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Atualizado às: 04 de fevereiro, 2004 - 11h33 GMT (09h33 Brasília)
 
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Ivan Lessa: Bing e Barulhos
 
Ivan Lessa
1968 foi um excelente ano para se deixar qualquer país do mundo. Foi também para mim o ano em que cheguei para passar o tempo que desse para passar até que passassem os sacerdotes ou feiticeiros, conforme os chamam hoje, mas que, na época, eram simplesmente os ditadores militares brasileiros.

A primeira coisa que eu estranhei em Londres foi o som. Ou, mais especificamente, a ausência de barulho. Estávamos no finalzinho daquela bobagem inventada pela revista Time americana, a Swinging London. Carnaby Street, os Beatles, maconha, protestos diários contra a guerra no Vietnã.

Eu esperava, portanto, uma zoeira dos diabos. Algo assim feito o Maracanã em tarde de Fla-Flu na hora do gol da vitória.

O que encontrei foi um silêncio de cemitério. Pelo menos aos meus ouvidos acostumados à decibelagem do Rio de Janeiro. No doce balanço a caminho do mar, haviam coisas lindas e, anunciando-as, buzinas, gritos, foguetes, o diabo.

Como falávamos alto, meu Deus! Garantem-me que isso passou com o governo civil e as "Diretas Já". Aceito.

Volto, no entanto, aos meus ouvidos gratos pela ausência de ruídos que não aqueles estritamente necessários. Por exemplo: buzina, só para me avisar, ao atravessar a rua, que corro perigo de vida graças à minha distração. A tal mania da gente a caminho do mar.

Passei quatro anos assustado com a inexistente trilha sonora do filme em que vivi. Era mudo, o raio do filme. Nem um pianista zarolho para me dar o clima. Minto. Ao longe, muito ao longe, um rádio tocando qualquer coisa de uma banda hoje totalmente esquecida.

Corte para 2004. O barulho é um problema. Há lei regulamentando, multa, ameaça de prisão, gente quebrando estridentemente a cara de gente. Tudo culpa, para mim, do baixo nível atual do que chamam de "música popular", House, techno, garage, seja qual for o gênero, é sempre aquele "boom" reverberando cidade afora, bairro após bairro. Com minha música não havia disso.

Ou havia? Lá está no jornal, John Boden, de 58 anos, da cidade de Wallasey, em Merseyside, vai ser expulso da casa que o governo lhe deu porque, desobedecendo uma ordem judicial, que se seguiu a inúmeras queixas, continuou a tocar muito alto seus discos – ora, vejam só! – seus discos do Bing Crosby.

Estou com John Boden e contra juiz e vizinhos. Enquanto alguém tocar, mesmo aos berros, Bing Crosby, o mundo ainda tem esperança.

 
 
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