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Atualizado às: 27 de agosto, 2004 - 11h20 GMT (08h20 Brasília)
 
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Ivan Lessa: O eterno descanso do Totó
 
Ivan Lessa
Os ingleses, pedantemente conhecidos como os britânicos, não estão fazendo um papel sensacional nos Jogos Olímpicos. Apesar de eminentemente esportivos. Inclusive no fazer uma fezinha.

É hora de se concentrar em outra coisa que não medalha de ouro. Vamos lá. Os ingleses são danados de bons em uma porção de coisas. Televisão, biografia, carta para jornal ou amigo. E, talvez em primeiro lugar, segundo minha imodesta opinião, em obituário. Ou necrológio, se preferirem.

Neste ponto, nós, brasileiros, somos mais sóbrios, mais ingleses, se quiserem, no comportamento ao menos jornalístico. Se a pessoa for muito, mas muito conhecida mesmo, o editor manda o pobre do jornalista aos arquivos e começar a telefonar para uma porção de gente perguntando o que achava e, invariavelmente, qual a importância do morto.

Aqui, não. Os mortos adquirem proporções de estátua. De atores secundários de Hollywood (outro dia, minha Nossa, foi o obituário da atriz de filmes classe Z, Acquanetta) a prêmios Nobel de medicina, políticos locais ou não, qualquer pessoa que foi, para um bom número de pessoas, pessoa.

Um necrológio, como eu prefiro chamar, também não é só confete. Trata-se de uma avaliação. Não é infreqüente ver-se um morto levar uma pedrada no meio da falecida testa, caso esta merecesse. Às vezes, passam-se semanas na seção de cartas com gente discutindo a questão.

Agora, para dar o equivalente a um show de bola na disciplina em que são mestres, os responsáveis pelo Daily Telegraph, jornal conservador, com perto de 900 mil exemplares de tiragem, introduziu uma novidade: o obituário do bichinho de estimação.

É, isso mesmo. Vale cachorro, gato e até peixinho dourado. Verdade que as sentidas linhas são pagas, mas não deixa de ser um passo adiante (ou para o alto) no jornalismo obituarista.

Outros jornais, não marrons, mas verdes de inveja, atacaram a inovação chamando de "sacrilégio" ou "inacreditável". O teste da verdade é simples: pergunte a quem perdeu um bicho de estimação o que acha da questão.

Tenho a impressão que a única pergunta que ele fará é: "Quanto estão cobrando por linha?"

 
 
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