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Atualizado às: 29 de janeiro, 2007 - 09h50 GMT (07h50 Brasília)
 
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Ivan Lessa: Uma (micro)onda nova
 
Ivan Lessa
Até uns dois anos atrás, eu não tinha a menor idéia do que fosse um microondas. Ou, para ser preciso, um forno microondas, como agora sei que é o nome completo do dito cujo.

Eu tinha uma vaga idéia de que servia para fazer aquele trabalho que os fornos fazem. Ou faziam. Quer dizer, minha idéia do que era e do que fazia um forno já não daria sequer para cozinhar a chamada “sopa de pobre”.

O fogão era um objeto mítico situado num reino povoado por uma gente mágica e utilíssima que chamávamos, na falta de nome melhor, de “empregadas”.

Elas, as “empregadas”, eram uma espécie não muito graciosa de fadas, mas faziam quase tudo que uma fada poderia fazer. Serviam o café da manhã, desapareciam por uma ou duas horas e voltavam com as compras feitas, na feira ou no armazém, com tudo que a casa iria precisar em matéria de comida: café da manhã, almoço, lanche, jantar e sempre qualquer coisa para se lambiscar nas horas vagas.

Elas, essas fadas, é que cuidavam do forno. Suas prendas não paravam aí. Limpavam a casa, enceravam (sempre encarregadas das compras e depois os recibos de todo material de faxina comprado), faziam as camas, lavavam toda a roupa dos – assim é que chamavam – “patrões”.

O “forno”, lá na cozinha, onde reinavam, era seu caldeirão mágico, de onde saíam sopas, bifes, arroz, feijão, omeletes e tudo quanto é guloseima, inclusive doce de abóbora com coco.

Tinham um quartinho, lá perto do tanque, e até mesmo um banheirinho com chuveiro. Deveriam ter uma vida boa. Além, do mais, uma vez por mês pegavam uns trocados e muitas só trabalhavam até a hora de servirem o almoço de sábado.

Depois, a vida e o mundo (aquela metade do sábado e o domingão inteiro), repleto de fuzileiros navais, eram delas. Um dia, como tudo que é bom acaba, e nada é barato, inventaram uma tal de “carteira de trabalho” para as mágicas criaturas e acabou-se o que era doce de batata roxa.

Malefícios do progresso

Com o fim das “fadas”, ou “empregadas”, para quem preferir, é que surgiram os tais de fornos microondas. Tosca e sem graça substituição.

As pessoas cresceram e passaram a comprar prato feito em outra nova invenção, o “shopping centre”, ou “super armazém” e era só botar no microondas, acertar um tempo para esquentar e esperar por um “plim”, sonzinho que, na verdade, dava uma bruta saudade das fadas e seus fornos.

Tudo agora é “microondável.” E não só comida. Outro dia, numa revista colorida, lá estavam uns conselhos modernos dos quais pincei alguns.

O microondas, esse desconhecido

É, microondas também serve para outra coisa além de esquentar a refeição sorumbática de pessoas tristes, que não merecem aquela gracinha daquele “plim”.

Um microondas, por exemplo, mata 99% das bactérias em esponjas e panos de prato úmidos. Basta deixar por dois minutos rodando naquele prato – palco, né? – iluminado.

Botando limões por entre 15 a 20 segundos, eles ficam gordos e suculentos, rendendo mais portanto.

Não esquecer, para quem gosta de mexer com terra, de botar umas 400 gramas por 90 segundos para que o solo fique seco suficiente para receber sementes.

Madame aí está com problema de maquiagem? Ora, que não seja por isso. 30 a 40 segundos no microondas e o produto volta a ficar no ponto em que saiu da loja.

A distinta também pode depois botar a cera para depilar (não importa nem interessa o quê) durante 10 segundos apenas para chegar ao ponto ideal de depilação – atenção, para não deixar ferver, hein, que aí vai doer!

Há o óbvio: esquentar pratos nos dias frios, antes de neles tacar a comida “microondável”.

O importante é dar asas à imaginação. Como faziam as Macabéas e Beneditas e outras personagens de Clarice Lispector.

Não esquecer nunca dessa lenda urbana que continua a correr mundo: do menino que botou o gatinho para secar no microondas e... É, é horrendo imaginar. Mas também seria horrendo na época do – como era o nome mesmo? Ah, sim. Forno.

 
 
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