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Atualizado às: 22 de março, 2004 - 12h44 GMT (09h44 Brasília)
 
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O que pôr no plinto
 
Ivan Lessa
Londres tem algumas das praças e jardins mais conhecidos e bonitos do mundo. Tem a praça de Trafalgar (“mas pode me chamar de Square”) que é das mais populares entre a turistália. Nunca entendi porquê.

Trafalgar é cimento puro, duas fontes sem graça, nenhum banco ou verde, pombos infernais e estátuas de – quase que eu digo milico – militares. Sua única serventia é para comícios de protesto. De preferência, pelo desarmamento nuclear. O resto é bobagem.

No meio, aquele imenso e fálico obelisco com o vice-almirante Nelson no topo com seu olho único como se tentando divisar à distância ou Napoleão ou o marido de sua amante, Lady Hamilton. Como se protegendo-o de um inimigo francês ou marido traído, a seus pés quatro leões de bronze que acredito desdentados e comedores de macarrão.

Uma das estátuas mais desinteressantes do mundo cercada de três outras à sua altura. Lá estão, na praça, espalhados em três pontos estratégicos, os seus cantos, chatos de e sem galocha, outras estátuas, de bronze, tais como a do quarto dos reis George, as dos generais Havelock e Napier, que vocês nunca viram nem deveriam querer ver mais gordos ou mais magros.

No canto noroeste da praça, há um plinto vazio. Plinto é o termo arquitetônico para aquilo que, digamos assim, precede o pedestal. O plinto em questão está vazio há mais de 150 anos, desde que o quarto dos reis Guilherme morreu e não deixou a verba necessária para a sua própria estátua. 150 anos dá para uma pessoa se acostumar a um plinto vazio. Principalmente, se essa pessoa for inglesa ou turista.

Agora, de uns anos para cá, cismaram de encher o plinto com uma estátua. Não de rei ou militar, conforme manda a regra não escrita. Uma estátua artística, entre aspas, conforme ditam os novos costumes politicamente corretos.

Concurso vai, concurso vem e, agora, ao que parece, decidiram-se. Vai para o plinto uma obra de Marc Quinn, tão conhecido nosso quanto o general Napier, né mesmo?

A obra em questão é uma estátua da senhora Alison Lapper, também artista, nua e grávida, que, por um infortúnio do destino, nasceu com os sintomas semelhantes àqueles das vítimas da Talidomida, isto é, quase sem braços, os pés terminando no lugar dos joelhos.

A questão tem causado discussão. Porque alguns acham que há outros projetos mais válidos artisticamente. Ninguém se lembrou do importante: nada mais eloquente e conceitual do que um plinto vazio no meio de Londres. Ou então, conforme já apontei, taca lá um general que nunca ninguém ouviu falar.

 
 
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