BBCBrasil.com
70 anos 1938-2008
Español
Português para a África
Árabe
Chinês
Russo
Inglês
Outras línguas
 
Atualizado às: 14 de maio, 2007 - 09h50 GMT (06h50 Brasília)
 
Envie por e-mail Versão para impressão
Legado de Blair
 
Ivan Lessa
Depois de 10 anos e caquerada, lá se vai o premiê Tony Blair, quinto de seu partido, o Labour, a ocupar o posto.

Na semana passada, anunciou oficialmente em seu distrito eleitoral, fez um discurso que tocou em primas e bordões, sempre com aquele ar meio assustado que lhe valeu o apelido de Bambi nesses anos todos, e pediu seu chapéu político.

A peroração (epa!), conforme mais de um jornal apontou, era direitinho o “My Way”, do Frank Sinatra, em forma de recitativo dramático. Uma espécie de “fi-lo porque qui-lo” (aliás Jânio nunca disse isso) e agora só se fala nele, Blair, e qual será seu legado.

Os britânicos têm mania de legados. Mais de 35 anos de Grã-Bretanha, vivendo sob a guarda e sombra de seis primeiros-ministros (acabei de contar), respeitando a todos eles, conforme sugere meu tipo de visto de residência, torcendo apenas secretamente e em português apenas com os mais íntimos (são 4, contei também), descobri que o importante não é conduzir os destinos sociais e econômicos da nação: o importante é fazer as coisas de modo a deixar um legado legal.

Os destinos sociais e econômicos que se virem. Os tecnocratas e o vasto aparelho de servidores públicos que cuidem disso.

Legado tem que ser regado todos os dias. Qual o legado de Anthony Eden? O vexame de Suez. De Alec-Douglas Home? Ter chegado a tão alto posto apesar de cavalheiro de boa família.

Harold McMillan? Os ventos da mudança, descolonização, escândalo Profumo (vejam o filme, não é mau). Harold Wilson? A lista de honrarias ao deixar o alto cargo. Edward Heath? A semana de 3 dias. James Callaghan? Lixo em Leicester Square e ele voltando do Caribe e fazendo, segundo os jornais (ah, os jornais ingleses!), a pergunta, “Crise? Que crise?”.

Margaret Thatcher? Taí, essa tem legado para valer: de privatizações e desregulamentações até – e esse talvez o mais importante – a Guerra das Malvinas (eu digo Malvinas para vocês, um inglês por perto e vou de Falkland). Pensando bem, é legado batatolina mesmo.

Legados brasileiros

Muito chique isso tudo. Com jeitão inclusive de slogan: “Governar é deixar legados”. Penso, no entanto, em nossos presidentes, já que desprezamos premiês.

O Brasil começou com Getúlio Vargas. Não houve ninguém antes dele. Nossa memória é sutilíssima. Getúlio Vargas I deixou um legado de ditadura, trabalhismo e Volta Redonda. Não foi um legado sensacional.

Eurico Gaspar Dutra deixou o legado de ter terminado com o jogo por capricho de sua excelentíssima senhora, Dona Santinha.

Getúlio Vargas II deixou um legado e tanto: passou desta para a história com uma única bala certeira no peito e uma carta-testamento mais decorada que o discurso do “Fico” de D. Pedro II.

Depois, Juscelino, com seu legado multicor e telenovelístico: Brasília, indústria automobilística, multimilionários que não acabavam mais, não acabaram ainda, tão cedo não vão acabar. Taí, Carlos Lacerda não deixa de ser um legado de JK.

Daí… daí vieram um militar após o outro por cima da gente (sim, isso mesmo, “por cima da gente”) até Tancredo Neves que, como legado, deixou o supremo sacrifício de morrer e dar início a uma imortalidade, a de José Sarney.

Depois legados de Collor (impeachment é um legado de se tirar o chapéu, já que até hoje não se encontrou uma tradução para a destituição. Deve estar impeachment mesmo numa de nossas jamesjoyceanas constituições) e de Itamar Franco, que se legou a si mesmo, deu um salto mortal e caiu de pé ao lado de FHC, que, por sua vez, deixou um legado que ninguém quer ver, ouvir falar, discutir ou escrever a respeito.

Daí, no gostosíssimo posto de semear legados, vem Lula que não acaba mais.

Afirmam-me que assim é parece. Seu legado será aposentadorias. Muitas aposentadorias. Gordíssimas aposentadorias. Conforme a língua ferina dessa gente. Estou muito longe, não posso opinar.

A vaca fria

Voltando ao discurso de despedida de Tony Blair, chamo a atenção para uma de suas frases finais.

Disse o homem cujo legado – não tem por onde, vai ser a invasão do Iraque com sua interminável chacina – está em pauta, que esta nação aqui é a maior do mundo, a maior na face da Terra.

Não sei, não. Ele e George W. Bush são tão amigos.

Capaz dessa pegar mal do lado de lá do Atlântico. Um mau legado. Tsk, tsk, tsk.

 
 
Arquivo - Ivan
Leia as colunas anteriores escritas por Ivan Lessa.
 
 
NOTÍCIAS RELACIONADAS
Drops
11 maio, 2007 | BBC Report
Infopânico
09 maio, 2007 | BBC Report
Bola de gude
04 maio, 2007 | BBC Report
Estrela Acompanhada
02 maio, 2007 | BBC Report
Decadência de abril
30 abril, 2007 | BBC Report
Por que não?
27 abril, 2007 | BBC Report
Cem anos de dinheirão
25 abril, 2007 | BBC Report
Atirando no que não se viu
23 abril, 2007 | BBC Report
ÚLTIMAS NOTÍCIAS
 
 
Envie por e-mail Versão para impressão
 
Tempo | Sobre a BBC | Expediente | Newsletter
 
BBC Copyright Logo ^^ Início da página
 
  Primeira Página | Ciência & Saúde | Cultura & Entretenimento | Vídeo & Áudio | Fotos | Especial | Interatividade | Aprenda inglês
 
  BBC News >> | BBC Sport >> | BBC Weather >> | BBC World Service >> | BBC Languages >>
 
  Ajuda | Fale com a gente | Notícias em 32 línguas | Privacidade