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Atualizado às: 31 de maio, 2007 - 11h16 GMT (08h16 Brasília)
 
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68% africano, ativista queria mais detalhes
 

 
 
Frei David
Frei David: 'Nunca vi batida policial perguntar por genes'
O frade franciscano e ativista do movimento negro Frei David dos Santos é majoritariamente africano, com traços genéticos europeus e ameríndios, indicam exames realizados a pedido da BBC Brasil.

Testes feitos pelo laboratório do geneticista Sérgio Danilo Pena, professor titular de Bioquímica da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), indicaram que Frei David é 68,2% africano, 30,8% europeu e 1,0% ameríndio.

Mas, apesar de ter uma alta parcela de ancestralidade africana, o caso de Frei David foi único entre os nove brasileiros analisados: os exames revelaram que os dois ancestrais mais distantes identificáveis na sua composição genética, um materno e um paterno, são ameríndios.

Com isso, a pesquisa não conseguiu aprofundar os dados sobre sua ancestralidade africana, o que frustrou Frei David, diretor da ONG Educafro (Educação e Cidadania de Afro-descendentes e Carentes).

"Eu me sinto muito frustrado com o trabalho, uma vez que o cerne do projeto era aprofundar a origem africana", afirmou.

A aparente contradição entre a presença de dois ancestrais e a composição predominantemente africana pode ser explicada, em parte, pela miscigenação subseqüente, no caso de Frei David, com forte participação de africanos ou afro-descendentes.

Os nove brasileiros convidados a fazer o teste de ancestralidade passaram na verdade por três testes. Um deles, conhecido como "de ancestralidade genômica", identifica a composição genética da pessoa. No caso de Frei David, o resultado mostrou que ela é majoritariamente africana.

Os outros dois testes indicam, respectivamente, a ancestralidade paterna, através da análise do cromossomo Y, passado apenas de pai para filho, e a materna, por meio do DNA mitocondrial, "pedaço" de DNA herdado pelos dois sexos diretamente da mãe. Esses dois testes são conhecidos como marcadores de linhagem porque, segundo os geneticistas, atravessam gerações sem sofrer mudanças, salvo em casos de mutações.

Embora sejam bastante precisos, esses dois exames têm utilidade limitada porque revelam apenas ancestrais muito distantes da pessoa, sem refletir as miscigenações subseqüentes.

O teste que rastreou a ancestralidade materna pelo DNA mitocondrial do frade franciscano revelou um conjunto de seqüências genéticas (haplogrupo) que ainda pode ser encontrado nas populações nativas das Américas do Norte, Central e Sul, segundo o relatório.

Ao analisar a linhagem paterna de Frei David, por meio do cromossomo Y, a equipe do laboratório Gene identificou o haplogrupo Q3, considerado o "fundador" dos ameríndios nas três Américas e que teve origem na Sibéria, na região das montanhas de Baikal.

Estética X Genética

Frei David nega ter ficado decepcionado com os seus ancestrais ameríndios, mas critica a condução dos testes.

"Não aceito que a ciência não tenha instrumental técnico para aprofundar a herança africana considerando que ali foi e é o berço da civilização", disse. "Ele (Sérgio Pena) simplesmente boicotou de maneira consciente o resultado."

O ativista acredita que o geneticista e outros intelectuais estejam usando os resultados de pesquisas genéticas sobre a miscigenação do brasileiro para atacar a inclusão do critério racial na formulação de políticas afirmativas, o que é defendido pela sua ONG.

Segundo ele, a questão racial no Brasil está centrada na estética e não na genética.

"Nunca vi nenhuma batida policial em ônibus, por exemplo, que antes de discriminar perguntasse à pessoa quantos por cento de genes afro ela teria."

"A discriminação e o discriminador, que tantos estragos trazem ao tecido social brasileiro, não vêem na genética os argumentos para parar de discriminar. No entanto querem que o discriminado pare de lutar por seus direitos porque 'todos temos genes afro'."

Sérgio Pena negou qualquer manipulação ou a intenção de usar suas pesquisas de ancestralidade do brasileiro "de maneira tendenciosa, contra a política de cotas do governo".

"O exame de Frei David foi analisado com o mesmo cuidado e alta qualidade que todos os outros. Quando ele me contatou pedindo resultados mais detalhados, concordei imediatamente", disse Pena.

O geneticista afirmou também que seus trabalhos "têm sido muito bem recebidos por vários segmentos da comunidade negra brasileira".

Ele cita, como exemplo, o fato de o seu estudo Retrato Molecular do Brasil Revisitado ter sido publicado nos Cadernos do PENESB (Programa de Educação sobre o Negro na Sociedade Brasileira), da Universidade Federal Fluminense.

Pena enviou ao ativista um CD-Rom com mais explicações sobre os resultados do seu exame, mas Frei David reafirmou que a falta de informações específicas sobre as suas origens africanas era inaceitável.

O professor Francisco Salzano, do Departamento de Genética do Instituto de Biociencias da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), diz que a obtenção de mais detalhes a partir do teste do exame de ancestralidade genômica, como gostaria Frei David, é difícil e não garantiria resultados confiáveis.

Segundo ele, embora seja em tese possível tentar identificar as origens dos ancestrais de uma pessoa a partir dos autossomos (usados nesse exame), o processo seria moroso e cercado por alta margem de erro uma vez que, ao contrário dos "marcadores de linhagem", os autossomos se embaralham a cada geração.

"No caso dos autossomos, como há recombinação, é muito mais complicado estabelecer uma origem específica do que no caso das linhagens uniparentais. Em princípio, é possível, mas bem mais complexo e vai envolver possivelmente uma margem de erro maior", disse Salzano.

 
 
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