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Atualizado às: 04 de dezembro, 2006 - 11h47 GMT (09h47 Brasília)
 
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Violência contra jovens é o que mais preocupa Unicef no Brasil
 

 
 
Jonathas Santos
Jonathas saiu das ruas e agora sonha em ser músico
Entre todas as questões relativas à situação do adolescente brasileiro, a morte violenta de menores de 19 anos é a que mais preocupa o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) no país, segundo Mario Volpi, oficial de programas da instituição.

Dados do Ministério da Saúde mostram que 54,9% das mortes não naturais de jovens com idades entre 15 e 19 anos ocorrem por agressões.

“Trata-se de um índice altíssimo, maior até do que em outros países latino-americanos percebidos como mais violentos que o Brasil”, afirma Volpi. “Esse problema é muito sério porque vem crescendo nos últimos anos e porque há uma grande impunidade no país.”

“Vemos uma ação impune de grupos de extermínio, compostos por policiais que enxergam alguns jovens como uma ameaça à segurança, de grupos que disputam territórios no tráfico de drogas e de gangues”, explica.

“Há um mito de que os adolescentes mortos eram também infratores, mas pesquisas mostram que a maioria deles, na realidade, morava com a família, e estudava ou trabalhava”, diz.

‘Revolta’

É nesta situação que está Pedro*, de 17 anos, morador da periferia de Salvador. Até quatro anos atrás, ele e seu irmão gêmeo, Marcelo*, viviam nas ruas de um bairro de classe alta pedindo dinheiro, cuidando de carros ou vendendo água de coco.

“A gente era um grupo grande, ia se virando. Às vezes, a gente invadia uma casa pra passar a noite, às vezes algum ‘barão’ ia com a cara da gente e dava uma ajuda”, conta.

 Minha revolta é com os policiais, que vêem um ‘nego’ e querem discriminar e bater, igual a cachorro sem dono.
 
Pedro, ex-menino de rua

Através de educadores de rua de uma ONG de Salvador, Pedro e Marcelo voltaram a viver com a avó e um irmão mais novo, entraram para a escola e começaram a realizar atividades culturais na sede da entidade em seu tempo livre.

Frustrado por não receber dinheiro, Marcelo voltou para as ruas logo em seguida, e começou a se envolver com o tráfico e o consumo de drogas.

“Ninguém sabe o que vai acontecer com meu irmão.”, diz Pedro. “Sem falar que ele também tá queimando meu filme também, porque se ele roubar ou fizer alguma coisa, ‘nego’ vai querer me matar pensando que eu sou ele.”

Pedro, que continua estudando e sonha em se tornar músico, conta que já apanhou de policiais que o confundiram com o irmão.

“A minha revolta é com os policiais, porque eles vêem um ‘nego’ assim da nossa cor e querem discriminar, querem bater, igual a cachorro sem dono. E se eles vêem que aquele menino não tem a mãe ou o pai por perto, eles vão sempre atrás dele pra espancar, pra humilhar e um dia ameaçar pra querer matar. E depois de morto, ninguém sabe o que aconteceu, né?”

Na rua

Segundo o sociólogo Gey Espinheira, especialista em estudos sobre violência urbana da Universidade Federal da Bahia, apesar de não serem as principais vítimas de assassinatos, os meninos de rua estão sujeitos a outros tipos de violência.

“Eles vivem uma situação de tensão permanente, enfrentando a violência entre eles mesmos, da polícia, dos comerciantes e de toda a sociedade, que os vê como pessoas indesejáveis”, explica.

“Quem deixa sua casa e vai para a rua sofre muito, mas está desenvolvendo uma estratégia de sobrevivência. Os que ficam em seus lares desajustados estão muito mais sujeitos à violência porque não têm capacidade de defesa.”

Espinheira observa que o número de crianças e adolescentes vivendo nas ruas de Salvador diminuiu nos últimos anos, e eles não chegam a formar bandos organizados, como ocorre em outras grandes cidades brasileiras.

Para ele, isso é o resultado da ação de igrejas e de inúmeras ONGs que atuam na capital baiana, algumas delas ligadas a artistas e grupos musicais famosos.

“Nossos educadores atuam em duas frentes: os meninos que realmente abandonaram suas famílias e vivem nas ruas, e os que vão para a rua tentar ganhar dinheiro, voltam para casa à noite, mas que podem acabar fazendo daquela uma situação permanente”, explica Cristina Peixoto, diretora de unidade do Projeto Axé, uma das pioneiras no combate ao problema na capital baiana.

‘Emprego’

Jonathas Conceição Santos, de 16 anos, foi um dos adolescentes que a ONG ajudou a tirar das ruas. Ele fazia pequenas vendas e pedia dinheiro para tentar ajudar a família. Agora, divide seu tempo entre a escola, e aulas de capoeira, música, costura e outras atividades profissionalizantes.

“Eu sempre ouvi as histórias de quem entrou no Projeto e se deu bem. E eu também espero que isso aconteça comigo”, diz. “Quando eu vejo que tenho possibilidade de aprender alguma coisa, eu me esforço muito. Nada é impossível.”

“Meu sonho é ter um bom emprego, que dê um dinheiro bom”, conta.

O sociólogo Espinheira, no entanto, critica a ênfase que muitas ONGs dão no que ele chama de “heroísmo”: “Esse jovem é altamente valorizado dentro da instituição e da escola, mas para o mundo ele é um ser comum. Então, há muita chance de frustração.”

“Para que esse adolescente tenha um futuro melhor, é preciso atuar também com a família dele e criar-se políticas públicas de juventude que atinjam a comunidade em que ele vive.”

 
 
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