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Atualizado às: 10 de março, 2004 - 12h05 GMT (09h05 Brasília)
 
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Em defesa da língua
 
Ivan Lessa
Aí estão os franceses às turras de novo. Entre si. Eles acham muito mais divertido do que um pau com americano ou com presidente haitiano.

Quando na França, querendo ver as coisas esquentarem, é só tocar na decadência do que eles gostam de chamar de "idioma de Molière".

Desta vez, para variar, é sobre a defesa da língua contra os danados dos estrangeiros. Por estrangeiros, entenda-se "os americanos".

Não se conformam, os franceses, com o fato do francês ter deixado há muito de ser a língua da diplomacia.

Não se conformam que apenas 28% dos documentos da União Européia foram redigidos em francês e 59% em inglês no ano que passou.

Não se conformam com o fato desse jogo até o ano de 1997 ter acabado ao menos empatado: 42% do domínio da bola para cada lado.

Nesta renhida disputa, de um lado está Bernard Pivot, há anos tido como o principal teleliterato francês, ou seja, uma espécie de Malu Mader das letras televisivas.

Do outro, o octogenário Maurice Druon, ultraconservador e ex-secretário-geral da Académie Française, aquela que, fundada em 1634, serviu de modelo, com espadinha e tudo, para os "Writers Fahion Show" do Brasil – é, nossa Academia Brasileira de Letras.

Acontece porém que Pivot defende as incursões do idioma de Shakespeare e (risos) George W. Bush no francês.

Ele faz desfilar os velhos argumentos de que uma língua tem que evoluir, se abrir, enriquecer, aceitar o que vem de fora e, via gírias, de dentro.

Druon, por sua vez, é um purista. Quer raspar a cabeça dos termos colaboracionistas que, segundo ele, envenenaram o legado de Racine, Boileau e La Fontaine: le parking, la stock-option, le golden boy, le debriefing, le showbusiness, le e-mail e por aí afora e adiante.

A polêmica engrossou e já está nos grandes jornais e mesas apertadas dos cafés que ainda continuam na moda. Todo mundo e seu tio têm uma ou várias opiniões a respeito.

Nós, brasileiros, que já tivemos, conforme noticiou outro dia mesmo a Folha de S. Paulo, nossa "belle époque com sotaque caipira", reconhecemos a discussão.

Ligamos menos, claro, ao contrário dos iraquianos, para as invasões anglo-americanas. Conseguimos, no entanto, um pequeno milagre.

Nós mesmos, sem qualquer influência externa, nos encarregamos de diminuir o idioma que já foi o de Machado de Assis e continua a ser, na medida do possível, o de Caetano Veloso.

 
 
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