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Atualizado às: 14 de maio, 2004 - 09h17 GMT (06h17 Brasília)
 
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Ivan Lessa: o iaque
 
Ivan Lessa
Por falar em canear, quando eu era garotão e chegado a umas e outras biritas, em determinada época fui adepto – e meço minhas palavras – do conhaque Dreher, superior, ao menos, ao Conhaque de Alcatrão São João da Barra.

Tomava meu Dreher com água Cristal e, às vezes, um Underberg do lado.

Bebida não chegou a ser problema para mim. Os cobres é que eram curtos.

Depois, claro, quando a vida melhorou um pouco, passei a beber como gente grande, ou seja, uísque.

Finalmente, e felizmente, tudo isso passou, e hoje só vou de sucos, refrescos e refrigerantes. Mas estive lá.

Isso tudo a propósito da nova popularidade que o conhaque vem desfrutando em certos meios norte-americanos.

Refiro-me, que fique claro, ao conhaque dos bons, ao conhaque oriundo da região em torno da cidadezinha francesa de Cognac, onde o precioso néctar teve origem há cerca de 300 anos, e não em São João da Barra nos anos 30, como pensam alguns.

Americano bebendo conhaque?, exclamarão muitos.

É, e americano chegado a um hip-hop, a um gangster rap.

Para a complicada cultura dessa forma musical, que já chegou ao Brasil – e bem e a salvo e sem complicações na alfândega –, o conhaque sofreu uma pequena transformação em seu nome: virou Yak, ou, para nós, Iaque.

E nada tem a ver com aquele boi selvagem das regiões glaciais desérticas do Tibete.

Iaque é Hennessy, é Courvoisier, é Remy Martin, é Martell.

A geração hip-hop não faz por menos e conta com o aval dos afamados produtores de conhaque que chegaram a declarar que, se Busta Rhymes quiser compor, como compôs e vendeu aos potes, uma canção, se é esse o nome, com o título de Me passa o Courvoisier, o problema é com ele.

Frise-se que não dá para citar um único verso da, digamos, composição. Barra pesadíssima.

Pesadíssima, mas valendo excelentes resultados para o produto em questão: as vendas aumentaram cerca de 3 vezes na última década e, hoje, equivale a 50 milhões de garrafas por ano – e olha que conhaque não é barato.

A cachaça, que já se espalhou por boa parte do mundo mediante sua versão caipirinha, deveria investir numa campanha de relações públicas junto aos rappers e hip-hoppers americanos, marginais ou não.

Tem tutu gordo nisso. Ou exportamos ou sucumbimos.

Capaz, entretanto, de eu estar por fora.

Vai ver a campanha internacional já começou e ninguém me disse nada.

 
 
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