Como as redes sociais estão mudando nossa maneira de lidar com a morte

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Eu me lembro bem da noite em que eu e meus familiares nos reunimos em volta da minha tia Jackie, mantida viva por aparelhos no hospital, e acompanhamos sua partida.

Observar aquele fenômeno foi algo estranho. Ali estava ela, nosso ente querido. Falamos com ela, seguramos sua mão, e olhamos o "zigzag" verde se mover cada vez mais lentamente no monitor. E no instante seguinte, ela não estava mais ali.

Enquanto isso, outras máquinas a mantinham viva: um servidor em algum lugar distante, capaz de armazenar os pensamentos, as lembranças e os relacionamentos de tia Jackie. De certa forma, ela continua entre nós. No Facebook.

Apesar de ser óbvio que as pessoas não sobrevivem à falência de seus corpos, no mundo da tecnologia digital elas têm esse “superpoder”. A maneira como os outros se relacionam com ela pode continuar – e de fato, continua – online.

Mas como a nossa presença contínua no espaço digital está mudando a maneira como lidamos com a morte?

‘Cemitério cada vez maior’

O número de mortos no Facebook está subindo rapidamente. Em 2012, apenas oito anos depois de seu lançamento, 30 milhões de usuários com uma conta no site tinham morrido.

E essa quantidade vem aumentando. A revista científica Jurimetrics, editada pela Universidade do Arizona, estima que mais de 8 mil usuários morram por dia.

Em algum momento, vai haver mais usuários mortos do que vivos no Facebook. Trata-se de um cemitério digital cada vez maior e irrefreável.

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Muitos perfis do Facebook anunciam que seus donos morreram e eles passam a ter um “memorial”. A pessoa deixa de aparecer em áreas públicas como “Pessoas que você talvez conheça” e lembretes de aniversário.

Mas nem todos os falecidos ganham um memorial virtual. Kerry, um dos meus companheiros de casa na época da faculdade, se suicidou há alguns anos. Sua viúva, familiares e amigos regularmente postam mensagens e imagens na página dele, fazendo com que Kerry ele apareça na minha página inicial.

Nem Kerry nem minha tia Jackie tiveram suas mortes reconhecidas pelo Facebook ou pelos usuários que involuntariamente caíram em seus perfis. Suas identidades digitais continuam existindo.

Legado digital

As redes sociais nos ensinaram sobre a força do momento presente – conectar-se aqui e agora com pessoas em todo o mundo para falar do que está acontecendo – de cerimônias de premiações e programas de televisão a jogos de futebol e notícias.

Mas talvez tenha chegado a hora de pensarmos no que virá depois de tudo isso: o nosso legado.

Até pouco tempo atrás, apenas pessoas de destaque tinham o “direito” de deixar um legado. O mundo digital mudou isso. Agora, segundo um recente estudo do GlobalWebIndex, cada um de nós passa mais de 12 horas por semana escrevendo nossa autobiografia nas redes sociais.

Meus netos poderão saber mais sobre a minha mãe quando puderem estudar seu perfil no Facebook (partindo do pressuposto de que a rede social não vai fechar). Em vez de se informarem sobre os grandes acontecimentos da vida da bisavó, eles poderão conhecer os detalhes insignificantes de sua rotina: memes que a fizeram rir, fotos virais que ela compartilhou, os lugares que frequentou. E, claro, haverá inúmeras imagens dela e de suas pessoas queridas.

É como se nossos registros nas redes sociais fossem uma espécie de alma digital.

Avatar eterno

Nos últimos anos, várias empresas de tecnologia vêm experimentando com essa ideia. O site Eterni.me, lançado em 2014, promete criar uma versão digital de “você” que sobreviverá após a sua morte. “Você poderá viver para sempre como um avatar digital, e, no futuro, as pessoas vão poder interagir com as suas memórias, histórias e ideias, conversando com você”, diz o site.

Se iniciativas como essa derem certo, não só os meus netos poderão saber mais sobre a vida da minha mãe como também poderão interagir com o avatar dela – terão uma bisavó digital.

Muitos futuristas preveem que é possível ir ainda mais longe. A empreendedora Martine Rothblatt, autora do livro Virtually Human – The Promise and the Peril of Digital Immortality (“Virtualmente humano – a promessa e o perigo da imortalidade digital”, em tradução literal), encomendou um robô chamado Bina 48, que se parece fisicamente com sua esposa e contém uma base de dados de sua fala e sua memória.

Rothblatt prevê um futuro próximo em que os mortos podem ser reavivados por softwares de clonagem de mentes que permitem que avatares pensem, respondam e sejam praticamente iguais às pessoas clonadas.

Nova forma de luto?

Tudo isso nos coloca diante de outra questão: como essas tecnologias mudam o luto?

Um dos livros mais populares sobre o assunto, Sobre a Morte e o Morrer, de Elisabeth Kubler-Ross, afirma que o luto é composto de cinco etapas: negação, raiva, barganha, depressão e ansiedade.

Desde seu lançamento, em 1969, especialistas questionaram e criticaram as principais ideias no texto, principalmente o conceito de que o luto pode ser superado pelo desapego.

Hoje em dia, muitos psicólogos ajudam o enlutado a perceber que seus entes queridos continuam com ele, de alguma maneira, mesmo depois de sua morte. O relacionamento muda, mas não deixa de existir.

Ainda assim, parte do processo de luto envolve a necessidade de superar a perda e seguir em frente. Mas aí está o perigo do nosso mundo digital: as informações online não nos ajudam a esquecer.

Não é possível superar a perda com a presença online desses milhões de usuários que já morreram.

Até agora ainda não existe uma boa solução para o problema dos dados “mortos” e fantasmas digitais. A única esperança é que a memória da internet comece a se apagar em algum momento.