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Atualizado às: 21 de maio, 2004 - 11h52 GMT (08h52 Brasília)
 
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Água de coco
 
Ivan Lessa
Eu nunca liguei muito para água de coco.

Meu paladar sempre foi mais afeito a outros líquidos doces.

Sucos e refrigerantes, que fique claro, para que correspondente americano nenhum faça qualquer jogada baseada em esquema especulatório.

Eu ia principalmente de refresco de groselha e, em matéria de refrigerante gasoso, guaraná, embora quase que nenhum deles pudesse passar pela minha frente e sair incólume do confronto.

Grapette, Fanta, tudo isso eu deitava goela abaixo com a fúria e a ânsia de um náufrago perdido no deserto.

Sim, eu sei: lugar de náufrago é no mar, como um personagem de canção do Caymmi, e não tem nada a ver com deserto, onde quem se perde é beduíno míope e meio retardado.

Mas o despropósito sintático tem sua razão de ser.

Eu cultivava uma sede permanente não só insaciável como incurável. Aquilo só podia ser doença.

E era. Chamava-se juventude e dava no Rio de Janeiro. Perto ou distante das praias.

No centro, naqueles dias de 40º, eram duas as soluções: a laranjada Americana, na Galeria Cruzeiro, ou o imbatível, o inesquecível refresco de coco da Simpatia.

Todos dois na avenida Rio Branco, que cismam de chamar de avenida Central.

Na Simpatia, valia também o refresco de tamarindo, mas para valer, titular mesmo, só o de coco.

Pela água de coco propriamente dita, eu não morria de amores.

Não era só o gosto, que me parecia natural demais, não reunindo as necessárias condições de artificialidade, de aditivos químicos, conservadores etc., todas essas coisas, enfim, com que os ignorantes – deles seja o Reino dos Céus – gostam de implicar.

Um caboclo armado de peixeira decapitando o cocão verde dava um excelente cartão postal, mas não resolvia meu caso.

Apareceu agora, aqui em Londres, uma água de coco em embalagem de, acho, cartolina forrada de kriptonita.

São 330 ml esterilizados “ready to drink chilled” conforme diz um adesivo colado no recipiente original.

Original, aliás, de Itapipoca, no Ceará.

Aderi como um louco.

Só louco (olha o Caymmi, de novo) para descobrir, depois de velho, água de coco.

Só agora também entendo a popularidade do dito produto.

E, ainda, só garanto uma coisa: no estrangeiro, caro, difícil de achar e destituído de suas origens naturais, melhora muito.

Como melhoram o que ficou por aí e que não se quer mais nem ver ou pensar, para não saber o que fizeram ou o que ficou daquilo tudo que um dia foi… foi… ah, sei lá.

 
 
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