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Atualizado às: 09 de maio, 2007 - 09h26 GMT (06h26 Brasília)
 
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Infopânico
 
Ivan Lessa
Eu estava ciscando na Internet, em casa, ouvindo velhos cantores, vendo velhos atores e atrizes, revendo desenhos animados que me alegraram a segunda idade (todos do Chuck Jones, para a Warner), estava, em suma, como já copiraitei,
Entubando.

De repente, minha tela me manda um recado a que já me acostumei. Diz que está havendo um problema na conexão e que é para eu clicar aqui e ali para eles (eles quem?) verem qual é o defeito ou problema.

Segui as instruções, abriram-se uma ou duas janelas, tudo muito engraçadinho. Mas não atinavam com qualquer diagnóstico. Botavam a culpa em mim.

Tudo bem, estou acostumado. São meus dedos, é minha vista, trata-se de minha vida. Culpa? É comigo.

Então, já que eles, os braços-direitos, esquerdos e de centro do Bill Gates não conseguiam me dar ao menos uma pala do que andava errado, comecei a fazer o que sempre faço nessas ocasiões: besteira.

Quer dizer, fui mexer aqui e ali no computador. Ao acaso. Em desordem e desespero. Em primeiro lugar, fui daquele verbo que eu acho um horror de feio: rebutei.

Por que não dizer logo a verdade? Por que querem nos enganar com as falsidades da tecnologia? Rebutar é desligar e ligar de novo, se não estou enganado (em geral, estou enganado, mas isso são outros 500 gigabites, acho).

Na época da televisão, era mais simples, não se rebutava. Bastava um safanão do lado, em cima e atrás dos aparelhos. Em segundos tomavam jeito e revelavam os segredos de Neide Aparecida e seus “affaires” tempestuosos com geladeiras, aspiradores, vitrolas, fosse o que fosse que a Tonelux estivesse vendendo no programa lá dela. Saudade, vira esse canhão pra lá, Sá Dona! Ao computador em crise.

As coisas pioram

Não funcionando o rebutar, esse rebotalho, fiz o que qualquer idiota faria. Tirei todos os fios de seus devidos lugares, procurei apertá-los bem, mexi em tudo que podia mexer.

Fui até o manual de instalação. Em duas horas, repassei passo por passo do processo (tente dizer essa frase bem depressa). Nada, absolutamente nada.

Uma telona mostrando o topo da mesa de trabalho (vulgo e vulga “desk top”), a bucólica paisagem que serve de fundo para minhas andanças e virações, do Internet Explorer ao Dicionário Houaiss e o “folheador”, se assim se pode dizer, de 80 anos da revista The New Yorker, mais uns trecos que servem para queimar (eles chamam de “burn”, eu prefiro copiar) CD ou DVD e por aí afora. Botem afora nisso. Nada. Tudo paradão.

Fiz então o que deveria ter feito nos primeiros instantes: ligar para meu guru informático, o bom Maurício, que me comprou e instalou tudo, inclusive o “wireless” ou “sem fio”, que a técnica de um hotel 5 estrelas no Rio chamou de Vifi, como se fosse um velho ponta-esquerda do Vasco.

Saquei do aparelho. Nada. Mudo como um torcedor botafoguense na bateção de pênaltis de domingo passado. Dei uns trancos no bicho.

Continuou impávido sem dizer palavra. Muito simples, ou muitíssimo complicado: minha casa estava sem telefone e, até onde sei, sem telefone computador não funciona.

Fui até a rua. Disquei para o número de reclamações da telefônica. Confirmaram minhas suspeitas: meu telefone estava mudo. Um técnico viria à minha casa no dia seguinte entre 8 e meio-dia, ou 2 às seis. É sempre assim aqui na Inglaterra. Há que se perder um dia esperando o “engineer”, um simples técnico ou “ómi”, pomposamente engendrado nas malhas da engenharia.

Fim de saga triste

Depois de 4 horas e 37 minutos, no relógio, de briga com computador e telefônica, me vi nas mãos das traças, feito se dizia. Dependia de um “engineer” que agora só no dia seguinte. Fiquei o resto do dia sem computador.

Que fazer, Santo Deus? Ver televisão? Sabendo que o computador está morto? Ler nas proximidades do falecido? Ouvir discos? Impossível. Só dois Lexotan me deram condição de chegar ao dia seguinte e ao “engineeer” que, quebrando-me o galho, ajustou minha vida.

De volta às minhas EnTubações, 24 horas depois, me dei conta de como aquele bicho se apossara de minha vida e, caso a tenha, talvez até mesmo minha alma. Vou mais longe: minh'alma. Clássica em sua estrutura básica, reles e vulgar em seu dia-a-dia.

Passo com respeito e uma certa distância do computador agora. Como se fosse uma mulher que me tivesse humilhado e feito sofrer. Essa história não dará samba.

 
 
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