'Escapei por pouco de estar entre as vítimas'

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Image caption Em entrevista à BBC Brasil, espanhola Beatriz Peón conta que perdeu metrô que foi alvo de atentado em Bruxelas; ela relatou momentos de desespero e pânico

A espanhola Beatriz Péon, de 25 anos, escapou por pouco de estar entre as vítimas do atentado contra o metrô de Bruxelas, na manhã desta terça-feira, que matou pelo menos 30 pessoas.

Uma série de explosões atingiu o aeroporto e o metrô da capital belga, deixando mais de 30 mortos e dezenas de feridos. O ataque ocorreu quatro dias depois da prisão de Salah Abdeslam, principal suspeito pelos ataques de Paris em novembro. Abdeslam foi preso em Bruxelas.

Em entrevista à BBC Brasil, ela conta que estava a caminho do trabalho quando perdeu o trem que, minutos depois, viria a ser alvo do ataque. Beatriz decidiu embarcar no seguinte.

"O trem parou no túnel. Anunciaram no alto-falante que tinha havido um acidente na linha. Ficamos parados por quase dez minutos. As pessoas começaram a ficar nervosas e outras começaram a chorar", lembra ela.

"A condutora do trem atravessou todos os vagões até chegar ao último, onde eu estava, e tentou abrir a porta. Quando viram o que estava acontecendo, todos os passageiros começaram a correr até o último vagão e conseguiram abrir a porta. Todo mundo começou a sair. Tudo estava escuro e havia muita poeira. Andamos no meio dos trilhos", completa.

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Leia abaixo o relato completo.

"Sou natural de Madri, na Espanha, e moro há três anos e meio em Bruxelas, na Bélgica. Estava a caminho do trabalho na manhã desta terça-feira quando duas coincidências enormes aconteceram comigo.

Em primeiro lugar, perdi o trem que viria a ser alvo de um atentado minutos depois. Em segundo, decidi embarcar no último vagão do próximo trem.

Na metade do trajeto entre as estações Arts-Loi e Maelbeek (local do atentado), o metrô parou. Anunciaram no alto-falante em holandês, francês e inglês que havia ocorrido um incidente na linha e que estavam trabalhando para solucioná-lo o mais rapidamente possível.

Ficamos parados por quase dez minutos. Os passageiros estavam grudados nos celulares, e, depois de alguns minutos, começaram a ficar muito nervosos enquanto outros começaram a chorar.

A condutora do trem atravessou os vagões até chegar ao último, onde eu estava, e começou a tentar abrir a porta. Quando se deram conta disso, os passageiros dos outros vagões começaram a correr em direção ao vagão em que eu estava. Conseguiram abrir a porta e todo mundo começou a sair. Os passageiros que vinham em direção ao último vagão começaram a se empurrar e a pular por cima dos assentos.

Uma mulher mais velha estava tendo o que parecia ser um ataque de ansiedade, enquanto outros gritavam para que parassem de empurrar e fossem civilizados.

Percebi que precisava sair. Tudo estava escuro e havia muita fumaça e poeira. Alguns passageiros haviam permanecido dentro do trem para ajudar a gente a sair do vagão em direção aos trilhos.

Vi um idoso pulando para fora do vagão. Ele quase caiu no chão. Os voluntários árabes, na maioria tentavam tirar as pessoas do trem. Começamos a caminhar pelos trilhos de volta à estação de Arts-Loi. Ouvi barulhos muito fortes em cima da minha cabeça. Me assustei ao pensar que poderiam estar ocorrendo explosões na estação de Arts-Loi.

Havia funcionários do metrô caminhando conosco com lanternas e alto-falantes, pedindo que caminhássemos pelo centro dos trilhos. Ao chegar à estação de Arts-Loi, tudo estava deserto. Escutei pelo sistema de som que a estação estava fechada por ordem policial.

Subi as escadas e encontrei um policial cercado por dez a quinze passageiros que haviam chegado antes de mim. O policial explicava que havia ocorrido uma explosão, mas não disse onde, e que a estação onde estávamos estava segura.

Perguntei a ele se eu podia sair e ele disse que não, que não era seguro e teríamos de permanecer ali dentro. Poucos minutos depois, um soldado desceu correndo as escadas do lado oposto da estação gritando para que todo mundo saísse. Eu e o resto das pessoas saímos correndo pelas escadas pelas quais o soldado havia descido.

Os arredores da estação estavam bloqueados com cordão de isolamento. Saí correndo e passei pela estação de Maelbeek (onde houve a explosão) e vi polícia, um carro de bombeiros e muita fumaça e poeira. Fiquei feliz de não ter visto ambulâncias porque me fez pensar que não houve feridos, mas apenas danos materiais.

Finalmente cheguei ao trabalho, onde duas colegas estavam chorando e correram para me abraçar quando entrei. Então, me dei conta do que havia acontecido e caí em prantos."

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