e Dilma: Manifestantes antigoverno tomam ruas de capitais

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Image caption Protesto em frente ao Palácio do Planalto pedindo o impeachment de Dilma Rousseff

Em meio à revelação de gravações realizadas pela Polícia Federal mostrando conversas do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, inclusive com sua sucessora Dilma Rousseff, centenas de manifestantes protestaram na noite desta quarta em frente ao Palácio do Planalto, sede do governo federal, na avenida Paulista, em São Paulo, e em outras cidades brasileiras, como Rio e Belo Horizonte.

O juiz Sergio Moro, responsável pelas investigações da Lava Jato na 1ª instância, retirou o sigilo sobre os dados colhidos na 24ª etapa da operação, tornando públicos áudios que, segundo os investigadores, sugerem que o líder petista foi nomeado ministro da Casa Civil para evitar ser alvo de ações da Justiça do Paraná.

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Aos gritos de "Renuncia, renuncia", manifestantes já protestavam em frente ao Planalto contra o anúncio da nomeação do presidente quando a imprensa passou a divulgar as conversas, interceptadas pela PF com autorização de Moro.

Um grupo chegou a fazer uma queima de fogos de artifício no local, enquanto um carro de som chegou para reproduzir o áudio para os participantes do áudio. Ativistas pró-impeachment, como Kim Kataguiri, do Movimento Brasil Livre, diziam ao microfone que "o governo já caiu". A polícia chegou a estimar em 2 mil pessoas os participantes.

Mais tarde, o protesto se deslocou do Planalto à frente do Congresso, onde houve um princípio de confusão entre alguns manifestantes e seguranças, que dispararam bombas de efeito moral.

As manifestações começaram a se dissipar no final da noite.

Image caption Em São Paulo, grupo tomou a avenida Paulista após a divulgação dos áudios

No telefonema entre Lula e Dilma, a presidente diz que enviará a ele o “termo de posse” e recomenda que o petista o utilize “em caso de necessidade”.

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Confira o áudio e a transcrição da ligação entre Lula e Dilma:

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  • Dilma: Alô
  • Lula: Alô
  • Dilma: Lula, deixa eu te falar uma coisa
  • Lula: Fala, querida. Ahn
  • Dilma: Seguinte, eu tô mandando o 'Messias' junto com o papel pra gente ter ele, e só usa em caso de necessidade, que é o termo de posse, tá?!
  • Lula: Uhum. Tá bom, tá bom
  • Dilma: Só isso, você espera aí que ele tá indo aí
  • Lula: Tá bom, eu tô aqui, fico aguardando
  • Dilma: Tá?!
  • Lula: Tá bom
  • Dilma: Tchau
  • Lula: Tchau, querida

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Em nota, o Palácio do Planalto afirma repudiar com veemência a divulgação da conversa e ver nela "afronta direitos e garantias da Presidência da República."

Segundo o governo, "uma vez que o novo ministro, Luiz Inácio Lula da Silva, não sabia ainda se compareceria à cerimônia de posse coletiva, a Presidenta da República encaminhou para sua assinatura o devido termo de posse. Este só seria utilizado caso confirmada a ausência do ministro".

Ainda de acordo com a nota emitida pela assessoria de Dilma, o governo irá à Justiça contra Moro: "Todas as medidas judiciais e administrativas cabíveis serão adotadas para a reparação da flagrante violação da lei e da Constituição da República, cometida pelo juiz autor do vazamento".

Pelo Twitter, o presidente do PT, Rui Falcão, afirmou que "a história do grampo e o vazamento do grampo comprovam que há a criação de um estado de exceção dentro do estado de direito. A conversa que vazou só mostra que a Dilma queria que o Lula assine o termo de posse. O resto é ilação".

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Image caption Multidão se reuniu na avenida Paulista para pedir renúncia de Dilma

Mais gravações

Em outras conversas interceptadas, com diferentes interlocutores, entre eles o então ministro Jaques Wagner, Lula fala em procurar ministros do STF, como Rosa Weber e Ricardo Lewandowski. Na interpretação dos investigadores, a intenção era interferir nas apurações e em decisões ligadas à Lava Jato. No despacho, Moro diz que as tentativas foram em vão.

