BBCBrasil.com
70 anos 1938-2008
Español
Português para a África
Árabe
Chinês
Russo
Inglês
Outras línguas
 
Atualizado às: 28 de maio, 2007 - 10h55 GMT (07h55 Brasília)
 
Envie por e-mail Versão para impressão
DNA mapeia origem de brasileiros na África
 

 
 
Mapa da África de 1635 feito pelo cartógrafo Willem Janszoon Blaeu
Destruição de documentos é obstáculo para busca de origens
Um estudo genético identificou, pela primeira vez por meio de DNA, as regiões da África que mais contribuíram para a formação do povo brasileiro.

O trabalho, liderado pelo médico geneticista Sérgio Danilo Pena, professor titular de bioquímica da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), indicou que a maior parte dos ancestrais do grupo analisado veio do Centro-Oeste da África - região que inclui Angola, Congo e Camarões - seguida pelo Oeste (Nigéria, Gana, Togo, Costa do Marfim) e pelo Sudeste africano.

Segundo o estudo, que analisou o DNA mitocondrial dos indivíduos, 44,5% tinham uma ancestral no Centro-Oeste da África, 43%, no Oeste da África e 12,3%, no Sudeste, na região onde fica hoje Moçambique.

Chamado de marcador de linhagem, o DNA mitocondrial é passado pela mãe para os filhos. Na prática, o DNA mitocondrial de uma africana que viveu há 400 anos é idêntico ao de um descendente no Brasil, se não tiver ocorrido nenhuma mutação.

Apesar de ter sido feito em um grupo de negros em São Paulo, o estudo pode ser considerado uma referência para o que aconteceu no resto do Brasil, já que, por causa das constantes migrações internas durante e após a escravidão, a cidade se tornou uma espécie de caldeirão genético do país.

Vale ressalvar, porém, que cada Estado e cada cidade tiveram a sua própria mistura de contribuições africanas, com predominância de uma ou outra região (África Ocidental na Bahia, por exemplo), que se manteve em maior ou menor grau, mesmo após as migrações.

Segundo Pena, a maior parte dos resultados da pesquisa de São Paulo confirma teses históricas sobre o tema, inclusive a descoberta mais recente de estudiosos de que Moçambique teve uma contribuição muito mais expressiva do que se acreditava antigamente.

Documentos queimados

De acordo com o estudo, a origem dos escravos levados para o Brasil sempre foi um assunto nebuloso, sem documentação completa. Para evitar pedidos de indenização, documentos históricos sobre a escravidão foram queimados após a abolição, em 1888.

Por causa disso, argumenta Pena, a importância relativa de cada região no contingente africano que veio para o país não pode ser adequadamente estabelecida com o uso isolado dos recursos históricos e demográficos disponíveis.

Os historiadores estimam que um número próximo de 4 milhões de escravos tenha sido trazido para o Brasil ao longo de três séculos.

Mas faltam dados precisos sobre a origem do enorme número de africanos transportados ilegalmente após 1830, quando o Brasil assinou um tratado com a Inglaterra para acabar com o comércio de escravos.

Além disso, o porto de embarcação, registrado nos arquivos nos tempos do tráfico legalizado, não reflete, necessariamente, a origem geográfica dos escravos que, muitas vezes, eram capturados no interior, a centenas de quilômetros do litoral.

"Cada porto drenava de uma área territorial grande. Às vezes, as pessoas eram capturadas e tinham de viajar mil quilômetros antes de chegar ao litoral", diz Pena, que também faz incursões pela história e pela antropologia social.

"Vingança do derrotado"

Para chegar aos números para cada região, Pena analisou as linhagens materna e paterna dos 120 indivíduos que participaram do estudo. O objetivo era chegar aos seus ancestrais mais distantes dos dois lados.

Isso é possível pelo estudo do cromossomo Y, que só passa de pai para filho, e do DNA mitocondrial, que é herdado (pelos dois sexos) da mãe.

Esses marcadores de linhagem, salvo casos de mutação, não se misturam com os outros genes e mantêm-se praticamente inalterados ao longo das gerações.

Assim, um negro brasileiro "carrega" no cromossomo Y informações genéticas do seu ancestral masculino de diversas gerações anteriores e no DNA mitocontrial, da ancestral feminina.

Bantus

Para discriminar as diferentes regiões, Pena contou com o princípio genético que chama de "vingança do derrotado".

Ele explica: um grupo chamado Bantu, que predominava no Oeste da África, espalhou-se pelo continente, e os homens passaram a se reproduzir com mulheres de outras regiões.

Assim, o fruto desse "cruzamento" passou a carregar também o DNA mitocondrial das mães, que acabaram deixando nos filhos gerados pelos homens do grupo dominador Bantu as informações genéticas sobre a região geográfica à que pertenciam.

"Quando o Bantu chega numa determinada região, ele, como dominador, se reproduz com as mulheres da região e aí o DNA mitocondrial das mulheres 'entra' na população Bantu. Por isso pudemos diferenciar os três grupos", afirma Pena.

 
 
Colagem com os participantes do projetoEspecial Raízes
Teste de DNA rastreia antepassados de afro-brasileiros.
 
 
Daiane dos SantosGenética brasileira
Daiane dos Santos é 'mais européia do que africana'.
 
 
Mapa da EuropaAfro-descendente?
Pesquisa mostra ascendência européia de negros.
 
 
DNADebate
Genética alimenta polêmica sobre raças no Brasil.
 
 
Oprah Winfrey e Louis Gates Jr.Olhar americano
'Brasil tem a cara do futuro', diz professor de Harvard.
 
 
Ilustração de uma cadeia de DNATécnica
Entenda como o DNA é usado na busca por origens
 
 
EscravoEscravidão
Há 200 anos, britânicos aboliam tráfico; Leia especial.
 
 
NOTÍCIAS RELACIONADAS
ÚLTIMAS NOTÍCIAS
 
 
Envie por e-mail Versão para impressão
 
Tempo | Sobre a BBC | Expediente | Newsletter
 
BBC Copyright Logo ^^ Início da página
 
  Primeira Página | Ciência & Saúde | Cultura & Entretenimento | Vídeo & Áudio | Fotos | Especial | Interatividade | Aprenda inglês
 
  BBC News >> | BBC Sport >> | BBC Weather >> | BBC World Service >> | BBC Languages >>
 
  Ajuda | Fale com a gente | Notícias em 32 línguas | Privacidade