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Atualizado às: 17 de março, 2004 - 11h40 GMT (08h40 Brasília)
 
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O mistério britânico
 
Ivan Lessa
Eu não conheço ingleses. Ou britânicos.

Estou há 26 anos no país e cumprimento, no máximo, uns dois ou três cidadãos. Entre eles, o noivo de minha filha. Mesmo assim, ele é um mistério para mim.

Não creio estar me desviando de alguma verdade essencial se proclamar que também nunca conheci um brasileiro. São todos como o noivo de minha filha: puro mistério.

O samba-canção está correto: ninguém conhece ninguém. Sendo que, aliás, devo estar confundindo tudo e até o nome da música gravada por Cauby Peixoto (acho) não é nada do que eu acabo de dizer.

Também não me sinto só. Não, a solidão não vai acabar comigo, para citar – corretamente – outra canção de nosso cancioneiro.

No Brasil, eu tinha o sol, o sal, o sul para me fazer companhia. Dava para o gasto.

Aqui no Reino Unido, eu tenho o Escritório Nacional de Estatísticas. Tudo que eu preciso saber sobre inglês, escocês, galês, irlandês do norte, o danado do Escritório me dá. Não há mistérios a desvendar nestas ilhas. Tudo é sabido e registrado pelo Escritório das Estatísticas.

Shakespeare hoje nada teria a acrescentar, morreria de fome.

Nesta semana eu fiquei sabendo que os homens britânicos têm mais meia hora livre por dia do que as mulheres. Meia hora que eles dedicam a quê? A ver televisão, claro.

Já as mulheres, estas amélias do hemisfério norte, passam duas horas e 30 minutos por dia entretidas em afazeres domésticos: limpar a casa, lavar roupa, passar, costurar, cozinhar, essas conquistas todas da liberação feminina.

Sim, elas continuam fazendo o que os homens queriam que fizessem, só que agora com o maior orgulho do mundo, concluo, numa gentileza do Escritório de Estatísticas.

Um dado fascinante para mim, que já fui homem chegado a leituras: as mulheres lêem, todos os dias, inclusive domingos e feriados, 16 minutos por dia, ou seja, um minuto a mais do que os homens que, cabeças de vento, incapazes das disciplinas da concentração, não passam dos 15 minutos diários.

As estatísticas não dizem se é besteira o que um sexo e outro lêem, mas, conhecendo a humanidade, em qualquer sotaque, só posso crer que sim.

No entanto, as mesmas estatísticas são precisas no tocante às artes e eventos culturais: 6 minutos diários para as mulheres, 5 para os homens. Esse minuto de diferença, juro que só pode ser porque os homens – ah, aí sim, como os conheço! – ficam pensando em besteira.

Exatamente como o simpático pessoal do Escritório Nacional de Estatísticas.

 
 
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