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Atualizado às: 19 de novembro, 2004 - 08h41 GMT (06h41 Brasília)
 
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A falta que a banha nos faz
 
Ivan Lessa
– Fala, Banha Rosa!

Era o insulto invariável que nos vinha à boca para ferir aquele menino gordinho que não estava – coitado – fazendo nada, em geral na ponta esquerda da pelada na praia.

Banha Rosa era uma marca popular do produto lá por meados do século passado.

Banha. E ainda mais de porco. Bleargh!

Tudo a ver com banha sempre me repugnou. Estou vendo umas imensas latas de outra marca de banha, a Carioca (azul, com palmeiras), cheias de um líquido incolor e oleoso, equilibradas na cabeça das pobres daquelas mulheres que, quando faltava água, começavam a dolorosa subida para o morro com o que, para elas e família, possivelmente constituía o precioso líquido.

Banha, em suma, era uma coisa de garoto desajeitado e gente pobre. Nada a ver comigo, residente de um belo apartamento de décimo andar na avenida Atlântica, bem em frente do mar. Na minha casa, isto era óbvio, nunca entrara a maldita da tal banha.

Era, pelo menos, o que eu preferia acreditar. Até hoje peço o obséquio de não me informarem que eu não podia estar mais enganado.

Nunca entendi nada de cozinha. Tal como hoje, só sei me sentar à mesa e esperar ser servido. Na cozinha, no máximo abrir a geladeira para pegar um refrigerante.

Mais: banha, para mim, era coisa de brasileiro. Puro subdesenvolvimento.

De ilusões sou feito, assim pretendia continuar.

Chocado, abro os jornais britânicos e lá vejo, em notícias de cinco colunas, com fotos, reportagens sobre a crise da banha que ameaça o país neste Natal. Quer dizer, vai faltar banha. Banha para fazerem todos aqueles bolos e sobremesas de Natal que, em mais de 30 anos, me acostumei a apreciar.

Era tudo enganação. Banhas Rosa e Carioca em cima de mim. Perseguindo-me para eu deixar de ser besta.

Tentarei. Ou então, como uma criancinha africana dependendo de roqueiro britânico, emagrecerei, definharei e, finalmente, morrerei.

 
 
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