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Atualizado às: 15 de novembro, 2004 - 08h45 GMT (05h45 Brasília)
 
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Ruminando
 
Ivan Lessa
De cara, duas confissões, das quais a primeira é a seguinte: eu fumei quase que três maços de cigarro por dia durante uns bons (digamos assim) 50 anos.

Um dia, há exatamente três anos, 21 de novembro, para ser preciso, no meio de uma tremenda gripe, que mais tarde descobri ser pneumonia, eu olhei para o maço de cigarro, o isqueiro e o cinzeiro a meu lado e parei de fumar.

Não dá nem para dizer que eu resolvi, num determinado momento, parar de fumar. Como eu estava sem gosto, e com a experiência prévia de que, quando passasse o “resfriado”, ficaria com uma tosse daquelas durante algum tempo, deixei de fumar – ao menos enquanto gripado.

No dia seguinte, guardei o maço quase cheio numa gaveta da sala e lá o deixei. Fui à minha vida, levando minha tosse e meu início de recuperação. Parei de fumar e é isso aí e pronto.

Substitutos

Não apliquei adesivo com nicotina, não tive rompantes de horrendo mau humor (apenas os habituais), não fui acometido de suores frios ou insônia. Apenas deixei de fumar e não pensei mais nisso.

Na verdade, tamanha é minha falta de esforço de vontade que, até hoje, sou da firme crença que, na realidade, eu não parei de fumar; fumar foi que parou comigo.

Aqui entra minha segunda confissão. Eu tive uma necessidade, sim senhor. Necessidade de pôr algo na boca. Então, fui de balas e confeitos. Com, quero crer, moderação de ex-fumante, mas sempre com uma, digamos, bala de limão azedinho no bolso, como se um daqueles tarados personagens de conto do Dalton Trevisan.

Fui também de chicletes, que, na minha recém-adquirida virtude, eu deveria chamar de goma de mascar. Não chicletes com nicotina – que aí me colocariam de novo na equação do fumante –, mas chicletes simplesmente. Ou melhor, de hortelã.

Aí eu bato no peito e, disso sim, me orgulho: nunca cuspi fora o chicletes na rua ou o deixei pregado debaixo da cadeira do cinema ou do metrô.

Sim, eu passara a ser um ruminante, conforme um velho professor de português ranzinza chamava aos mascadores que aderiam ao novo hábito que, ao que me lembre, acabara de chegar das terras do Tio Sam, que hoje preferimos chamar de Grande Irmão do Norte.

Daí um dia, eu também deixei os chicletes de lado. Ou eles me deixaram. Sem cigarro ou chicletes, porém com uma baita fibrilação auricular, eu vou levando. Ou sendo levado. Ou arrastado.

 
 
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