Após a divulgação dos áudios, manifestantes tomaram duas pistas da avenida Paulista, uma das principais artérias de São Paulo. Também aos gritos de "Renuncia, renuncia" e "Vem pra rua", os participantes pediram a saída da petista. Alguns deles batem panelas, e alguns carros passam buzinando em sinal de apoio.

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Imagens divulgadas pela imprensa mostraram um casal de jovens sendo agredido pelos manifestantes após tentar interferir no protesto. Segundo vídeo divulgado pela rádio CBN, a garota tentou defender Lula.

Na PUC, também em São Paulo, um grupo de ativistas realizou um protesto a favor da manutenção do mandato da presidente.

No plenário da Câmara, deputados da oposição gritaram “renuncia, Dilma” após a publicação do áudio de conversa entre Dilma Rousseff e Lula.

Reações

Principal porta-voz da oposição, o senador Aécio Neves (PSDB-MG), afirmou que é preciso tirar Dilma do cargo.

"É a falência definitiva de um governo que ultrapassou todos os limites éticos e morais para defender os seus aliados. A presidente Dilma não tem mais condições de governar o Brasil”, afirmou Aécio em nota.

"Vamos juntos rápido para o impeachment", complementou em vídeo postado nas redes sociais.

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Image caption Parlamentares também protestaram contra Lula e Dilma no plenário da Câmara

O deputado federal Antonio Imbassahy (PSDB-BA), líder da oposição, afirmou à BBC Brasil que as críticas feitas pelo governo e por petistas a Moro "não têm fundamento".

"Ele agiu totalmente dentro da legalidade, e fez bem em revelar uma ação criminosa da presidente tentando obstruir a Justiça dando um habeas corpus preventivo (a Lula). Ação criminosa que a desqualifica mais ainda."

Em nota divulgada após os áudios se tornarem públicos, o PRB (Partido Republicano Brasileiro) anunciou que sairá da base do governo Dilma e entregará o cargo de George Hilton no Ministério dos Esportes.

"O partido levou em conta, além das sucessivas e graves denúncias de corrupção envolvendo o governo, a evidente dificuldade da presidente de formular um projeto político e econômico capaz de conter a crise instalada e restaurar a confiança dos brasileiros no futuro do país", diz o comunicado divulgado pela legenda.

E o PSB anunciou que entrará com uma ação no STF "para pedir o cancelamento do termo de posse do ex-presidente" como ministro.

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Image caption Seguranças cercaram o Palácio do Planalto para evitar acesso de manifestantes

Defesa

Logo após a divulgação dos áudios, o ministro José Eduardo Cardozo (Advocacia-Geral da União) saiu em defesa de Dilma e negou que o envio do termo de posse tenha como objetivo evitar ações judiciais contra o ex-presidente.

Cristiano Zanin Martins, advogado de Lula, chamou de “arbitrário” e “grave” o grampo “envolvendo a presidente da República” e afirmou que a decisão de Moro “estimula a convulsão social, o que não é o papel do Judiciário”.

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Zanin Martins afirmou também que a vara de Moro já não teria competência para tomar a decisão, já que a partir desta quarta Lula é ministro – o que lhe dá foro privilegiado.

O advogado não comentou o conteúdo das gravações de Lula, mas negou que o ex-presidente tenha aceitado o cargo de ministro para escapar das investigações. “Não é privilégio (o foro privilegiado), é algo inerente ao cargo. Não há de forma alguma obstrução da Justiça”.

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Image caption Nomeação de Lula já foi publicada no "Diário Oficial da União"

Segundo o deputado federal Wadih Damous (PT-RJ), ocorreu uma "gravíssima irregularidade cometida pelo juiz Sergio Moro, que aliás se notabiliza na condução da chamada Operação Lava Jato pela sua conduta arbitrária de desrespeito à Constituição, a direitos e garantias individuais".

O petista diz que "de jeito nenhum" o governo acabou. "O governo acaba no prazo constitucional, quando tem outra eleição e outro presidente toma posse", afirmou ele, que também falou em tomar medidas judiciais contra Moro.

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